Caminhada Pedras Grandes/SC

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Bem-vindos, peregrinos!

Por: Inácio Stoffel

26 e 27 de setembro de 2015

“Pedras Grandes saúda os peregrinos de Santiago de Compostela!”. Foi com esta saudação – escrita em faixa exposta na praça – que fomos recebidos. A pequena cidade estava em festa para homenagear o santo padroeiro: São Gabriel Arcanjo. E percebia-se no ar a agitação dos organizadores para atender ao público que viria sábado e domingo participar. Um misto de religiosidade e festividade, ambas autênticas, como são autênticas as comunidades interioranas.

Nosso ônibus nos conduziu ao distrito de Azambuja, de onde fomos levados em micro-ônibus e vans até a localidade de Alto Taquari, de onde iniciamos a caminhada em direção à sede do município. Um pouco de vento, outro tanto de chuva, uma pitada fraca de sol e logo estávamos passando em frente à igreja de São João, cuja fachada é toda azulejada. Mais adiante, a visita a duas vinícolas familiares, que peregrino não vive só de caminhar. Uma delas, num porão entulhado de garrafas e garrafões de vinho, suco de uva e cachaça. Prova de um, prova de outro, dúvida cruel, difícil de decidir. Então vamos beber tudo de novo e aí, quem sabe…

A outra vinícola, mais moderna, tem por especialidade o vinho Goethe. Trata-se de uma variedade híbrida que une cepas rústicas, mais resistentes, e cepas europeias, de sabor mais rico e delicado. O vinho Goethe já era produzido em 1887, por praticamente todas as famílias das colônias Azambuja (Pedras Grandes) e Urussanga para o consumo próprio. A vinícola visitada recebeu, em 2013, o prêmio de melhor Goethe da região. Ao lado da vinícola, a antiga casa de pedra dos pioneiros, construída há mais de 120 anos, ainda é habitada pelos descendentes.

Embalados pelo vinho, chegamos a Azambuja que, no final do século XIX, recebia os imigrantes italianos e de onde eram distribuídos pelas colônias de Pedras Grandes, Urussanga, Criciúma, Orleans, entre outras.

Estar em terras colonizadas por italianos e não provar sua comida é como não ter estado lá. Pois nós provamos um delicioso e farto lanche-almoço colonial: pães, bolos, cucas, rosca, mel, nata, linguiça, torresmo, queijo, polenta frita, sucos, café, leite e frutas. Ufa!, haja gula suficiente para provar de tudo. E esse “tudo” era legítimo, fruto da produção familiar dos moradores de Azambuja.

Satisfeitos e refeitos, partimos em direção ao centro de Pedras Grandes, dez quilômetros adiante, sob chuva intermitente. Belas paisagens, colírio para os olhos; o ruído do córrego ligeiro, música para os ouvidos; o cheiro da mata, o perfume da Natureza; os pássaros curiosos chamando: bem-te-vi! Pausa para meditação e recolhimento.

De quando em quando, estrondos: trovoadas para uns, foguetes, para outros. Pelo sim, pelo não, melhor apurar o passo na estrada marginal ao rio Azambuja. Cansados, porém felizes, fomos no instalar no hotel. Piscina térmica, excelente jantar, música e dança, camas confortáveis. Por que não? Peregrino também é gente. Boa noite!

Domingo, dia de missa para uns, dia de caminhada para outros. Para estes, por via das dúvidas, melhor pedir a benção do pároco. E lá fomos nós à igreja. Gentilmente o padre Valdir Ribeiro nos reuniu em círculo, fez-nos um pequeno e emocionado sermão (no bom sentido) e nos abençoou em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, assim como deve ser.

Uns ficaram para a missa. Nós, os outros, pusemos-nos na estrada, num percurso circular que nos traria de volta à cidade. Seguimos a estrada à margem esquerda do rio Tubarão por um bom tempo, na mesma direção do fluir das águas. Ao dobrarmos à esquerda, deixamos de ver o rio. Quilômetros à frente, o rio passou a correr em sentido contrário ao nosso. Como, se não passamos à outra margem e continuávamos caminhando em frente? Mistério!

Uma ambulância passou por nós. Estava nos acompanhando e à nossa disposição. Muita gentileza, mas “eles” não conhecem a resistência e determinação peregrina. Sua única utilidade foi nos mostrar onde devíamos dobrar para voltar ao ponto inicial da caminhada. E foi neste trecho – o mais bonito, porque de mata natural e pouco habitado – que tivemos nosso maior desafio: subir, subir e subir e, então, descer, descer e descer. E logo já víamos a torre da igreja. Estávamos chegando.

E chegando com fome. A caminhada foi mais curta que a do dia anterior, mas mais exigente. Mas compensou, pois, caminhar é sabemos fazer bem e com prazer: pelo exercício, pela companhia, pela paisagem, pela cultura da região visitada e por tantas outras razões coletivas ou pessoais. Valeu!

Sim valeu. Mas não acabou. Ainda tivemos um almoço daqueles que não se tem em qualquer lugar: porco recheado à pururuca, com purê de aipim e saladas. Uma delícia!

De resto, foi dar por terminado o passeio. O ônibus nos trouxe de volta a Florianópolis sãos e salvos, à espera da próxima aventura.

Em tempo: a solução do mistério do rio que ora corre num sentido, ora no outro, é que o primeiro trecho de rio era o Tubarão; o segundo – o que corria contra nós – era outro: o rio Braço do Norte, afluente do Tubarão. Como eu soube? Os mistérios também acabam ao se consultar um mapa da região.


Fotos: Maria Pesavento Pereira

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