VOCÊ SABIA: 1 – Saint-Jean-Pied-de-Port – FRANÇA – 772 Km de Santiago

Estamos inaugurando esta coluna – a ser atualizada toda a semana – para mostrar um pouco da História e das lendas do mais simples povoado às maiores cidades por onde passam os peregrinos, rumo à Santiago de Compostela.
Você ficará surpreso ao saber que mesmo povoados que hoje nos parecem insignificantes tiveram seus momentos de glória no passado, seja por algum evento histórico importante, seja por razões políticas ou econômicas, seja por edificações religiosas ou laicas das quais pouco ou nada restam, que agregavam uma população significativa para a época, além de visitantes trazidos pelos mais diversos interesses. Exemplo disso é Foncebadón, tão icônico, abandonado e assustador.
Quanto às lendas, estas sobrepõem-se umas às outras, contando milagres similares atribuídos a um mesmo santo ou a vários outros santos, em diferentes épocas e situações. Outras cobrem lendas mais antigas e lhes dão um verniz cristão, em especial as que se referem à Virgem Maria, em substituição às lendas de deusas ancestrais. Também há lendas que são representações fantasiosas de fatos reais, dando-lhes ares místicos ou heroicos.

1 – Saint-Jean-Pied-de-Port – FRANÇA – 772 Km de Santiago
Mesmo antes de sua existência, Saint-Jean era um local de passagem, mas já era integrada às vias romanas desde que estes se estabeleceram no norte da França e na Península Ibérica. O povoado foi a última escala da grande Calzada Romana Bordéus-Astorga. Por esta mesma estrada transitaram – no século VIII – as tropas de Carlos Magno, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, a caminho da Espanha, para apoiar os reis locais contra a invasão muçulmana e consolidar seu poder como imperador. Por isso, o caminho pelos Pirineus é chamado de Rota Imperial, ou – mais tarde – Rota de Napoleão, quando suas tropas invadiram a Espanha, no século XIX.
Saint-Jean-Pied-de-Port só passou a existir como vila no século XII. A cidade tornou-se um centro de comércio e comunicações importante, estabelecida e fortificada pelos reis navarros que a denominavam de “a chave de meu reino”. Por algum tempo foi capital navarra. Ainda se podem visitar o que restou do castelo-fortaleza de Mendiguren que assegurava o controle da região. Felipe III de Navarra lhe concedeu foros de comarca em 1329.
Em 1512, o exército do rei de Castilla Fernando, o Católico, invadiu e conquistou a Navarra. Contudo, os reis depostos continuaram os enfrentamentos; assim como outras localidades, Saint-Jean sofre ataques e incêndios. Em 1529, diante dos custos de manter o domínio, o novo rei espanhol Carlos I abandona a Baixa Navarra (França), que retorna aos reis locais.
Em 1620, o rei Luis XIII de França une as coroas francesa e navarra sob o governo do cardeal e primeiro ministro Richelieu e Saint-Jean é amuralhada, prevenindo ataques que pudessem vir do sul.
À época da Revolução Francesa, mais precisamente em março de 1789, os reis navarros reuniram-se em Saint-Jean e decidiram recusar-se a enviar representantes às assembleias dos Estados Gerais em Paris, declarando que a Baixa Navarra não era uma província francesa, mas um reino independente. Atualmente a região faz parte da região de Aquitânia, França, mas tem grande identidade com a região basca espanhola e, igualmente, luta por sua independência.
Em 1807, a artilharia do marechal Soult usou a passagem dos Pirineus para invadir a Espanha em nome de Napoleão, pois, embora mais íngreme, era pouco arborizada, dificultando as emboscadas.
Desde seu início, a esta pequena localidade francesa, confluíam as três grandes vias jacobeias que partiam de Paris, Vézelay e Le Puy. Os peregrinos entravam pela porta de Saint-Jacques (São Tiago), descansavam na cidadezinha para, então, continuar rumo a Santiago de Compostela.
A igreja de Notre-Dame du Bout du Pont é considerado um dos prédios góticos mais importantes do país basco francês. Sua construção é atribuída ao rei de Navarra Sancho, o Forte, em 1212.
O Cárcel de los Bispos é assim chamado pois foi transformado em cárcere no final do século XVIII. Originalmente, nos séculos XIV e XV, era a moradia dos bispos da Diocese de Bayonne. Atualmente é um museu.
Além das ruinas do Castelo-fortaleza, vale apreciar os casarões da cidadezinha e a bela ponte medieval sobre o Rio Nive.
Até mesmo antes do raiar do dia, peregrinos, a sós ou em pequenos grupos, iniciam a descida da rua principal – Rue de la Citadelle – em direção ao Portal d’España, como se este fosse uma comporta a abrir-se diante das águas peregrinas que, a partir dali, engrossam o caudaloso Caminho-rio.
O acesso aos Pirineus se faz por subidas acentuadas, íngremes e longas. O esforço é compensado pela visão da paisagem que se estende ao longe, em todas as direções. O alto das montanhas é inóspito; há poucos sinais de vida, sejam casas, animais ou carros; as matas são escassas e a vegetação rasteira é insossa. Porém, logo abaixo, as árvores parecem arremeter ao topo e, então, desistir. Outras, com menor ímpeto, invejam estar nos vales.O peregrino usufrui da beleza e quietude das paisagens, passando por Honto e Orrison, ainda na França. Logo adiante, há uma imagem da Virgem de Biakorri e a Cruz de Thibault, um bom lugar para descansar e apreciar a paisagem.
A meio caminho entre a localidade espanhola de Collado de Bentartea e Roncesvalles, o peregrino alcança o ponto mais alto da Rota Imperial (alusiva a Carlos Magno), também conhecida por Rota de Napoleão: 1.429 metros de altitude. A partir dali, chega-se a Roncesvalles pela estrada à direita, que leva ao porto de Ibañeta, ou seguindo o antigo caminho da Colegiada, em meio a uma floresta de faias, que, se em nada facilita a descida acentuada, enche os olhos de um lusco-fusco esverdeado, em meio ao silêncio apenas quebrado pelo canto dos pássaros.
Se optar pela estrada a Ibañeta, o peregrino conhecerá a Cruz de Rolando (ou Roldão), morto em emboscada, em 778.