Caminhos dos Tropeiros

Um pouco de história

Houve um tempo em que navegar os rios eram a única forma de alcançar pontos distantes no interior do país. E quando se chegava ao ponto em que nem navegar era possível? Abria-se picadas nas florestas, até chegar a uma região favorável à extração de madeira, ao plantio ou à pecuária. E, fazendo o caminho de volta, comercializar os frutos do trabalho: charque, carnes embutidas e defumadas, queijos, peles, tábuas de madeira, etc. Assim, as picadas originais eram alargadas para que tropas de mulas ou carroções fizessem o transporte das mercadorias do interior para o litoral, onde vivia maior parte da população. Na volta, os tropeiros – assim foram chamados – levavam o que não se produzia no interior: cortes de tecido, calçados, ferramentas, sal, farinhas de trigo, milho e mandioca, peixe seco, etc. Quando o dinheiro era escasso, adotava-se o escambo, ou seja, a troca de uma mercadoria por outra, por exemplo: uma dúzia de ovos por um quilo de carne. Este comércio promovido pelos tropeiros foi um grande incremento na economia da época.

O tropeiro catarinense conduzia tropas de mulas e boiadas de uma região para outra, às vezes próximas entre si, às vezes distantes, cruzando estados. Por mais de dois séculos esses viajantes transportaram alimentos, notícias e alegria entre as vilas e cidades da região, enriquecendo a vida social e afetiva das famílias, amigos e conhecidos separados pela distância.

Uma dessas picadas, aberta no século XVIII, ligava Lages ao litoral, por onde o tropeiro conduzia sua tropa ou carroção. De influência gaúcha, o tropeiro lageano vestia-se com bombacha, botas com esporas, guaiaca (cinturão) onde alojava suas moedas, fumo, garrucha e facão. Montava um cavalo ou uma das mulas e nos dias frios vestia poncho ou uma capa de feltro de lã, que cobria também as ancas da montaria. Sendo este um trabalho pesado, os tropeiros alimentavam-se com feijão, arroz, carne seca, toucinho salgado e farinha de mandioca. Tomavam café de chaleira e chimarrão, seja para acompanhar a comida, seja para aquecerem-se.

As mulas de carga levavam as mercadorias em grandes cestos de vime ou em bruacas (sacos ou malas de couro cru). Eram tipos rústicos e pouco afeitos a intimidades com desconhecidos; mostravam-se mais amistosos numa roda de chimarrão ou bebendo uma “pinga” num dos botecos de beira de estrada ou nos empórios, cada vez mais frequentes à medida em que os pequenos povoados se desenvolviam. Em Lages e arredores divertiam-se nos fandangos à moda gaúcha.

O declínio da profissão deu-se com o advento dos caminhões e os tropeiros perderam seu espaço na economia. Os que puderam fixaram-se a um tanto de terra, outros foram trabalhar de peões em fazendas, outros ainda mudaram-se para o litoral para tentar a sorte. Mas havia os que – infelizes e desajustados – desestruturaram-se por completo, entregando-se à melancolia e tornando-se, de provedores, dependentes.

O Caminho dos Tropeiros

O Caminho dos Tropeiros é promovido pela ACACSC desde 2015 e procura lembrar a epopeia dos tropeiros em Santa Catarina e, de certa forma, reconhecer seus méritos na consolidação econômica do Estado, pelos quais são homenageados com o Dia do Tropeiro (26 de abril).

A caminhada de 220 quilômetros entre Lages e Florianópolis conduz os caminhantes por Bocaina do Sul, Rio Rufino, Canoas, Bom Retiro, Alfredo Wagner, Rancho Queimado, Angelina, São Pedro de Alcântara e Florianópolis.

Mesclando estradas rurais e ruas das várias vilas do interior e sedes de municípios, a caminhada é feita ora no topo de uma montanha, com ampla visão do horizonte, ora nos vales, por onde se aligeiram rios e riachos de águas frescas e límpidas. Um convite à contemplação e à reflexão. Ou a uma animada conversa com o companheiro ou companheira ao lado.

Além das belezas naturais – a floração do manacá da serra entre elas –, é possível visitar o Museu da Imigração (Bom Retiro), o Museu de Arqueologia (Lomba Alta, em Alfredo Wagner), o Museu Hercílio Luz (Taquaras) e os monumentos ao Tropeiro em vários municípios. E, apesar da simplicidade dos hotéis ou pousadas, as fartas e deliciosas mesas do café da manhã são de encher os olhos e o estômago.

Enfim, de cidade em cidade, descendo a bela Serra Catarinense, chega-se ao destino, a capital do estado, oito dias após o início da caminhada. Na bagagem, a roupa suja; na alma, a alegria de ter participado de mais esta aventura pioneira.