Camino de Santiago Sine Die

Camino de Santiago Sine Die. Com este título que reflete bem a incerteza em que vivemos, sem poder vislumbrar quando nem de que maneira se vai reativar a peregrinação a Santiago de Compostela, o jornalista e historiador especializado no Caminho Antón Pombo fez várias perguntas aos presidentes de Associações de Amigos do Caminho espanholas e donos de restaurantes, pousadas e albergues de peregrinos, cujas respostas resumimos a seguir.

Antón perguntou: Que acredita que vai acontecer? Como vai se ressentir a peregrinação? Se recuperará de pronto o fluxo de peregrinos em todas as rotas? Haverá mudanças substanciais na forma de peregrinar? Haverá negócios que não resistirão e terão que cerrar as portas? O que ocorrerá no Ano Santo (2021)?

Respostas:

  • Houve muitos cancelamentos de reservas em pousadas e albergues, tanto para o primeiro como para o segundo semestre, principalmente de parte de peregrinos estrangeiros.
  • Entre os estrangeiros há o temor de contágio e/ou de que se fechem as fronteiras, impedindo-os de retornar a seus países.
  • Mesmo antes de decretado o fechamento de hotéis, pousadas e albergues, já havia peregrinos que solicitavam quarto privado.
  • Os donos de albergues, que atendem eles mesmos aos peregrinos, já dão como perdido o primeiro semestre. Os que contratam pessoal dão como perdido também o segundo semestre de 2020.
  • Há quem sugira que, após a crise, se faça um estudo para conservar o tecido empresarial ao longo do Caminho e recuperar o que for necessário.
  • Antes de mais nada, os responsáveis por pousadas e albergues deverão aplicar medidas extremas de higiene, para garantir o bem-estar dos peregrinos.
  • Há a consciência de que, passada a crise na Europa, peregrinos de outros países possam trazer o Conavid-19 de volta à Espanha. Por isso, até que a situação se normalize em todo mundo, continuarão vigentes certas limitações para evitar a concentração de pessoas.
  • Os peregrinos voltarão a conta-gotas, mas a recuperação será progressiva, a partir do segundo semestre de 2020. Porém, como haverá sérios danos à economia mundial, poderá ocorrer uma contenção de gastos e consequente contração no número de peregrinos.
  • Os primeiros a retomar o caminho serão os espanhóis. Quanto aos estrangeiros, estes levarão mais tempo para recobrar a confiança e voltar ao Caminho.
  • Provavelmente, muitos peregrinos vão buscar rotas alternativas do Caminho, evitando as mais procuradas.
  • Um evento que sempre alavancou um aumento expressivo de peregrinos é o chamado Ano Santo, em que o dia de Santiago – 25 de julho – coincide com um domingo. É o que ocorrerá em 2021, trazendo muita esperança de rápida recuperação do Caminho.
  • O XII Congresso Internacional de Associações Jacobeas, organizado pela Federação Espanhola, que este ano será em Madrid, teve sua data remarcada de maio para data outubro de 2020.

Porém, também houve respostas mais otimistas e esperançosas:

“A curto prazo é certo que vai mudar o perfil do peregrino. Às multidões, aos milhões de turigrinos, os afetará muito. Pode ser que isto seja para o bem, uma limpeza, porque os que vêm ao Caminho só como turistas serão os primeiros que deixarão de vir.” (Jorge Martínez Cava, presidente da AACS de Madrid)

“As pessoas mergulharão em si mesmas, em busca de seu interior, e o Caminho vai crescer com outra consciência, e não só para selar (a credencial) e obter a Compostela.” (Fátima, proprietária de albergue rural no Caminho Primitivo)

“Vamos ter um exército de peregrinos dispostos a vir ao Caminho novamente, como uma via de escape para liberar-se ou dar graças, para poder estar sós em um espaço aberto.” (…) “A peregrinação resistirá, porém, talvez não igual ao que vinha sendo. De modo que a água volte ao seu leito natural, do qual nos últimos anos se havia transbordado.” (Juan Carlos Pérez, presidente da AACS de Astorga e da Fraternidad Internacional del Camino de Santiago)

“Esta situação nos vai convidar a todos à reflexão, a buscar uma vida mais autêntica. O Caminho promove a autenticidade, pelo que se converterá em um destino-refúgio. Muita gente que não havia pensado no Caminho, virá a ele” (Isaías Calvo, responsável pelo Xacobeo 2021, o Ano Santo)

“Talvez se produza um renascer do sentido da peregrinação para cumprir uma promessa, que não pode ser outra que agradecer a Santiago o haver superado a crise sanitária, ou pedir em frente a seu túmulo, pelos que se foram.” (Roger, presidente da AACS del Bierzo)

“O Caminho é perene, sempre espera com o coração aberto aos que queiram transita-lo há centenas de anos, e, portanto, é só um ‘até logo’, para que aprendamos a valorizar as coisas de outra maneira: nossa vida, a família, a natureza.” (…) “Logo ajudarei companheiros do Caminho e me ajudarão outros e compartiremos aperitivos, jantares, canções, abraços e mochilas. E todos percorreremos em nosso ritmo esta rota eleita, que não será mais que nossa própria rota de vida, porém o faremos solidariamente, pensando no outro e seguros de que cada vez que pronunciemos nossa saudação, será sincero e do mais profundo do coração. Porque, então, este dia, o dia em que voltemos a caminhar, ao cruzar com outro, o olharemos nos olhos e mais felizes que nunca lhe diremos: ¡Buen Camino!” (Silvina Potenza, escritora argentina)