Voce sabia 2 – Roncesvalles (ou Orreaga) – Província de NAVARRA – 747,1 Km de Santiago

2 – Roncesvalles (ou Orreaga) – Província de NAVARRA – 747,1 Km de Santiago
Roncesvalles foi sempre a via de acesso para a Península Ibérica. Por ali passaram os celtas, os bárbaros e os godos, que se estabeleceram às margens do rio Duero.
No retorno de sua incursão pela Espanha, em 778, Carlos Magno cruzou os Pirineus a caminho da Aquitânia, província da França. Entre Burguete e Roncesvalles, no desfiladeiro de Valcarlos, montanheses bascos atacaram a retaguarda dos exércitos carolíngios, composta de vinte mil soldados e comandada por Rolando, sobrinho do Imperador e um dos Doze Pares de França. Emboscada, a elite do exército imperial foi chacinada. Atendendo ao apelo de socorro das trompas, o Imperador retrocedeu, mas chegou tarde: seus homens estavam mortos e os atacantes sumidos. Menestréis passaram a contar e a cantar a história, embelezando-a até chegar-se ao que se conhece como a Canção de Rolando, dando ao personagem auras de herói.
Fundado no século IX, o monastério Real Colegiata de Santa María de Roncesvalles segue sendo um dos principais marcos do Caminho. Foi fundado pelo bispo de Pamplona Sancho Larrosa, com a colaboração do rei de Aragón Alfonso I, o Batalhador, e de alguns nobres. Desde sua fundação, os papas o tomaram sob sua proteção e foi regido por um cabido de cônegos regulares de Santo Agostinho. Seu prior segue ostentando o título medieval de Grande Abade de Colônia. Foi uma das mais ricas e desprendidas hospedarias da rota jacobeia, chegando a servir mais de 25 mil refeições aos que ali buscavam abrigo, em 1660.
A construção mais luxuosa de Roncesvalles é a Igreja da Real Colegiada de Santa Maria, um dos primeiros templos góticos da Espanha e o melhor exemplo do gótico em Navarra. Nela está uma preciosa imagem da Virgem, datada do século XIV. O templo foi construído pelo rei navarro Sancho VII, o Forte, no século XIII. Num dos vitrais o rei é retratado como vencedor da Batalla de las Navas de Tolosa, ocorrida em 1212. Três incêndios deixaram suas marcas na colegiada e só uma obra de reconstrução do claustro e da igreja, no século XVII, impediu que se deteriorasse totalmente. Nessa época, seu interior sofreu inclusões detalhes em estilo barroco.
A capela de Santiago também é conhecida por Torre de San Agustín, Capilla Real e Sala Capitular. Tem planta quadrada e é coberta por uma abóbada de sustentação mais elaborada que a da igreja, apoiada em quatro mísulas decoradas com anjos. Dois capitéis representam o pecado original e a expulsão do Paraíso. Em seu interior está o corpo do rei Sancho VII. Seu exterior lembra uma fortaleza.
A Casa Priorial possui uma biblioteca de mais de 15 mil volumes. Escritos em diversos idiomas, entre os quais o hebreu, grego, latim e chinês, os livros tratam de questões teológicas, filosóficas e de história eclesiástica. Um dos mais preciosos é o códice La Pretiosa, do século XIV, exposto no museu da Colegiada. Soma-se a isso uma seção de Arquivo Histórico que cobre os nove séculos de existência da Colegiada.
Ainda como parte do conjunto, há um museu com pinturas, esculturas, relicários, ourivesaria, móveis, tapetes e moedas. As peças mais antigas remontam ao século XIV, algumas delas envolvidas em lendas, como a esmeralda que se diz ter sido tomada por Sancho VII, o Forte, do turbante do rei mouro na batalha de Navas de Tolosa.
Não distante dali, está a capela de Sancti Spiritu, também conhecida como Silo de Carlos Magno por supor-se que sua origem se deve ao enterro dos combatentes francos mortos pelos bascos em 778. Por tal razão, a capela é considerada um templo funerário. Ademais, ali eram oficiadas missas pelos peregrinos falecidos na região e, mesmo que enterrados em outro lugar, seus restos eram depositados no ossário, sob as lajes da capela.
A Igreja de Santiago dos Peregrinos, em estilo gótico, do século XII, é uma estrutura de planta retangular. Em seu interior há uma imagem do Apóstolo Santiago. A igreja foi utilizada como paróquia até o século XVII e restaurada no século XX.
À noite, todos, crentes e descrentes, são convidados a assistir ao ritual da bênção aos peregrinos no antigo templo gótico de belos vitrais e de clima propício à cerimônia. É uma experiência surpreendente ouvir o padre celebrante relembrar a história de São Tiago Maior, apóstolo de Jesus, que pregou sua fé em terras de Espanha, ainda no alvorecer do cristianismo e os cânticos dos monges retumbar entre as arcadas góticas da capela, enquanto toma consciência da intensa aventura interior que vai enfrentar. Ao final, os caminhantes se aproximam do altar-mor e são abençoados em vários idiomas, num ritual que remonta a muitos séculos atrás.
Ao clarear do dia começa a grande experiência. Roncesvalles é deixada para trás por uma trilha que segue paralela à rodovia. À esquerda, logo ao sair, está o primeiro cruzeiro, gótico, do século XIV. Trilhas cobertas por um teto de folhagem e prados bucólicos o vão acompanhar ao longo do dia.