Você Sabia 20 – Burgos – BURGOS – 484,3 Km de Santiago

A palavra burgo provém do latim – burgus – e significa cidadela ou povoado fortificado. Os burgos surgiram na Baixa Idade Média, com a decadência do sistema feudal e o crescimento urbano provocado pelo processo de troca de produtos entre um burgo e outro.

Além dos achados de Atapuerca que provam assentamentos humanos na região desde a pré-história, ainda há vestígios da Calzada Romana Bordéus-Astorga ao norte de Burgos.

Burgos tem início a partir de uma fortificação erguida por Diego Rodrígues Porcelos, a mando do rei castelhano Alfonso III, em 884, para deter o avanço dos mouros que vinha fazendo incursões na região desde 860, saqueando e aterrorizando os povoados. A partir de então, Burgos teve sua importância estratégica aumentada sistematicamente. Já em 931 a vila foi escolhida como capital do Condado de Castilla. Com a criação do reino de Castilla, em 1035, tornou-se capital do reino em 1038, logo após a coroação de Fernando I, em León. Estes fatos, somados ao translado do bispado de Oca para Burgos, em 1075, deram-lhe o impulso necessário para converter-se durante séculos na cidade mais importante da Espanha.

Em 1080, o rei de León y Castilla Alfonso VI convocou um concílio geral de seus reinos em que foi abolido o rito litúrgico hispânico (ou visigótico) e substituído pelo romano. Uma das razões era obter as bênçãos papais e o reconhecimento do reino pelo papa e por outros reinos cristãos da Europa.

O mesmo Alfonso VI reconquistou Toledo aos mouros, em 1085, e para lá transferiu a capital do reino. Mesmo assim Burgos progrediu no período porque parte da administração real continuou na cidade. O geógrafo árabe Al-Idrisi descreve a cidade no século XII: “é uma grande cidade, dividida em bairros rodeados de muros (…) é forte e preparada para defesa. Há bazares, comércio e muita gente e riquezas. Está situada sobre uma grande rota de viajantes”. O século XVI foi o século de seu apogeu. De agrícola, torna-se comercial, explorando ao máximo o potencial de sua localização geográfica.

No século seguinte ocorreu um período de decadência ocasionado pela transferência da capital para Madrid e o centralismo dos monarcas absolutos, além dos desdobramentos do descobrimento da América e da Guerra de Flandres. (Nos séculos XVI e XVII, os Países Baixos, hoje Holanda, revoltaram-se com a ocupação espanhola e guerrearam por oitenta anos por sua independência, conseguida em 1648).

Numa tentativa de recuperar-se, foi criada uma Academia de Artes e Ofícios, em 1781 e uma faculdade de Medicina junto ao Hospital de La Concepción, ativa entre 1799 e 1817.

Durante a guerra civil (1936 a 1939), Burgos foi a sede da Junta de Defensa Nacional e do Primer Gobierno Nacional de España, durante o qual Francisco Franco assume oficialmente os cargos de Jefe de Estado y de Gobierno. Ao final da guerra, o centro de poder retorna a Madrid.

Seu filho mais ilustre é Rodrigo Días de Vivar, chamado de El Cid (Senhor) e de Campeador (Campeão), que foi um nobre guerreiro castelhano que viveu no século XI, época em que a Espanha estava dividida entre reinos rivais de cristãos e muçulmanos. Sua vida e feitos tornaram-se lenda, sobretudo devido à ‘Canción de Mio Cid’, datada de 1207. A imagem que emerge desse manuscrito é a do cavaleiro medieval idealizado: forte, valente, leal, justo e piedoso. Mas há outras fontes que lhe pintam um retrato bem menos favorável. Acolhido na corte do rei de León Fernando I, tornou-se amigo de Sancho, um dos infantes. Com a morte do rei, o reino foi divido entre seus cinco filhos. A Sancho coube Castela; inconformado, ele passou a lutar pela reunificação, com o auxílio de Rodrigo Días de Vivar, cujas proezas logo o fizeram receber o título de Campeão. Nestas guerras fratricidas, Sancho acabou por ser morto e Rodrigo, desterrado.

Em Valência, tornou-se amigo e protegido de Al-Cádir, o rei mouro local. Lutando por Al-Cádir conquistou o título de El Cid (Senhor). Lutando ora por reis mouros, ora por reis cristãos, Rodrigo juntou um grande exército e, ao saber do assassinato de Al-Cádir, atacou e tomou Valência, em 1094. Ao se tornar senhor de Valência, mostrou-se um governante justo e equilibrado. Outorgou à cidade um estatuto de justiça, implantou a religião cristã, mas, ao mesmo tempo, renovou a mesquita dos muçulmanos, cunhou moedas e rodeou-se de uma corte de estilo oriental, composta tanto por poetas árabes quanto cristãos. Defendendo com denodo sua cidade, Rodrigo governou Valência em nome do rei de Castilla y León Alfonso VII, mas seu poder era independente do rei. Apesar das lendas, sua morte se deu por razões naturais.

Burgos possui um grande número de igrejas, conventos e monastérios construídos na Idade Média e na Idade Moderna, em vista da importância da cidade naquelas épocas.

A catedral de Santa María La Mayor é seu exemplo mais representativo. Sua construção começou em 1221, sob o reinado de Fernando III, o Santo, e foi concluída em 1260, em estilo gótico francês. Os pináculos das torres, a capela Del Contestable e a torre do zimbório foram acrescentadas nos séculos XV e XVI, caracterizando seu perfil inconfundível, altivo e airoso, que ainda hoje impressiona por sua grandiosidade. A catedral fascina à primeira vista. Suas variadas torres, rosáceas e vitrais são adornados de um requintado rendilhado. Igualmente majestosa é a vista interna: sustentadas por imponentes colunas esculpidas, as altas cúpulas são rematadas por zimbórios que mais parecem graciosas rendas suspensas por invisíveis fios celestes. Suas esculturas de santos e anjos e seus magníficos altares e retábulos, recobertos de ouro, ilustram histórias sagradas, com grande arte e didática. Chamam a atenção por sua beleza os assentos do coro, a estatuária externa, a capela mortuária de Los Condestables Pedro Fernández de Velasco y Manrique de Lara y Mencía de Mendoza y Figueroa e a lápide que marca o túmulo de Rodrigo Díaz de Vivar, El Cid e de Doña Jimena Díaz, sua esposa. 

O crucifixo da catedral veio do convento dos agostinhos, já envolto em lenda. Consta que um comerciante da cidade, antes de uma viagem, prometeu aos monges de Santo Agostinho trazer-lhes uma relíquia em troca de suas orações por sua segurança e sucesso no empreendimento. Em sua viagem de retorno, o comerciante lembrou-se de sua promessa. Tomado de vergonha e ansiedade, fez uma oração, terminada a qual ouviu o vigia do navio gritar que havia um corpo flutuando no mar. Desceram um escaler e recolheram um crucifixo cuja perfeição artística era tanta que parecia ter vida. Até por sua aparição miraculosa, esta seria a relíquia ideal a ser doada pelo comerciante ao convento. Anos mais tarde, a rainha Isabel I, a Católica, visitou a catedral, para onde o crucifixo havia sido transferido. Fascinada, a rainha empenhou-se em levar como objeto de devoção um dos cravos da cruz. Tirado o cravo, o braço de Cristo caiu junto ao corpo. A rainha desmaiou.

O monastério de Santa María La Real de Las Huelgas, de monjas cistercienses, foi fundado em 1189 pelo rei de Castilla Alfonso VIII para receber filhas das famílias nobres. Boa parte da realeza e da nobreza castelhana da época ali está enterrada. Digno de nota é o Museo de Telas Medievales de Burgos, abrigado neste monastério, bem como o Pendón de las Navas de Tolosa, troféu arrebatado aos muçulmanos na Batalla de las Navas de Tolosa, em 1212.

A Cartuja de Santa María de Miraflores, em estilo gótico, é um conjunto monástico nos arredores da cidade. Foi fundado em 1441 pelo rei castelhano Juan II. Em 1453, foi acrescentada a sepultura do rei e sua esposa Isabel de Portugal, pais da rainha Isabel, a Católica, e do infante Alfonso, seu irmão.

A igreja de San Gil, em estilo gótico, foi construída sobre a ermida de San Bartolomé. Suas capelas laterais abrigam retábulos góticos dos séculos XV e XVI.

A igreja de San Esteban, gótica do século XIII, foi construída sobre um antigo templo romano e abriga o Museo del Retablo, que reúne uma coleção de retábulos do século XV ao século XVIII, procedentes de diversas localidades da província de Burgos.

A igreja de San Nicolás de Bari foi erguida em 1408 e abriga um dos retábulos mais belos, detalhados e monumentais do Renascimento Castelhano, ilustrando cenas da vida do santo.

O convento de Santa Clara, de monjas clarissas, foi construído em estilo gótico, no século XIII.

A igreja de San Lesmes, patrono da cidade, é uma das mais antigas, do século XI. Foi erguida por encomenda do rei de Castilla Alfonso VI e abriga os restos mortais do santo. Foi ampliada no século XIV pelo rei castelhano Juan I.

Cidade de muitas igrejas, em Burgos podem ser visitadas as igrejas de Santa María la Real, de La Merced, de San Cosme y Damian, de Santa Águeda, de San Lorenzo (em estilo barroco), a ermida de San Amaro, o monastério de San Juan e o convento de Santa Dorotéa.

Entre as construções históricas civis, destacam-se o palácio de Castilfalé, do século XV, residência ocasional do rei Fernando VII e de Napoleão Bonaparte e o palácio de Los Condestabels de Castilla, também conhecido por Casa del Cordón, do século XV; foi nele que os reis Católicos – Fernando e Isabel – receberam Cristóbal Colón, após sua segunda viagem à Índia.

Da fortaleza erguida por Diego Rodríges Porcelos sobram apenas as fundações, pois foi explodido pelas tropas napoleônicas em 1813. Mesmo o que se vê de suas muralhas externas impressiona por seu vigor e imponência.

Na época do rei Alfonso X, o Sábio, século XII, Burgos era uma cidade amuralhada, protegida por 90 torres e doze portas em arco, alguns dos quais ainda existem: San Martín, San Esteban, San Juan e San Gil. Porém o arco mais belo é o Arco de Santa Maria, um dos monumentos mais emblemáticos da cidade e reconstruído em honra a Carlos I rei da España e Imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Com o crescimento da cidade a partir do século XIX, parte dos muros foram derrubados.

Também surpreendem as muitas esculturas em bronze espalhadas pela cidade, os muitos parques e passeios e o magnífico Museo de la Evolución Humana. Nele são conservados, inventariados e expostos os achados dos sítios arqueológicos de Atapuerca, constituindo-se numa referência internacional do processo evolutivo do homem em seus aspectos ecológicos, biológicos e culturais.

O Caminho passa ao largo do povoado de Villalbilla, que é pouco visitado, a menos que o peregrino queira pernoitar em seu pequeno e sóbrio albergue.