Você Sabia 21 – Hontanas – BURGOS – 454,8 Km de Santiago

Hontanas é uma localidade pequena como o vale em que está encravada e que a abriga dos fortes ventos outonais. O nome se deve às numerosas fontes que ofereciam água ao caminhante. Conta com serviços suficientes para o descanso após uma larga etapa. Parte do hospital medieval de San Juan foi restaurado como albergue de peregrinos.

A igreja de La Inmaculada Concepción é de estilo neoclássico, embora originariamente tenha sido construída em linhas góticas, no século XIV, anexa ao palácio do bispo de Burgos, antigo proprietário da vila. Um belo retábulo barroco dourado, em forma de gruta apoiada sobre colunas artisticamente torneadas – como que protegendo a padroeira e os santos em seus respectivos nichos – contrasta com a simplicidade das paredes brancas e nuas do templo.

Próximo de Hontanas está a ermita de La Virgen de Espinosa. De acordo com uma lenda local a Virgem teria aparecido a um dos moradores locais. Já houve época em que se realizava uma romaria entre a vila e a ermida, quando se trocava a Virgen de Espinosa pela Virgen del Rosario.

A caminho de Castrojeriz, o peregrino passa por um lugar carregado de magia e esoterismo: o velho convento de San Antón. A ordem dos Antonianos foi fundada em 1095, durante o delfinado francês e se estendeu por toda a Europa, chegando a ter quase 400 hospitais-albergues, graças a seus conhecimentos de cura do ‘fuego de San Antón’, uma enfermidade gangrenosa parecida com a lepra, que assolou o continente nos séculos X e XI. As túnicas pretas com o tau grego que vestiam, a caridade que exerciam e seu culto à cosmogonia oriental e a tradição iniciática os fizeram famosos no Caminho. Do edifício gótico do século XIV só se salvaram algumas paredes da nave central, parte da abside e a fachada da igreja o gigantesco arco do alpendre que servia de abrigo aos caminhantes. À esquerda do arco pode-se ver os nichos onde os monges deixavam comida para os peregrinos que chegavam à noite e dormiam fora do edifício. Neste lugar agora silencioso, que outrora fervilhava de atividade, o peregrino pode sentir a presença de milhares de outros que o antecederam em busca de um sonho.

Castrojeriz – Província de BURGOS – 445,1 Km de Santiago

Assim como outras vilas ao longo do Caminho, Castrojeriz já teve dias melhores, rica em história e glorias.

A vila atual está aos pés do cerro onde ainda podem ser vistas as imponentes ruinas do antigo castro, ou fortificação. Há indícios de que desde a pré-história havia ali construções defensivas, que protegiam a vila abaixo. Os romanos o ocuparam e acrescentaram uma torre de vigilância, dando ao local o nome de Castrum Sigerici. Após os romanos, os visigodos o ocuparam e ampliaram. Com a invasão muçulmana, houve nos arredores inúmeras batalhas entre mouros e cristãos. Em 865, a fortaleza é conquistada pelo exército de Muhammad I e retomada pelos cristãos em 882, sob o comando do conde Munio Nuñes. Tendo como base a fortaleza, o conde não apenas manteve a posição como auxiliou o rei de Castilla García I a rechaçar os mouros para lá do rio Duero.

A partir de então, ficou livre o caminho para Santiago de Compostela e a localidade converteu-se em uma florescente vila – com igrejas, conventos, hospitais, hospedarias e comércio vigoroso -, logo protegida por muralhas.

Em 974, o conde de Castilla García Fernandés outorgou a Catrojeriz direitos para legislar em questões locais e de comércio com outras localidades. Após o turbulento matrimônio entre o rei aragonês Alfonso I, o Batalhador e a rainha castelhana Urraca, em 1113, Castrojeriz fez parte do reino de Aragón. Em 1426, Diego Gómes de Sandoval y Rojas recebe o título de I Conde de Castrojeriz, das mãos do rei de Navarra Juan II, do qual foi aliado contra o reino de Castilla. Vencido na batalha de Olmedo, perde suas concessões. Seu neto, Diego Gómes de Sandoval, defendendo os reis de Castilla y León Fernando II e Isabel I, os Reis Católicos, em guerra contra o rei de Portugal Alfonso V e, posteriormente contra o reino de Granada, reconquista os privilégios da família e acrescenta o título de Marqués de Denia.

A igreja-fortaleza de San Juan pertenceu à Ordem dos Cavaleiros Templários e, mais tarde, aos Hermanos Hospitalarios de San Antonio. No alto do frontispício, a rosácea esconde uma simbologia mística, representando o Homem Cósmico. Seu claustro, do século XVI, contém um artefato mudéjar (de influência árabe) com alusões astrológicas. O retábulo do altar-mor, de estilo rococó, do século XVIII, foi doado ao convento de San Antón e trazido para Castrojeriz quando a Orden de San Antonio se uniu à Orden de Malta, em 1777.

A igreja de Santa María del Manzano iniciou a ser construída em 1214, pela rainha de Castilla Berenguela, filha de Alfonso VIII e mãe de Fernando II, o Santo. Sua portada principal é em estilo gótico, adornada com arquivoltas e esculturas da Virgen María e do arcanjo San Gabriel. A rosácea acima representa Jesus rodeado dos apóstolos e, em suas bordas, aparecem os quatro evangelistas. Seus retábulos mais antigos representam Cristo crucificado (século XVI) e Santiago Apóstolo (século XVII). O retábulo do altar-mor é do século XVIII, representando La Anunciación, La Visitación, El Nacimiento, La Presentación en el Templo e Niño Jesus entre los doctores. A imagem de Nuestra Señora del Manzano, feita em pedra policromada, é do século XVIII. A Virgem traz o Filho no colo, coroa na cabeça e um camafeu em que aparece gravada a letra T, de Tao, símbolo da Ordem dos Antonianos. Também no interior da igreja, está o sepulcro gótico da rainha Leonor de Castilla, assassinada em Castrojeriz, em 1359, a mando de seu sobrinho Pedro I, o Cruel. A igreja mantém um museu de objetos relacionados ao culto cristão como imagens, quadros, livros, cálices, entre outros.