Você Sabia 22 – Itero de la Vega – PALENCIA – 434,3 Km de Santiago

A meio caminho entre Castrojeriz e Itero de la Vega está o Alto de Mostelares, subida longa e exigente por estrada de terra e cascalho. De lá pode-se ver o caminho de onde se veio e o caminho a percorrer, ambos a perder de vista.

À entrada de Itero de la Vega está a ponte sobre o rio Pisuerga. O Codex Calixtinus, considerado o primeiro guia do Caminho, se refere a ela como ‘pons fiterie’, donde o nome Puente Fitero, local onde se encontra o que sobrou de um hospital-albergue do século XIII: a ermida de San Nicolás, que funciona como albergue no verão. O cenário agreste e intemporal parece sugerir que um monge de hábito puído ou um peregrino medieval com capa e chapelão possa surgir a qualquer momento.

Itero de la Vega foi criada no século IX, por determinação do rei de Astúrias Alfonso III, como parte da política de repovoamento da região, que incluía Sahagún, Carrión de los Condes, Frómista e Boadilla del Camino, todas vilas alinhadas de leste a oeste. Com a descoberta dos restos mortais de São Tiago Apóstolo, iniciou-se a peregrinação em direção à localidade que viria a ser Santiago de Compostela, o que deu impulso a todas as vilas na rota, assegurando também o território para os reis cristãos.

Em 950, Itero de la Vega, já havia sido privilegiada com foros de autonomia. Foi ali construída uma ponte de sete arcos por ordem do rei de León Alfonso VI. Em 1174, um hospital-albergue, foi entregue aos cuidados da Orden de San Juan. Naquele ano nascia a infanta Bereguela, filha do rei de Castilla Alfonso VIII e Leonor Plantagenet. A infanta foi criada em Itero de la Vega por duas enfermeiras, às quais o rei recompensou com uma propriedade na vila.

Em 1465, o rei de Castilla Enrique IV, o Impotente, entra em guerra contra seu meio irmão e principe de Astúrias Alfonso, o Inocente, que era apoiado pelos nobres que julgavam Enrique IV despreparado e anárquico. Com a morte de Alfonso, em 1468, teve fim o conflito e o rei Enrique IV concedeu privilégios a Itero de la Vega, que o apoiou com homens e dinheiro.

Em 1529, a vila comprou seu direito à soberania dos nobres aos quais pertencia, seguindo-se um período de grande desenvolvimento. No século XX, porém, com a migração dos jovens em busca de melhores oportunidades, viu sua população envelhecer e minguar.

A igreja de San Pedro foi construída no século XIII e ampliada nos séculos XVI e XVII. O retábulo do altar-mor é barroco, representando La Magdalena, San Pedro, San Antonio e o Calvário. Também barroco é o retábulo Del Evangelio, do século XVI, com imagens da Virgen del Rosario, Santiago Apóstol e Santo Domingo.

A ermida de Nuestra Señora de la Piedad é um edificio gótico do século XIII, muito modificado pelas reformas posteriores.

Em 1529, Itero de la Vega passou a ostentar o Rollo de la Justicia, símbolo de seu direito de soberania. Em estilo renascentista, a coluna quadrangular ainda se conserva em bom estado.

Boadilla del Camino – PALENCIA – 426,2 Km de Santiago

Boadilla del Camino entra para a história oficial em 950, após a retomada da região pelos cristãos e seu repovoamento. Seu auge ocorre nos séculos XV e XVI, depois de comprar seu direito à soberania. Seu filho mais ilustre foi Nicolás de Boadilla, um dos fundadores da Companhia de Jesus, a Ordem Jesuítica, e que se dedicou à Contrarreforma na Alemanha e na Itália.

O povoado chegou a contar, em 1345, com três igrejas e dois hospitais-albergues. Hoje, apenas uma das igrejas está aberta. A igreja de Santa María de la Asunción, do século XVI, foi construída sobre uma antiga igreja românica, do século XIII. Em seu interior estão o retábulo Ecce Homo e o Calvario del Cristo de San Miguel e o retábulo do altar-mor é dourado, menor e mais modesto que de outras igrejas e, nem por isso, menos belo.

O magnífico Rollo de la Justicia – coluna cilíndrica símbolo do poder jurídico da comarca e que servia para acorrentar e executar os condenados – é do século XV, em estilo gótico, é decorado com animais, motivos jacobeus e anjos. Poucos ‘rollos’ foram conservados, nenhum tão elaborado e ricamente decorado como este.

Deixa-se Boadilla del Camino por uma estrada que ladeia o Canal de Castilla. A obra foi iniciada no final do século XVIII por iniciativa do marquês de Ensenada para o transporte de mercadorias entre as capitais castelhanas e o porto de Santander, o que era feito em barcaças tracionadas por mulas. A obra ficou inconclusa, porém chegou a 207 quilômetros de canais e eclusas, como a que o peregrino atravessa para chegar a Frómista.