Você Sabia 24 – Villalcázar de Sirga – PALENCIA – 406,7 Km de Santiago

A vila pertenceu à Orden del Templo, ou seja, aos Caballeros Templários, que ali construíram uma igreja-fortaleza dedicada a Santa María. A igreja, do século XII, é uma transição do estilo românico para o gótico; teve um acréscimo no século XIV, porém seu projeto era tão ambicioso que jamais foi completado. Sobre seu imponente pórtico em arcos góticos há dois frisos de grande riqueza escultórica. No friso superior está representado Cristo Pancrator, rodeado dos símbolos dos evangelistas – anjo, águia, touro e leão – e outros apóstolos. No friso inferior estão La Virgen con el Niño, Los Tres Reyes Magos, San José, e a cena de La Anunciación.

O retábulo do altar-mor, extremamente rebuscado e colorido, é do século XV. Junto a uma das colunas, há uma estátua da Virgen María que a retrata grávida, numa pose serena e receptiva. Na capela dedicada a Santiago estão três sarcófagos belamente decorados e iluminados por uma rosácea. Um deles guarda o corpo do infante Don Enrique, irmão do rei Alfonso X, o Sábio. Noutro está o corpo de Doña Inés Rodriguez Girón, segunda esposa do infante. No terceiro sarcófago está Don Juan de Pereira, cavaleiro da Orden de Santiago. Nesta mesma capela há uma imagem da Virgen de la Cantigas, do século XIII, à qual foram atribuídos muitos milagres e para a qual o rei Alfonso X dedicou várias de suas cantigas. Em uma dessas canções o rei poeta narra como peregrinos enfermos que voltavam de Santiago sem que o apóstolo os tivesse curado, tinham a saúde restaurada ao rezar diante da Virgen de Villalcázar de Sirga.

Próximo da igreja, um conjunto em bronze, representando uma mesa posta e um peregrino sentado, olhando para a imensa igreja, é um convite para fazer-lhe companhia.

Carrión de los Condes – PALENCIA – 401 Km de Santiago

Carrion de los Condes é bem mais antiga que a cidade atual, que de início chamava-se Lacóbriga, posteriormente romanizada. A via de Aquitania fazia ali uma parada importante, tanto para quem vinha de Bordéus como de Astorga. Mais tarde, durante o reinado de Sancho III de Castilla, o Caminho jacobeu – que vinha de Pamplona –  uniu-se à via Aquitania em Carrión.

Em 783, Mauregato apossa-se do trono do reino de Astúrias com a ajuda de Abderraman I, emir de Córdoba, a quem promete um tributo periódico de cem donzelas por sua colaboração. Em 788, os condes Arias e Oveco rebelaram-se contra o rei Mauregato e o mataram como vingança por haver pago aos mouros tal tributo. O rei Bermudo I, seu sucessor, propôs ao emir substituir o tributo humano por dinheiro. Foi sucedido por Alfonso II, o Casto, que se recusa a pagar também o tributo em dinheiro e entra em guerra com os mouros, vencendo a batalha de Lutos, em 794, extinguindo a aliança e o tributo.

No ano de 1047, foram construídos o convento de San Zoilo, a ponte sobre o rio e um hospital-albergue de peregrinos, doados pelos condes Gómes Díaz e sua esposa Retesa Pelaés. Contudo, o nome da cidade não é em homenagem a eles. É o rio Carrión que dá nome à localidade. De los Condes, provém dos condes que compunham o Concejo de Carrión, que em 1462, assinaram um documento que favoreceu de modo inequívoco a cidade.

Nada menos de doze igrejas e outro tanto de hospitais-albergues esperavam os peregrinos desde o século XIV nesta importante localidade, descrito por Aymeric Picaud em seu ‘Codex Calixtinus’ como “ativa e industriosa cidade, rica em pão, em vinho e em carne”, que eram distribuídos gratuitamente aos caminhantes; caso fossem presbíteros, recebiam também ovos e dinheiro.

A igreja de Santa María del Camino – edificada no século XII e dedicada à La Virgen de las Victorias – recebe o visitante com um sóbrio pórtico românico no qual está figurado o Tributo das Cem Donzelas. No pórtico sul estão representados o Reyes Magos, Sansón e Carlomagno. Em seu interior encontra-se um entalhe de La Virgen del Camino ou Virgen de la Victória, do século XIII, e o Cristo del Amparo, obra gótica do século XIV. Numa das capelas há uma pintura da escola sevilhana, do século XVII, e vários sepulcros de religiosos.

O peregrino passa ao lado da igreja românica de Santiago, do século XIII, com seu magnífico friso de fachada que representa Jesus Pantocrator (todo-poderoso), rodeado pelos quatro evangelistas em figuração simbólica: anjo: São Mateus, leão: São Marcos, touro: São Lucas e águia: São João. É uma das mais belas, complexas e representativas obras da escultura românica. Na portada da igreja estão representados vinte e dois artesãos, aos quais não faltava trabalho com o ir e vir de peregrinos e comerciantes, atestando que Carrión de los Condes foi uma das cidades mais importantes dos reinos cristãos.

O monastério de Santa Clara, é do século XIII, e pertence à Orden de las Clarisas. As primeiras monjas vieram do monastério de Santa María del Páramo em 1255, por sugestão do papa Alejandro IV à Doña Mencía Lópes de Haro, viúva do rei de Portugal Sancho II.

Há, ainda, as igrejas de Nuestra Señora de Belén, do século XVI, de San Andrés Apóstolo e de San Julián.

À saída da cidade, o monastério de San Zoilo, anteriormente dedicado a San Juan Bautista, que já existia em 948. Com o translado dos restos mortais de San Zoilo, de Córdoba para o monastério, mudou-se o santo padroeiro, em 1047. É nele que está o panteão familiar dos condes de Carrión. Em 1219, o rei de Castilla Fernando III, o Santo, casou-se ali com Beatriz de Suabia, neta de Isaac II Ángelo, imperador de Constantinopla. Seu claustro foi construído entre 1537 e 1604, ornamentado com imagens de profetas, patriarcas, heroínas, apóstolos e evangelistas, bem como reis, rainhas, papas e santos.

Conta-se que um peregrino cego de nascença, iniciou uma peregrinação a Santiago de Compostela, guiado por um peregrino amigo e caridoso, em busca de cura. Hospedando-se ambos no albergue do monastério de San Zoilo, o peregrino cego solicitou aos monges que o deixassem passar a noite em oração diante do altar do santo. Na manhã seguinte, o encontraram em atitude devota olhando a imagem de San Zoilo com a luz que lhe foi devolvida aos olhos. (O monastério, que antigamente dava pouso aos peregrinos, hoje foi transformado em hotel de luxo).