Você Sabia 30 – Astorga – LEÓN – 258,5 Km de Santiago

Há vestígios de ocupação humana na região que remontam a 200 mil anos. A região ficou conhecida por Astúrias e foi a última da Península Ibérica a ser conquistada pelos romanos. Astorga foi fundada por eles em 14 a.C., sob o nome Asturica Augusta por Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus, sobrinho neto de Júlio César.

A cidade foi um importante entreposto coletor de riquezas exploradas pelos romanos, de onde eram enviadas ao porto de Cádiz, no sul da Hispânia, pela Via de la Plata, incrível obra de engenharia de estradas, ao longo da qual floreceram muitas cidades: Salamanca, Zamora, Cáceres, Mérida e Sevilha.

A cidade não chegou a ser tomada pelos mouros, embora tenha sido atacada pelas tropas do general mouro Tariq ibn Ziyad, em sua expansão para o norte. Com a criação do Reino de Astúrias, no século VIII, o rei Alfonso I iniciou a Reconquista cristã, pressionando os muçulmanos em direção ao sul. Astorga retomou sua importância na Idade Média como ponto de passagem do Caminho de Santiago, quando chegou a ter 25 albergues para peregrinos.

Em 1034, o rei de Pamplona Sancho Garcês II tomou a cidade por desavenças com o rei de León Bermudo III.

Em 1143, a cidade passou a ser domínio do rei de Portugal Afonso I, o Conquistador, aproveitando as disputas entre a rainha de León Urraca I e o rei de Aragón Alfonso I.

De 1367 até o final do século XIV, Astorga – já em poder dos espanhóis – sofreu com a peste negra e as constantes lutas entre reis castelhanos, criando dificuldades econômicas à região. Perdeu sua condição de cidade livre em 1465, por determinação do rei de Castilla Pedro I, o Cruel, que a entregou como feudo a Álvar Pérez de Osorio, nomeando-o Marquês de Astorga e submetendo o Cabildo Catedralício local ao seu poder.

Ainda se podem ver as imponentes muralhas que cercavam a antiga cidade romana de Asturica Augusta, hoje Astorga, e que dão uma ideia da importância militar, administrativa, tributária e econômica a ela atribuída pelos conquistadores romanos. Plínio, o Velho, a definiu como ‘Urbs Magnífica’. Também podem ser visitadas as minas de ouro, exploradas na época, hoje consideradas patrimônio da humanidade, pela Unesco.

Já no século III, portanto nos primórdios do cristianismo, foi escolhida como sede episcopal, o que nos remete a dois magníficos monumentos da cidade: a Catedral e o Palácio Episcopal.

Ao longo do Caminho de Santiago de Compostela nos é mostrado o quanto a Espanha é rica em heranças de uma época em que Deus e César eram faces de uma só moeda. Uma época em que Igreja e reis sentavam-se à mesma mesa e bebiam do mesmo cálice. São testemunhas disso castelos, palácios e majestosas igrejas, catedrais e monastérios, cujos santos e altares são recobertos de ouro.

 

Dedicada a Santa María, a catedral de Astorga é um exemplo dessa herança. Construída, a partir de 1069, ao longo de trezentos anos por gerações de pacientes e desprendidos artesãos, sua arquitetura é uma síntese de estilos: gótico tardio, barroco e neoclássico. Ereta, em majestosa postura, ela aguarda os fiéis para mostrar-lhes histórias sagradas no retábulo de rara beleza do altar principal, finamente esculpidas e emolduradas em painéis dourados e lavrados com arte. Não menos artísticos são os relevos entalhados dos assentos do coro, feitos em sólida madeira escura, representando grande diversidade de santos, profetas, anjos e florões, que não se repetem uma só vez. Assim como as catedrais de Burgos e de León, essa também nos convida mais à contemplação que à oração, mais ao êxtase que ao recolhimento.

Ali próximo, uma outra pérola de arte, esta do século XIX. Projetado por Gaudí, o palácio episcopal é uma síntese de passado e futuro, um misto de sagrado e profano, uma fantasia construída em pedra.

O Museo Romano está instalado sobre uma construção romana conhecida como Ergástula, no qual estão expostos objetos de achados arqueológicos da cidade que mostram o modo de vida da época do apogeu de Asturica Augusta.

Já à saída de Astorga, percebe-se que ficaram para trás as imensas planícies. A paisagem muda gradativamente e entravam em cena montanhas cobertas de matas cada vez mais abundantes.

Murias de Rechivaldo – LEÓN – 253,8 Km de Santiago

Se, ao deixar Astorga, seguir-se à esquerda, atravessando o rio Jerga, vai-se dar em Murias de Rechivaldo, com sua arquitetura típica da Maragateria, da qual a igreja de San Esteban, do século XVIII, é um perfeito exemplo. São construções geralmente retangulares, de pedra, sem reboco, tendo como acabamento apenas molduras em torno das aberturas.

A Maragateria é uma região histórico-cultural espanhola e Astorga é sua cidade mais conhecida, em que os maragatos fazem-se valer pela sua história e pelos seus costumes seculares, essencialmente rurais.

Castrillo de Polvozares – LEÓN – 252,3 Km de Santiago

Se a opção for seguir à direita, acompanhando o rio Jerga, para atravessá-lo mais adiante, chega-se a Castrillo de Polvozares, considerada patrimônio histórico da humanidade. A vila inteira, com suas ruas calçadas com pedras irregulares e suas casas praticamente intocadas, apresenta-se como há séculos, congelada no tempo, imersa num passado secular. Os sinais do conforto moderno – água encanada, eletricidade, gás – são discretos. Sua igreja ainda conserva o átrio onde eram feitas as reuniões civis da população local. À exceção da rua principal, larga e desimpedida, as demais têm formas assimétricas e labirínticas e servem como acesso às casas e não à passagem.

De volta ao Caminho, logo à frente, Santa Catalina de Somoza e El Ganso são localidades sem atrativos ou história e tem pouco a oferecer ao peregrino, senão seus bares, para descanso e lanche. Estas, assim como muitas outras, antes quase abandonadas, ressurgiram graças ao fluxo crescente de peregrinos que diariamente alimentam o Caminho, em toda a sua extensão, deixando centenas de milhares de euros por ano em pagamento de suas modestas necessidades de abrigo, alimentação, cuidados com a saúde, lazer e, raramente, algum pequeno luxo.