Você Sabia 34 – O Cebreiro – Província de LUGO – 154,7 Km de Santiago

Após Ruitelán e Las Herrerías, chega-se a La Faba descendo até um riacho de águas límpidas e ligeiras, que marca o fundo do vale. A partir daí, inicia-se uma íngreme subida por uma das mais belas trilhas do Caminho, emoldurada por verdejantes matas. Mais próximo do topo da montanha, a mata é substituída por vegetação rasteira e a trilha perde seu encanto. Mas é em Laguna de Castilla, última localidade de León, que se percebe estar chegando quase ao topo da montanha, a 1.300 metros de altitude. A esta altura da jornada, os peregrinos estão cansados e doloridos, mas cheios de alegria por estarem próximos de um ícone do Caminho – O Cebreiro – e ainda com disposição para admirar a magnífica paisagem das montanhas próximas e distantes.

Se o Caminho tem um lugar que se possa dizer que é mágico, este lugar é O Cebreiro. A paisagem misteriosa, a constante neblina que cobre a vila e as casas de pedra, cobertas de palha e dispostas de forma compacta e assimétrica, tem o encanto da própria montanha, como se dela fizesse parte.

Passagem obrigatória para Santiago de Compostela, O Cebreiro sempre foi lugar de refúgio para peregrinos. Em 1072, o rei de León Alfonso VI colocou o povoado nas mãos dos monges beneditinos franceses de Cluny – como fez com outros locais estratégicos da rota jacobeia -, incluindo sua igreja pré-românica de absides retangulares, do século IX. Os monges, vindos da abadia de Saint-Geráud, da cidade de Aurilac, fundam o mosteiro de Santa María del Cebrero. Durante a Idade Média, O Cebreiro foi a localidade mais importante da Comarca da Galícia, até sua decadência a partir do século XVI. Os monges foram expulsos em 1854, em decorrência da Desamortización de Mendizábal, que desapropriou terras e bens de nobres e de ordens religiosas, para dá-las ao povo para que nelas trabalhassem.

O Cebreiro também tem seu milagre, ocorrido no ano 1300, conhecido como o Milagre da Eucaristia ou a Lenda do Santo Graal da Galícia. Juan Santín – que vivia no povoado de Barxamaior, distante meia légua de O Cebreiro – era tão devoto que não cessava de ir à missa, mesmo com chuva, vento ou frio. Num dia de furiosa tormenta, o pároco pensou que ninguém viria à igreja e viu apenas um único fiel, Juan, aguardando pela missa. Com desdém, o padre disse a si mesmo: “Este vem, apesar da tempestade e da fadiga para ver um pouco de pão e vinho”.  Deus, para repreender-lhe a falta de fé e de caridade, realizou o milagre de converter a hóstia em carne e o vinho em sangue, no momento da consagração, para assombro e testemunho do próprio padre e do piedoso Juan Santín.

A rainha Isabel, a Católica, ao regressar de sua peregrinação em 1488, tentou levar o cálice para um lugar mais seguro, porém os cavalos da carruagem real negaram-se a continuar a viagem. Em resposta ao que pareceu ser um sinal divino, a rainha doou o relicário no qual se conserva o cálice do milagre, uma bela obra do século XII. No entanto, em anos recentes, o cálice deixou de ser exposto, devido aos constantes roubos de arte sacra nas pequenas e desprotegidas igrejas do interior espanhol.

Triacastela – LUGO – 134,1 KM de Santiago

Vários pequenos povoados se interpõem a O Cebreiro e Triacastela. Pouco adiante de Liñares, chega-se ao Alto de San Roque, a 1270 metros de altitude, marcado por um imponente monumento ao peregrino. De mesmo feitio da igreja de O Cebreiro, a igreja da localidade de Hospital é da mesma época do hospital-albergue fundado pela condessa Egilo, no século IX.

Após passar por vários minúsculos povoados eminentemente rurais – Pardonelo, Alto do Poio, Fonfría, Viduedo, Filloval e As Pasantes -, chega-se a Triacastela, pelas mesmas trilhas que os peregrinos medievais percorriam.

A região era habitada já há 35 mil anos, como atestam pesquisas arqueológicas na caverna de Eirós, situada nos arredores da cidade. Porém, em novas escavações mais aprofundadas surgiram peças mais antigas, que foram datadas entre 84.000 e 120.000 anos. No interior da caverna encontraram-se restos de Homo Neanderthalensis e Homo Sapiens, permitindo que se estude a transição entre ambos. A caverna guarda um outro tesouro: a arte rupestre do paleolítico que adorna suas paredes.

Triacastela deriva seu nome de três castelos ali construídos, dos quais nada mais resta, mas de que temos notícia em documentos históricos. A cidade foi fundada no século X e repovoada e melhorada pelo rei de León Alfonso IX, o Baboso, no século XIII. Sua igreja, de estilo românico, é dedicada a Santiago. De suas minas de cal, os peregrinos da Idade Média levavam uma porção para a construção da catedral de Santiago de Compostela.

Ao sair de Triacastela, o peregrino se vê frente à duas opções: Samos ou Sarria.