Você Sabia 38 – Enfim, Santiago de Compostela!

Após quatro semanas de caminhada, com jornadas diárias, bolhas, talvez tendinite, cansaço, noites em dormitórios coletivos, restam apenas mais vinte quilômetros para a catedral do Apóstolo, meta da peregrinação. San Paio, Lavacolla (onde os peregrinos banhavam-se e lavavam suas roupas), Villamaior, San Marcos são pequenos povoados colados ao Caminho. E, então, do Monte do Gozo já se avista Santiago de Compostela.

A região foi habitada desde a pré-história. Também os romanos se fizeram presentes, entre o século I e o V. Desde então até o século VII, fez parte do Reino Suevo. Já os reis asturianos, temendo uma secessão, confirmam a religião e as leis godas e nomeiam um de seus herdeiros de sangue para governar a Galícia.

O descobrimento do túmulo de Santiago, proporcionou ao rei de Astúrias Alfonso II – necessitado de coesão interna e apoio externo para seu reino – motivo para anunciar o local como novo lugar de peregrinação para a cristandade, em um momento em que Roma havia decaído e Jerusalém estava em poder dos muçulmanos. Ergue, então, uma igreja e lhe concede privilégios. A comunidade que se forma no entorno também goza de prerrogativas reais, garantindo sua fidelidade. Assim nasceu a cidade de Santiago de Compostela.

O santuário foi adquirindo relevância política e nele foram coroados os monarcas dos reinos da Galícia e de León. No ano de 969, a cidade foi fortificada e era conhecida por Locus Sancti Iacobi. Em 997, o califa Almanzor atacou e destruiu a cidade, de onde levou como butim os sinos da igreja do Apóstolo e as portas da cidade, respeitando apenas o túmulo do Apóstolo

Com a saída dos muçulmanos, a cidade foi retomada e reconstruída, agregando-se fossos e reforço nas muralhas e passou a ser Sede Apostólica, por reivindicação do bispo Cresconio.

Por essa época, foi redigido o Codex Calistinus, atribuído ao papa Calixto II, que se tornou uma fonte histórica fundamental da peregrinação a Santiago de Compostela.

Em 1075, o bispo Diego Peláez deu começo à construção da catedral românica. Mas, foi o bispo Gelmírez que impulsionou, no ano de 1100, o término da construção da catedral e a reorganização urbana de Santiago. Encarregou o mestre Mateo de substituir o velho pórtico, levantado somente 40 anos antes. Mateo lavrou em pedra o mais lírico poema, para acolher as relíquias do Apóstolo e os peregrinos, ao final do Caminho. Dos três arcos do Pórtico da Glória, o central é o mais majestoso: mostra Cristo e os evangelistas cercados pelos 24 anciãos do Apocalipse, cada um com um instrumento musical. O próprio mestre Mateo foi esculpido em pedra, ajoelhado na base posterior da coluna. No século XVIII, a catedral é ampliada, adquirindo sua atual aparência barroca, incluindo as belas e altivas torres, criadas para deslumbrar fiéis e visitantes.

Assim como outras cidades espanholas, também Santiago de Compostela esteve envolvida em frequentes conflitos ao longo de séculos, além de ter sido atingida pela peste negra. Mas, em contraponto, obras importantes foram levadas à frente no século XV, quando haviam ali entre quatro e cinco mil habitantes: o Hostal de los Reyes Católicos e El Estudio Veijo, germe da futura universidade, fundada em 1495.

No princípio do século XVII, Cesare Baronnio, confessor do papa Clemente VII, pôs em dúvida a peregrinação a Santiago, produzindo grave dano à cidade. O Cabildo Compostelano consegue reverter a situação e Santiago é proclamado Patrono da Espanha.

Após a ocupação francesa, Santiago de Compostela tornou-se um baluarte conservador carlista, apoiando a pretensão da restauração da dinastia dos Bourbons no trono espanhol, de acordo com os parâmetros do Antigo Regime. Com a vitória liberal, os vencedores castigam a cidade favorecendo a Coruña, como capital provincial, em detrimento de Santiago de Compostela, que, no entanto, é capital da Comunidade Autônoma da Galícia

A peregrinação

Em algum momento de nossas vidas, somos chamados a nos dedicar ao nosso mundo interior, lembrando-nos que somos mais que um corpo físico, mente e sentimento. A esse movimento de busca chamamos de peregrinação, cuja motivação é espiritual.

Peregrinar é realizar uma jornada ao mesmo tempo exterior e interior. É dar-se um tempo a sós e assumir-se como agente de sua vida, não mais apenas reagindo aos estímulos externos e de pessoas com quem convive.

O peregrino, se ficar atento não apenas ao corpo físico, mas, também a seus sentimentos, pensamentos e espírito, fará de sua peregrinação um tempo e um espaço de reflexão, pois mergulhará em si mesmo, analisando, modificando e rejuvenescendo sua mente e seus sentimentos e, consequentemente, o próprio espírito.

E, ao completar a jornada, terá atingindo um elevado nível de consciência e criado condições para florescerem com vigor pensamentos e sentimentos mais nobres e elevados, moral e espiritualmente.

A Catedral

O cinturão de modernidade que envolve a cidade não diminui o impacto da visão de seu centro histórico, considerado pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade, desde 1985. (O próprio Caminho é Patrimônio Cultural Imaterial, desde 1993).

Somando-se aos milhões de peregrinos dos onze séculos de peregrinação, o peregrino moderno atravessa a cidade em passos rápidos, ansioso por encontrar a catedral.

Diferente do rendilhado gótico da catedral de Burgos e sem os preciosos e multicoloridos vitrais da catedral leonesa, a de Santiago de Compostela é um monumento à arte barroca. Ela não se eleva, clara e etérea, em direção aos céus. Ela se assenta, firme e escura, sobre a terra. Ela não quer levar os homens a Deus. Quer trazer Deus aos homens. Não é um monumento a Deus-Pai. É um monumento à Mãe-Terra. Nas outras, as torres, seguradas por mãos celestes, sustentam o templo. Nesta, o templo sustenta-se por si só, enraizando suas torres e colunas no útero da Terra. É imponente. É bela. É uma joia em pedra.

Seu interior apresenta uma subterrânea obscuridade, oposta à semiluz celeste das catedrais góticas. E em oposição às rosáceas e zimbórios destas – que convidam a olhar para o alto -, a compostelana, despida de outros atrativos, convida a focar o olhar no dossel dourado que se sobrepõe ao altar do apóstolo e cuja descrição exige o uso de superlativos. Sentado em seu trono, imobilizado pelo toque de Midas, está Santiago, todo em ouro e pedras preciosas. Seu cajado peregrino, há séculos sem uso, é apenas um adorno.

O que visitar em Santiago de Compostela

Plaza del Obradoiro. Seu nome faz alusão ao local de trabalho dos operários encarregados de esculpir em pedra que funcionava na praça durante a construção da catedral. A ela chegam todos os dias centenas de peregrinos.

Hostal de los Reyes Católicos. De estilo renascentista, a hospedaria iniciou a ser construída por ocasião da visita dos Reis Católicos Fernando e Isabel, em 1486, para atender aos peregrinos. As obras duraram dez anos; parte dos custos foram cobertos com o espólio de guerra na vitória sobre os muçulmanos em Granada; outra parte veio de doações feitas por pessoas em busca de indulgência papal. Em sua fachada podem ser vistas de baixo para cima: as imagens de Adan y Eva, Santa Catalina e Santa Lúcia, San Juan Apóstolo e María Magdalena; no friso: os doze apóstolos e os medalhões dos reis Fernando e Isabel; à direita da janela central: Cristo, Santiago Mayor e San Pedro; à direita da janela central: La Virgen con el Niño, San Juan Evangelista e San Pablo e, nos pináculos: seis anjos com instrumentos musicais.

Palacio de Rajoy. É um edifício do século XVIII, estruturado sobre vários outros pré-existentes, a mando do arcebispo Bartolomé de Rajoy, em estilo neoclássico, para servir como Seminário de Confessores, residência dos meninos do Coro da Catedral, Casa Consistorial e como cárcere. Seu frontão central traz uma imponente escultura de Santiago Matamoros e relevos que reproduzem a Batalla de Clavijo, ocorrida no ano de 844, na qual criou-se o mito da intervenção milagrosa de Santiago em favor dos cristãos.

Colegio de San Jerónimo. Fundado pelo arcebispo Alonso III de Fonseca, no século XVI, para atender estudantes pobres. Atualmente é ocupado pela Reitoria da Universidade. Seu portal, em estilo românico, pertenceu ao antigo Hospital de La Azabachería. Nele se podem ver as representações de Santiago, San Juan e San Francisco, à esquerda, e San Pedro, San Pablo e San Mauro, à direita.

Monasterio de San Martín Pinario.  Convento beneditino do século XI, de estilo barroco. O monastério cresceu de tal maneira que ao final do século XV converteu-se no mais rico e poderoso da Galícia. Foi reedificado quase por completo a partir do século XVI e tornou-se supervisor dos demais monastérios galegos. Atualmente nele funcionam o Seminário Maior Compostelano e as sedes das Faculdades de Teologia e de Trabalho Social, além de museu e hospedaria. Sua fachada tem a estrutura de um retábulo e mostra as figuras de La Virgen con el Niño e de vários santos abades beneditinos. Ao centro, no alto, está San Martin de Tours a cavalo, cortando sua capa para dividi-la com um mendigo.

Do século XIII, o Monasterio de San Paio de Antealtares abriga Monjas Pelayas, que vivem em clausura. Sua igreja contém magníficos retábulos barrocos e um órgão do século XVIII e é local de concertos de música barroca.

Todo o centro histórico merece uma visita demorada. E, além de vários parques, a cidade é rica em museus:  o Museo del Pueblo Gallego, intalado no Convento de Santo Domingo de Bonacal; o Centro Gallego de Arte Contemporáneo; o Galícia Digital, no monastério de San Martín Pinário; o Museu das Peregrinações; o Museu Cardinalício; o Museu da Fundación Eugenio Granell; o Museu de Arte Sacra; o Museu da Terra Santa e o Museu de História Natural.