Você sabia 5 – Pamplona (ou Iruña) – NAVARRA – 704,5 Km de Santiago

Pamplona foi fundada em 74 a.C. pelo general romano Pompeu sobre um povoado basco já existente, chamado Iruña ou Bengoda. Mas, os vestígios de ocupação humana da zona remontam a 75 mil anos.

Após as invasões bárbaras no século VI, a cidade fez parte do Reino Visigótico de Toledo e, a partir do século VIII, do califado Al-Andalus.

Entre 778 e 816 a região foi disputada aos muçulmanos por Carlos Magno, que veio em socorro dos reis cristãos de Zaragoza Marsílio e Baligando e consolidar um estado-tampão para proteger seu próprio reino, denominado Marca Hispânica. Após derrotar em definitivo o rei mouro Aigolando e o príncipe basco Furro de Monjardim, Carlos Magno sentiu-se traído pelos reis aos quais veio socorrer, que não cumpriram sua parte no trato. Por vingança, o rei francês destruiu as muralhas de Naverría – atual Pamplona-, provocando a emboscada dos bascos à retaguarda de seu exército, em Roncesvalles.

Durante a primeira metade do século IX a nobreza local, aliada à família  cristã convertida ao islamismo Banu Qasi, conseguiu consolidar um reino cristão vassalo dos muçulmanos, o Reino de Pamplona, que depois se tornaria o reino independente de Navarra,  em 905, cujo auge ocorreu no século XI, quando Sancho III se tornou o monarca cristão mais poderoso da Península Ibérica, reinando sobre quase todos os territórios ibéricos cristãos e algumas partes do que é atualmente a França (a Baixa Navarra). Em 1164, o nome de Reino de Pamplona é definitivamente abandonado e passou a denominar-se Reino de Navarra.

A Pamplona atual foi formada a partir de três vilas rivais: a Naverría, ocupada por bascos; San Cernin e San Nicolás, ocupadas por francos. Cada uma chegou a ser uma pequena cidade autônoma, com suas muralhas, leis e armamentos. A corte navarra tentou uma aliança com a coroa de Aragón, com a qual tinha mais afinidade cultural que com os francos. Em resposta, o rei da França Felipe II atacou e dizimou a população da Naverría, em 1276. A vila ficou abandonada por cinquenta anos. A paz só foi definitivamente alcançada em 1423, quando a cidade foi unida sob uma mesma administração e as muralhas que separavam os burgos foram demolidas.

Em 1512 foi ocupada por tropas castelhanas do rei Fernando, o Católico, tendo o reino navarro sido oficialmente anexado à coroa espanhola em 1521.

Após a Revolução Francesa, Pamplona foi cercada por forças francesas em 1794, que não lograram entrar na cidade. Entre 1808 e 1813 a cidade foi ocupada por tropas de Napoleão Bonaparte. A cidade também se viu envolvida nas Guerras Carlistas que marcaram o século XIX, tendo sido palco do movimento popular e político em defesa dos fueros que ficou conhecido como a “Gamazada“.

Apesar da vitória dos republicanos nas eleições autárquicas que conduziram à Segunda República Espanhola, de 1931 a 1939, Pamplona foi controlada pelas forças franquistas desde o primeiro dia da guerra civil, o que não a livrou de assistir ao fuzilamento de centenas de republicanos. Durante o franquismo, a cidade transformou-se de uma cidade rural numa cidade industrial, tendo mais que triplicado a sua população.

Pamplona é a primeira grande cidade à qual o peregrino chega, tirando-o de sua introspecção, da simplicidade e do desapego desenvolvidos nos primeiros dias no Caminho.

O peregrino entra no centro histórico de Pamplona pelo imponente Portal de Francia, a parte melhor conservada das muralhas que cercavam a cidade, construída em meados século XVI. Vale diminuir o passo e admirar o conjunto.

património histórico e as diversas festividades que ocorrem ao longo do ano contribuem para que a cidade atraia milhares de turistas espanhóis e estrangeiros. Os eventos mais concorridos são os Sanfermines – Festa de San Cernín, ou San Fermín -, que se realizam todos os anos em julho, com a corrida de touros pelas ruas do centro histórico. (Ernest Hemingway escreveu vários livros sobre os acontecimentos na Espanha de sua época, incluindo a Guerra Civil, as touradas – pelas quais era apaixonado – e a Corrida de Touros nas ruas de Pamplona).

Um passeio pela capital da Navarra, em especial pelo centro histórico, é essencial para absorver a cultura basca. Suas amplas praças, monumentos, prédios públicos e privados, igrejas e catedrais e museus são encantadores. O conjunto escultórico em bronze que representa a Corrida de Touros é magnífico.

A catedral de Pamplona é sede da Arquidiocese e tem características próprias, pois, além de igreja, claustro e sacristia, ainda conserva sua chancelaria, sala capitular e dormitório, já eliminadas das demais catedrais espanholas. Sua atual aparência se deve a reformas em diferentes épocas e estilos. (Originalmente era de estilo românico; nela trabalhou mestre Esteban, que também se fez presente na construção da catedral de Santiago). Destruída por um incêndio em 1390, a Catedral de Pamplona foi reinaugurada em 1525, já com marcado estilo gótico. Sua fachada é uma das obras mais puras e representativas do estilo neoclássico foi erguida no século XVIII. Seu claustro é considerado uma maravilha da arte gótica europeia.

 A igreja de San Saturnino, também chamada de San Cernín, está localizada no centro histórico da cidade, construída sobre duas outras: uma primitiva e outra românica, do século XII. A sua aparência atual é de estilo gótico, do século XIII e fazia parte do burgo de San Cernín, habitado por francos. Até o século XVII, suas torres eram fortificadas com ameias, permitindo a defesa do burgo contra os burgos rivais: Naverría e San Nicolás. Seu pórtico é decorado com belos entalhes de Santiago Peregrino e de San Saturnino. Em seu interior há várias capelas, entre as quais a da Virgen del Camino, em estilo barroco. O repicar de seus sinos é que dá início às festividades de Sanfermines.

 

Também a igreja de San Nicolás, do século XII, foi construída para ser uma fortaleza, ainda conserva uma das torres de vigilância e defesa. A construção primitiva, em estilo românico, foi destruída por um incêndio em 1222. Reformas através dos séculos variavam de estilo: do protogótico ao gótico, ao barroco e ao neomujedar – de influência árabe-, demonstrando o ecletismo arquitetônico medieval.

Uma das lendas locais refere-se a uma imagem vista nas águas do rio Arga. Por mais que os pamplonenses tentassem resgatá-la, ela dava mostras de não querer ser resgatada. Assim, quando alguém ou algum barco se aproximava, a imagem afundava. Ao anoitecer, cansado e decepcionado, o povo retornou às suas casas. Foi quando as monjas agostinianas do convento de San Pedro saíram de sua clausura e aproximaram-se do rio. Então, a imagem fugidia chegou à margem e deixou-se recolher. Levada ao convento operou seu primeiro milagre, curando a madre abadessa que estava gravemente doente. Desde então La Virgen del Río faz parte das relíquias do convento.

A construção da Ciudadela de Pamplona foi ordenada por Felipe II, em 1571, como principal elemento de defesa da cidade. Tem a forma de uma estrela de cinco pontas, das quais se controlavam os possíveis ângulos de ataque. É bom lembrar que os reis de Castela recém haviam conquistado o reino de Navarra e era necessário proteger as forças castelhanas dos ataques bascos, incluindo-se os dos próprios pamplonenses, razão pela qual duas das pontas da estrela estavam voltadas para a cidade. Cada ponta da estrela tinha um nome: San Antón, El Real, Santa María, Santiago e La Victoria. Foi concluída em 1645. Ainda impressiona ver o muito que restou da obra original.

À saída da cidade, o peregrino passa através dos jardins da Universidade de Navarra e cruza a ponte de Azella, sobre o rio Sadar. Neste ponto – diz a lenda – ocorreu a batalha em que Carlos Magno teria vencido os mouros, em 778.