Você Sabia 9 – Estella – NAVARRA – 659,2 Km de Santiago

O Caminho foi razão de ser de muitas localidades, que nasceram e cresceram para dar abrigo e alimento aos peregrinos. É o caso de Estella, que segue fiel às suas raízes, oferecendo ao caminhante todo tipo de serviços.

O primitivo burgo de Lizarra (significa estrela em basco), que ocupava parte da atual cidade de Estella, é citado pela primeira vez em 1024. Cruzados francos, que vieram em socorro dos reis cristãos de Castilla e Aragón, reconquistaram-na aos mouros, em 1087. Foi, contudo, o rei de Pamplona y Aragón Sancho Ramirez que fundou a atual Estella como vila de artesãos e comerciantes estrangeiros, francos em sua maioria, para atender à afluência cada vez maior de peregrinos de toda a Europa. A nova cidade foi construída na margem direita do rio Ega, abrigada por muralhas e um castelo fortificado.

Cem anos depois, o rei de Pamplona Sancho VI, o Sábio, ampliou a população basca no entorno da cidade. Sua localização privilegiada, atraiu comerciantes judeus e francos, vindos de Le Puy e Tours. Em breve espaço de tempo, o núcleo comercial transformou-se num conjunto urbano bem definido, ao qual se acrescentaram templos, armazéns e hospedarias. A cidade é citada no Codex Calixtinus, considerado o primeiro guia peregrino, como sendo “fértil de bom pão e excelente vinho, assim como carne e pescado” e situado junto a “um rio de água sadia e extraordinária”.

Diz a tradição que um bispo grego, de Patras, veio ao Caminho, em 1270, trazendo uma relíquia do apóstolo San Andrés, que queria doar à catedral de Santiago. Porém o bispo veio a falecer em Estella, sendo enterrado no claustro da igreja de San Pedro de la Rúa. Por esta razão San Adrés é copatrono da cidade, junto com a Virgen del Puy.

Após seu apogeu no século XIII, Estella entrou em decadência no início do século seguinte, em razão dos conflitos entre os reinos de Navarra e Castilla e das inundações que a assolaram. Em 1512, caiu em mãos das tropas do rei de Castilla Fernando, o Católico. Cinquenta anos depois suas fortificações foram derrubadas; o mesmo ocorreu com todas as fortalezas da Navarra subjugada.

A cidade também veio a sofrer com as seguidas Guerras Carlistas (o pretendente ao trono, Carlos VII estabeleceu-se com sua corte em Estela, em 1872) e com a guerra civil entre republicanos e franquistas, de 1936 a 1939.

A igreja de San Pedro de la Rúa foi construída nos séculos XII e XIII e sua fachada tem semelhanças com a das igrejas de San Román, de Cirauqui e de Santiago, de Puente la Reina. No século XV foram introduzidos traços góticos na parede norte e a cobertura das naves são dos séculos XVI e XVII. Entre as diversas artes sacras, destaca-se o retábulo da Virgen del Rosario, do século XVI; num de seus nichos há uma imagem da Virgen de la O, do século XIV. A capela de San Andrés tem estilo barroco e seu retábulo é em estilo rococó, do século XVIII.

A parte mais antiga da igreja de San Miguel data de 1187, época da invasão da Navarra pelos castelhanos. O que se vê é uma mistura de estilos românico tardio e gótico. Um retábulo de Santa Elena é uma de suas obras de arte mais expressivas. No exterior, encontra-se a capela de San Jorge.

Também a igreja do Santo Sepulcro é uma fusão de estilos românico e gótico. Iniciada em 1200, só foi concluída no século XVI. É uma das mais antigas igrejas paroquiais de Estella. Impressionam os detalhes da cena da crucificação de sua portada gótica e da galeria de santos que a ladeiam, mais acima.

O convento de Santo Domingo, hoje transformado em residência de idosos, foi construído pelo rei de Navarra Teobaldo II, no século XIII.

A igreja de Santa María Jus del Castillo é románica, do século XII, foi construída sobre uma sinagoga abandonada. Hoje é sede do Centro de Interpretación del Románico y del Camino de Santiago.

A atual basílica de Nuestra Señora del Puy substituiu uma anterior, de estilo barroco. Construída no início do século XX, sua planta e toda a decoração gira em torno de uma estrela de oito pontas e abriga uma imagem folheada em prata, do século XIV, da Virgen del Puy, patrona da cidade, juntamente com San Andrés. Conta uma lenda do século XI que pastores de Abárzuza foram atraídos por estrelas que assinalavam uma cova, onde encontraram uma imagem da Virgem com o Menino, muito parecida com a Notre Dame du Puy, de Le Puy-en-Velay, França. Por isso a denominaram Virgen de Le Puy. O rei navarro Sancho Ramirez mandou construir uma ermida em sua homenagem, séculos mais tarde substituída por uma igreja barroca, da qual se conserva o átrio de acesso ao templo.

O convento de Santa Clara, cuja fundação data do século XIII, foi reedificado em estilo barroco, no século XVI, abriga monjas clarissas, em clausura. É permitida a visitação à igreja do convento, que contém vários retábulos barrocos.

O maior destaque da igreja de San Juan Baptista é o retábulo renascentista do altar-mor.

Em Estella cultua-se La Virgen de Rocamador, que segura o menino Jesus em seu lado direito, ao contrário da maioria de outras representações da Madona que tem o Menino à esquerda. Conta uma lenda que um peregrino havia chegado à cidade e decidiu participar das festividades de San Felipe e Santiago. Durante os festejos um morador de Estella foi assassinado e o peregrino acusado, julgado e condenado pelos juízes com base em provas circunstanciais. Já no cadafalso, voltou a jurar sua inocência e tomou como testemunho a Virgen de Rocamador, afirmando que ela trocaria a posição do Menino da esquerda para a direita. O povo correu à igreja e comprovou o milagre. O peregrino pode, então, voltar ao Caminho.

O palácio de Los Reyes de Navarra é o único exemplo civil da arte românica em Estella. Construído na segunda metade do século XII, é também conhecido como palácio de Los Duques de Granada e Ega (Atualmente, abriga o museu do pintor Gustavo de Maeztu, um dos mais importantes da Escola Basca).

Ayegui – NAVARRA – 657,1 Km de Santiago

Ayegui é quase que um bairro de Estella, tal sua proximidade. À saída do povoado pode-se optar por ir diretamente a Azqueta ou seguir, à esquerda, até o monastério de Irache, voltando ao traçado original do Caminho.

Quanto mais o peregrino avança por vilas, cidades, trilhas e estradas, mais confiança ganha em seu senso de direção. Os sinais que indicam o Caminho tornam-se mais evidentes aos seus olhos já treinados e ele já não teme perder-se. Às vezes, o único indício de que está no caminho certo são as pegadas das botas dos peregrinos que ali passaram antes dele. Mas, mais importante, ele também ganha confiança em si, sabendo que no encontro com tudo e todos há o que aprender e ele aprende a abrir-se ao novo e ao inesperado.