Caminho da Luz – 2007



Autor: Lígia Maria Knabben Becker

Inverno de 2007. De Florianópolis, Blumenau e Itapema, aninharam-se 32 criaturas num ônibus Globosul, todas com igual intenção – a de percorrerem os 195 km das trilhas pela zona rural nas montanhas de Minas Gerais que fazem o Caminho da Luz, região fronteiriça com os Estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. De quebra, subiriam, ao final do percurso, os 2.890 metros do terceiro pico mais alto do Brasil, o primeiro mais alto acessível, o Pico da Bandeira ou a Montanha Sagrada.

Ela seria mais uma caminhante entre tantas que trilharam aquele caminho, chamado de O Caminho do Brasil, criado em 2001 por inspiração de Albinno Neves, jornalista, escritor, também caminhoamante e bicicleteiro.

Na boléia do ônibus, as mãos firmes dos irmãos Sandro e Carlos. Guido, gentilíssimo guia e provedor-mor das informações, dos doces, vinhos e seus acompanhamentos. Sob o plenilúnio de final de junho, os viajores vão. E chegam. Num sesquicentenário hotel, o Serpa, são acolhidos. Também mais cinco participantes de São Paulo agregam-se ao grande grupo agora com 37 expectantes. Estavam em Tombos, a cidade fronteira entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro, conhecida como Portal de Minas, local onde se inicia o Caminho da Luz. Aqui, credenciais, camisetas e cajados são oferecidos. Em cada local de pernoite receberiam o carimbo na credencial de Caminhantes da Luz.

Tombos, da quinta maior cachoeira em queda d’água do país; da usina hidrelétrica construída pelos ingleses, e que manda energia para o Rio de Janeiro; da Igreja Matriz do século XIX; da estação ferroviária (hoje rodoviária), sussurrava sua importância em ter sido, no passado, importante centro de recebimento e transporte do café e produção agropecuária da região; dos coronéis e seus jagunços, dos mandos nem sempre pacíficos,dos seus segredos.

Mas ela também ouviu a voz da sua alma que sempre lhe dizia ao iniciar algum caminho – o verdadeiro caminho é o interior. Gostava desse dizer.

Aos pés da Cachoeira de Tombos, na manhã do primeiro dia de julho, os peregrinos deram-se as mãos. Depois, uma oração. E um abraço coração-a-coração. A partida. Quilômetro zero.

Aos poucos, apareciam a centenária Fazenda Oliveira e seu casarão colonial, de 1845, lembrança dos ricos tempos onde o café era ouro, a trilha da Mata do Banco, a casa de D. Francisca, 86 anos de idade, descendente de escravos, café secando ao sol e sobre ele, os cachorros deitados, na eira do quintal da casa simples e generosa e também no seu humilde fogão, lugar onde o grupo teve o encontro com o pessoal do apoio Rastro de Luz, operadora de turismo do incansável Vitor Hugo. Apoio também benvindo de Anamir, mais à frente, moradora da região, na oferta do clariceano café, sem açúcar, passado na hora, aos caminhantes necessitados.

Porteiras, riachos, árvore centenária, Cruzeiro e ao final dessa etapa, a Gruta Santa, com 35 metros de altura e 1.200 metros quadrados. Dizem que a gruta aumenta dia-a-dia porque as pedras se soltam, e misteriosamente, somem. Ninguém vê. O altar da Santa, nos seus cem anos, quebrou o estranhamento que ela sentia naquele lugar. Não sabia o porquê da opressão no peito. Claro, estava cansada, porém, mais tarde, soube que ali também fora refúgio dos escravos fugitivos!
“Rapá, ó seis são?” traduzindo: rapaz (apesar de serem mulheres) em quantas vocês são? Foi a voz de Douglas, oito anos, mineirinho cor de cuia que se apresentava e dava boas-vindas às peregrinas retardatárias, pouco antes da subida à Gruta Santa. Juntou-se a ele, seu irmão Charles, com a bicicleta dada por um caminhante francês. Já na cidade de pernoite, Catuné, vários meninos disputariam o carregar das mochilas peregrinas até as casas das famílias que as abrigariam com seus respectivos donos.
Catuné, (nome indígena que significa pessoa que fala bonito) sob o comando de D. Dulce, doce criatura até no nome, acolheu a todos com farto jantar feito e servido na escola da comunidade, com falas, discursos presidenciais e quase, e até jogo de Capoeira pelas crianças da escola.

Dia seguinte, os galos de Catuné deram seu recado cedinho, expulsando rapidamente os peregrinos da cama.

Café da manhã no Balneário da Igrejinha, na Laje de Pedra. Subidas e descidas, Lombo do Burro, muita neblina, Vale do Silêncio, carro de apoio na Praça da Água Santa em frente à igrejinha da Nossa Senhora dos Homens (que coisa!). Magníficos o queijo frescal mineiro com doce de banana feitos na escola daquela comunidade.

Ela lembrava da lenda sobre a origem do queijo. Conta a lenda que um mercador árabe levava uma bolsa cheia de leite de cabra para matar a sede enquanto cavalgava pelo deserto escaldante. Após um dia inteiro, o árabe pegou o seu cantil e deparou-se com uma grande surpresa, o leite havia se separado em duas partes; uma líquida, o soro, e uma porção sólida, o queijo.Maravilhava-se, ela, mais uma vez com a capacidade das mesmas idéias dos homens espalharem-se ao vento!

De repente, a pintura do quadro “Colheita do Café” começava a se mover. Recordava das imagens dos livros gravadas na sua mente desde criança… os morenos colhedores de café agora tinham nome, falavam, moviam suas peneiras. Alguns até cantavam! E tinham sotaque da gente mineira, uai!
A descida da serra até Pedra Dourada fez dor. Ela sentia fisgar seu joelho direito. A visão da bela cachoeira e o terreno plano logo em seguida, aliviaram a dificuldade do dia.

Em Pedra Dourada, a torre da Igreja de São José é a única em estilo gótico no Caminho da Luz. Ali, a pensão da D. Ana esperava por todos. Seu Zito, também. É o primeiro albergue para os peregrinos da Luz. Simplicidade. Cidadezinha onde toda população tem trabalho, pacata cidadezinha do interior. E ela repetia, na memória, os versos do mineiro Drummond em “Cidadezinha qualquer”

Casas entre bananeiras
Mulheres entre laranjeiras
Pomar amor cantar

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar …as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

E a caminhada continuava, sob grossa serração desmanchando-se em pingos da água que escorriam sobre as cabeças viajantes. Depois, sol constante e céu azul. Fazendas, riachim, cachoeira, mata-burros, pontes, pedras e pedras, a do Lagarto, poeira, poeirinha, poeirão…vermelha, marrom, preta; mangueirais, gavião-rei, ninhos de gravetos enormes, dependurados em galhos de árvores, pura arquitetura do João Pau.

Fábrica de ração, Laticínio, bastante gado de leite. A hospitalidade e alegria de José Fava e sua esposa, com direito a café moído e coado na horinha, bolo, polenta, cachacinha, caldo de feijão já pronto àquela hora da manhã sobre o fogão à lenha foram emocionantes! O contrário da idéia que se pode fazer de um povo mineiro totalmente introspectivo, caladão.

Oração ao lado da eira de café, agradecimentos, encontro com os companheiros e novamente …a caminho da luz.

Sentia-se privilegiada em vivenciar aprendizados novos no seu próprio país, livre daquela mania de viver apenas para extenuantes trabalhos, engolida pelo consumo exagerado, sem tempo para o lazer, a reflexão, a cultura, para o exercício da tolerância e do amor.

A chegada em Faria Lemos foi recepcionada pelo Dé, Diretor de Turismo da cidade que de tão pacata não possui penitenciária; polícia “serve apenas pra apartar briga de marido bêbado”, dizia ele. Lá, todos recebem apelidos Qualhada, Dê, Vavá, Pelanca…

Ela soube, porém, que nem sempre havia sido assim: muito sangue foi derramado ali, entre brigas de famílias e de Coronéis muito cruéis.

Após o cassoulé de frango no jantar, torresmo e vinho de entrada, um passeio turístico pela cidade ciceroneado pelo Dé, encerrou mais um dia. A Igreja é dedicada a São Mateus.

Pela manhã do dia seguinte, um café com parabéns para Fernando, o Japa, pelo seu aniversário, a oração e pé na estrada, por sinal com a paisagem belíssima, carros de boi chiando nas rodas, a Serra dos Cristais reluzindo os cristais de quartzo branco esparramados ao longo do caminho, pela Fazenda das Palmeiras, do século passado, numa exibição da natureza ímpar. Ela esperava que a qualquer momento saísse da mata um Saci-Pererê, ou uma Iara das águas dos rios e cachoeiras.

Ao se chegar em Carangola, a maior cidade daquela região, se passa pela Faculdade de Filosofia e pelo Horto florestal até à Praça principal com a Igreja Matriz de Santa Luzia.

Carangola é nome aglutinado das palavras cará, peixe abundante nos rios da região e de angola, capim trazido pelos escravos de Angola.

O jantar, minúsculas almôndegas, minúsculos bifes enrolados, todos ao molho de tomates, foram completados com angu de milho e feijão, pratos que se fizeram presentes em todos os cardápios do Caminho. Mais tarde, o Grupo Bate-Latas, projeto social envolvendo crianças da comunidade apresentou-se na praça homenageando os Peregrinos da Luz, fazendo, ao final, a percussão do parabéns a você para o camianiversariante. Emoção oriental.

A trilha de Carangola até Espera Feliz segue o leito da antiga Estrada de Ferro Leopoldina, construída no século XIX. Ela decidiu caminhar mais devagar, apreciando o verde, os paredões rochosos, o túnel de pedra, a casa do eremita, as samambaias, as avencas e bromélias, o chão macio coberto por folhas secas, enfim, um dos trechos mais bonitos do Caminho. Na Estação Ernestina, o abandono. A nostalgia de um tempo não vivenciado, apenas imaginado: partia a Maria Fumaça levando o café da região para o Rio de Janeiro, damas elegantes, crianças, trabalhadores… o apito… a fumaça…

De Ernestina a Caiana um chão coberto de mica e de cristal.

Em Caiana, uma estratégica parada para um acebolado bife e uma Itaipava, porque afinal, ninguém é de ferro.

Espera Feliz foi região de caça abundante no passado, assim, a espera era feliz. Seu padroeiro, São Sebastião. O Hotel Pico da Bandeira foi o prenúncio do término do caminho. Novamente a saborosa culinária mineira no quiabo com galinha e angu de milho, servida no restaurante do hotel.

De Espera Feliz ao Alto Caparaó, poeirentas subidas e descidas, a Pedra Menina, encantada. Diz a lenda que uma índia, desprezada por seu amor, atira-se do alto de uma montanha e seu espírito encantado transforma-se na Pedra Menina. Outro causo contado foi a história do touro bravo chamado Ó. Três boiadeiros caparam o Ó, daí Caparaó.

Alto Caparaó é cortada pela longa Avenida Pico da Bandeira até a Igreja azul do Apóstolo Paulo. Nas pousadas Verde Vale e Serra Azul os caminhantes dão-se churrasco e repouso na última noite da aventura na rota de peregrinação trilhada por índios, tropeiros e aventureiros há centena de anos, visitando seus patrimônios religiosos, culturais, naturais e históricos, concluindo sua peregrinação no alto do Pico da Bandeira, a Montanha Sagrada do Brasil (2.892 metros de altitude)’’, comprovada pelos certificados da ABRALUZ – Associação Brasileira dos Amigos do Caminho da Luz , em 07-07 -07.

Numa data com números tão perfeitos, o dia amanheceu bonito e frio no Alto do Caparaó, onde lotados os jipes e caminhonetes, os peregrinos da Luz, suas expectativas e ansiedades são levados todos até Tronqueira, lugar onde realmente começa a subida ao pico, último ponto acessível por carro. Como guias, Josias e Sócrates, nos 9 km de ida e 9 km de descida, numa trilha com muitas, muitas “pedras no caminho”. Descanso no Terreirão, com abrigo para turistas e a Casa de Pedra. Flores de marcela, cipó de leite e amarílis vermelha, modelos para fotos.

Ela dedicou a subida aos netos Pedro e Isadora e a descida ao seu amado príncipe!

No topo, a explosão da conquista no choro morno e silencioso da alma peregrina, no agradecimento ao Divino, na comunhão com a Montanha Sagrada do Brasil, sem o encontro e o registro fotográfico com todos os companheiros da caminhada.

Dizem que em 1.859, D. Pedro II determinou que fosse colocada uma bandeira do Império no pico mais alto da Serra do Caparaó e por esse motivo acredita-se que o nome Pico da Bandeira se deva a esse fato. Há outros picos menores em tamanho não menos belíssimos, como o Pico do Cristal, Pico do Calçado, Pico do Cruzeiro e o Pico do Camilo.

A volta pra casa, no ônibus alegre, foi tempo das já saudosas lembranças dos sanduíches da Comadre, altamente protéicos e diarréicos; dos cafés encharcados de açúcar pra desgosto da Clarice; dos suquinhos naturais congelados; das prodigiosas bananas que nunca faltavam, principalmente na mochila da japinha-papa-léguas Ryoko, com seu mingauzinho de aveia; do ma-ra-vi-lho-so e autêntico queijo mineiro; da ausência do pão de queijo sentida pela Maria Zilda; do torresmo, delicioso provocador da idas e vindas do Jairo ao mato; da água de bem-te-vi,companheira inseparável do André novo; dos carrapatos amigos da Lígia e da Helena; do André vechio todo saudoso, reencontrando as Minas Gerais das férias de infância, querendo a todo custo entrar de charrete em Caiana; da prevenida sombrinha da Tânia, a querida do Graziano, o sábio; do Guido chamando a sua Flor; do Leonel pandorga e seus banhos de cachoeira, sentado nas pedras remando à espera da sua sorridente Arlete; do Leônidas maratonista que adorou ficar sem o acento circunflexo e assim ser colocado no quarto da Emi e da Sílvia, esta a grande paixão do Jeca-Josias-Tatu; do biju açoriano Cenoer e seus casacões para frio; do Zé Cheirosinho, apesar do palheiro,o Onildo; da Ecilda com seus elegantes modelitos; dos reis da bateria da Capoeira, Ferreira e Rosângela, que além do samba tinham asas nos pés; do Fernando, também maratonista, procurando um médico de estética, surpreso com a simplicidade de algumas pousadas, simples até na higiene; da Líbera e seu amor pelo saco de dormir, e o vencido medo de altura; da Conceição-dorme-fácil, com seu legionário boné; da cara de guri (ô rapá) do Luiz Antônio; dos meditativos olhos azuis do João Élcio; do sósia de Sérgio Reis, o Roberto Tadeu; das paulistas, “apesar de paulistas eram gente boa”; da Adelaide e Rosângela pulando porteira; do “Brad Longino Bandeira”, mais bonito do que Brad Pitt e Antônio Banderas e seu amooor Eliane; do Valde-tosse-tosse-mar e sua bela Helena; da palidez da Jaci na subida ao pico, no riso solto,descendo, enfim, de toda a cacalhada segundo o Maurício.

Todos em gratidão ao Albino, seu filho Vitor Hugo, seu irmão Jorge (o flautista), Pardal (o Kojak) Ângela, Vanderson, (o guia de bicicleta) Josias, Sócrates, às donas das Pousadas não mencionadas, às pessoas do Caminho, colhedores de café, tropeiros, conhecidos e anônimos…. todos sempre a Caminho da Luz!!