Diário da Romantiche Strasse


São essencialmente pessoais os olhares e sentires sobre a Romantiche Strasse; não existe a pretensão de ser este relato um manual ou guia turístico. Os dados aqui registrados foram feitos durante a viagem e as consultas históricas posteriores estão de acordo com o Guia Turístico da Rota Romântica, de Willi Sauer Verlag.

29/08/2012 – Florianópolis / Brasília/ Frankfurt

30/08 – Frankfurt
Passeio de ônibus pelos pontos turísticos de Frankfurt.
Frankfurt tem seu nome derivado de frank=francos e furt=vado, passagem.
Um aspecto bem interessante ressaltado pelo guia a respeito da Rota Romântica diz respeito ao nome “romântica”, que não deve ser remetido apenas por ser um caminho agradável e sugestivo ao romance mas também ao Movimento artístico-cultural e político na Alemanha de Pós-Guerra.
Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, países como a Alemanha e França, criaram “Rotas Turísticas”, para chamarem a atenção dos americanos que ficaram na Europa e para deixar para trás a péssima imagem de cidades arrasadas pelos conflitos da guerra, principalmente na região alemã. Aproveitando-se desta nova tendência, uma região da Baviera, na Alemanha, criou a “Rota Romântica”. O ponto de partida é a cidade de Würzburg, terminando em Füssen, passando pelos mais belos castelos da Europa.
Como havíamos passado a noite no avião (muitos como eu, sem nada dormir) as informações dadas pelo competente guia turístico contratado para nos mostrar Frankfurt, tornaram-se infindáveis e um tanto cansativas, o que lamentei .
Estadia no bem arquitetado Radisson Hotel.

31/08 – Frankfurt a Würzburg
De ônibus, chegamos a Würzburg, região situada à beira do rio Meno, cuja população é mencionada desde 450 antes de Cristo e no ano de 650 como sede dos Duques franconianos. Vale lembrar que estamos na região da Francônia. A partir de 1030 a cidade passa a pertencer aos bispos de Würzburg, que eram ao mesmo tempo os Duques da Francônia, antes de que Napoleão tivesse acabado em 1802 com o domínio mundial da Igreja. Desde então a cidade pertence a Baviera.
Vale a pena a visita a poderosa fortaleza Marienberg, tornada a antiga Residência dos Príncipes Bispos (século XVIII) com a vista sobre os vinhedos e toda a cidade, com as torres da Catedral e a redonda cúpula da Igreja Neumünster.
Cabe dizer que por toda a Rota Romântica, sempre haverá uma igreja principal, gótica ou barroca (por ex.), a Markplatz (praça do município, onde o povo se reunia para quase tudo, desde a venda de mercadorias até festivais e execuções, palácios, fortalezas e muitas pontes. Aqui em Würzbug, sobre a Ponte Antiga do Meno (sec.XVII a XVIX) tivemos o privilégio de saborear junto ao belíssimo pôr-do-sol, a vista sobre a Cidade Velha e um vinho branco típico da região. Isso tudo depois de curtir uma longa fila para a compra das taças do excelente riesling alemão com o adendo de se poder olhar nos olhos das imagens barrocas de tamanho natural de 12 soberanos e santos espalhados ao longo da velha ponte. Uma delícia de final de tarde!

1/09 – Primeiro dia de caminhada
Würzburg a Tauberbischofsheim (êta nomezinho difícil, levei o dia inteiro pra aprender a dizê-lo sem gaguejar).
Caminho lindo sobre o Vale do rio Tauber, apesar de cansativos 31 quilômetros e uma bolhinha no dedo mínimo do pé teimando em aparecer mesmo com todo o conforto do meu já bem usado Mizzuno.
A noite anterior havia sido nada silenciosa na cidade cheia de turistas vindos para o Weinfestival (festival do vinho). E quem disse que alemão quase não bebe vinho?
O encantamento da paisagem reconfortou o corpo cansado dando lugar a apreciação dos jardins das casas lotados de gnomos, fadinhas, duendes, borboletas, abóboras. Demais de boa a comilança das frutas em abundância nesta época do ano: ameixas, peras, uvas e maçãs de todas as espécies. As macieiras são como os nossos pés de goiaba no Brasil, nascem em todos os lugares, jardins, praças, florestas, uma tentação aos milhares!
As famílias têm suas hortas muitas vezes longe das suas casas, essas de excelente padrão. Não há quem não tenha sua horta própria dividida entre pomar e jardim. Os jardins das casas, lotados de dálias, palmas e rosas são lindos!
Cada confeitaria um doce mais saboroso que outro. Um interior da Alemanha se descortinava fantasticamente aos brasileiros caminhantes!
Aprendi que bäckerei é padaria e bäcker, padeiro. Como o ä tremado se pronuncia “e”, deduzi que o nosso sobrenome foi grafado errado no Brasil, dando origem a Becker.
Como falei anteriormente, meu relato, as visitas aos lugares, paradas e impressões são pessoais.
Uma parada para o café da tarde foi na casa-pensão (Gasthaus) do Herr Aloisio (nome alemão bastante comum), que nos abriu a intimidade da sua residência que mais parecia um museu com fotos, objetos antigos, decoração pra lá de Kitsch.
Simplesmente delicioso o bolo feito pela esposa, pródiga fatia que custei a terminar. No meu parco alemão consegui saber seu nome, da esposa, o quanto custava nosso café e dizer que éramos, Guido e eu, brasileiros. Admiração dele e do único hóspede que nos falava apenas com o olhar fixo e surpreso em identificar que estávamos a percorrer a Rota a pé já que o costume é conhecer a Romantiche Strasse de carro, de bicicleta ou de ônibus. Foi o único hospitaleiro que não falava nada em inglês, pelo caminho.
Essa rota a princípio foi feita para os fazendeiros que precisavam da interligação das suas propriedades com as cidades, para passagem das suas máquinas e tratores. Como há o costume ainda de o povo andar de bicicleta foram pavimentados quilômetros e quilômetros das estradas entre os vilarejos(burg) para o trabalho e o lazer, dois ingredientes fortíssimos na cultura alemã.
O trim-trim das bicicletas é um dos sons mais comuns que se pode ouvir ao longo de toda a rota. Sem restrição de idade ou gênero o uso das bikes.
Tauberbischofsheim (ufa!) traduzindo, quer dizer que é o lugar dos bispos no rio Tauber. A cidade pertenceu ao Arcebispado de Mainz antes de passar a Baden em 1803. A Praça do Mercado é romântica e as construções possuem as fachadas entremeadas.
A Igreja Católica de São Martim alberga valiosos tesouros antigos. A cidade é conhecida por ter o Clube de Esgrima com mais medalhas no mundo.O Castello Kurmainz, de 1250 hoje é um museu na cidade cheia de vinhedos e bosques.

02/09 Tauberbischofsheim a Weikersheim
Caminhamos 20 quilômetros até Bad Mergentheim, depois de táxi até Werkersheim.
Chegamos a tempo para assistirmos o Festival da cidade. É um desfile de carros típicos com cavalos, retratando as tradições e grupos: arqueiros, bombeiros, cavaleiros, etc. Aqui se encontrava por séculos a residência dos antigos e poderosos Príncipes de Hohenhole, com seu castelo, igreja gótica, jardins e fonte rococó bem na pracinha. À noite, nosso pouso, em hotel excelente, deu oportunidade de provar a sopa de goulash e o delicioso vinho branco da região.

03/09 Weikersheim a Rothenburg
Andamos 20 quilômetros dos 35 até Rothenburg. O restante com ônibus de linha.
Pela manhã, um pouco de neblina e passagem por granja de porcos, milharais e vinhedos nos morros. Quase não se vê o gado que está confinado, a sua maior parte. O almoço foi em Creglingen, de numerosas casas de paredes entramadas, lindas vitrines sempre com balcões com flores, muitas flores por todos os lugares, gerânios, petúnias até de cor preta. Um festival constante de cores!
As casas usam as suas baywindows, aquele avanço de parede nas janelas, para exibirem além das orquídeas, objetos de coleção como bonecas, bibelôs, móbiles de janelas, etc.

04/09 Rothemburg Ob der Tauber (Rothenburg sobre o rio Tauber) porque existe outra cidade com o mesmo nome, em Lucerna, na Suíça. Daí ter que existir o.d.T.
Dia para aproveitar a cidade mais interessante do caminho. Sem dúvida, a linda Rothenburg foi o “burg” mais comentado e apreciado da Romantiche Strasse. Com pouco mais de 10 mil habitantes, está situada no vale do rio Tauber e é o lugar que parece ter parado no tempo. É a Antiga Cidade Imperial que desde a Idade Média manteve intacta o muro de fortificação armado de Torres para a proteção da cidade. Percorremos as muralhas bem conservadas de onde se pode ver partes da Cidade Velha, com a Markplatz e a grandiosa Rasthaus (Prefeitura) de construção gótica e renascentista com sua torre de campanário onde se tem a vista completa da cidade, magníficas. O edifício com sua esbelta torre se manteve intacto mesmo depois do incêndio do ano de 1501. Do outro lado da Praça há um frontão com espiral de adorno, um relógio solar e o relógio municipal, em cujas janelas a cada hora saem os personagens do “Meistertrunk”, que segundo a lenda no ano de 1631, salvou a cidade da destruição.
Do outro lado da Torre, há a preciosa fonte de St. Georg o Herterich, tendo ao lado a casa Jagstheimerhaus que hoje é a Apotheke (farmácia). Através do pátio interior do Prefeitura encontra-se a igreja principal gótica St. Jakob, que é o nosso São Tiago. É uma igreja paroquial da Igreja Evangélica Luterana. Inúmeras obras de arte, vitrais e valiosas estátuas decoram este centro religioso. Há uma escultura em tamanho natural bem à frente da igreja, com o São Tiago apontando algum caminho, ou será para o crédulo poder segurar a mão do Santo? Brincadeira à parte, deve haver um sentido mais teológico que não descobri.
Percorrer a cidade a pé é a única maneira de conseguir conhecer Rothenburg, mesmo porque os carros não entram na cidade antiga. São várias Torres (ou portas) que guardam a cidade: a Torre Branca, a Markusturm a porta de Röder, a porta de Kobolzell, enfim, muitas flores nos balcões das antigas casas burguesas, fontes, museus (das bonecas e jogos, medieval de criminalística, da cidade imperial). O mais procurado é o Museu de Natal. Por falar nisso, há várias lojas com enfeites de Natal e encher os olhos e esvaziar euros dos bolsos. Há vitrines com canecos de chope, brinquedos e bonecas. A cidade é lotada de padarias com as famosas schnellballen, doce feito de um emaranhado de massa frita, em formato de bola e coberto com açúcar, chocolate e outros sabores. Tem que provar para ver se gosta, eu não gostei muito.
Aqui dormimos em um Jugendherberge (Albergue da Juventude) construído de 1512 a 1516 que foi um antigo moinho de trigo – The Horse Mill-e que na época era o maior moinho do Sul da Alemanha. Hoje ele está reconstruído depois de ter quase desaparecido em um incêndio quando já havia sido transformado em lugar de manufaturas de vidro para enfeites de árvores de Natal. A própria comunidade junto ao conselho da cidade se mobilizaram na reconstrução do edifício que veio a se tornar um Albergue para Juventude e hoje ele oferece dormitórios com 200 leitos, em apartamentos e quartos.
Tudo por aqui tem história e a memória do povo pode ser reavivada através desse cultivo.
Enfim, Rothenburg ob der Tauber é uma cidadezinha de uma beleza que só vendo para poder se fazer falar dela. É impressionante a evocação histórica que dela emana, pelas suas construções que inclusive têm talhas para se levar móveis e objetos pesados para os pavimentos mais altos, seus caminhos, suas fortificações, seus jardins em terra e os suspensos nos balcões das casas.

05/09 – Rothenburg a Feuchtwangen
Foram 32 quilômetros, dos quais caminhamos apenas 20. Parte do grupo veio com ônibus e depois de táxi até a pensão Wilder Mann, em Feuchtwangen. O dia foi de sol muito quente.
O encontro das pessoas nas pousadas, com wein und bear, à noite, virava festa , que naquele jantar, ficou por conta do estranho cardápio oferecido e aceito por muitos: bochechas de porco, argh! Me perdoe o pessoal que provou a iguaria. Já conhecia o típico einsbein ( joelho de porco) mas as bochechas da criatura, credo! Só aqui mesmo!

06/09 – Feuchtwangen a Nördlingen
Caminhamos 3 intermináveis e nada agradáveis quilômetros ao lado da pista de carro e depois pela estrada de bicicleta até Dinkelsbühl.
O nosso passeio pela cidade foi de carroção puxado por dois magníficos cavalos Percheron.
Visitamos a Igreja de St. Georg (impressiona o número de igrejas dedicadas ao São Jorge) que é considerada uma das igrejas com as naves mais bonitas do Sul da Alemanha.
A construção enviesada das coloridas casas permitia o povo da vila saber sobre o que acontecia na casa do vizinho, disse o guia
Penso que também servia de proteção aos residentes que desta forma poderiam saber de pronto quem entrava no burgo.
Pegamos o ônibus da Romantiche Strasse na pracinha da cidade e fomos até Nördlingen.
Nördlingen é uma cidade da Baviera, com população em torno de vinte e cinco mil habitantes. É cercada por um muro medieval e foi construída no século IX sobre uma cratera ocasionada pelo impacto de um meteoro há 15 milhões de anos. O meteoro tinha 600 metros de diâmetro e formou um círculo de 24 quilômetros de diâmetro, local onde hoje se situa Nördlingen.Durante a Idade Média Nördlingen era uma cidade livre do Sacro Império Romano e importante centro de comércio. A cidade foi palco de duas batalhas durante a Guerra dos Trinta Anos.
Hoje Nördlingen e Rothenburg ob der Tauber, são os dois únicos municípios da Alemanha que ainda possuem uma muralha completa em torno da cidade. Como em quase todas as cidades europeias da Idade Média, a muralha foi construída para proteger os moradores dos bandidos, que vinham em bandos, saqueavam a cidade e enforcavam os homens. Assim , Nördlingen, permanece parada no tempo, uma cidade medieval em pleno séc. XXI, com suas típicas casas feitas de alvenaria e toras de madeira, muito semelhante às construções alemãs do sul do Brasil.
Uma curiosa lenda explica o fato de haver tantas figuras de porcos pela cidade. Dizem que uma mulher ao brigar com o marido rogou-lhe uma praga ao jogar cerveja em seu rosto: que ele se tranformasse em um porco! Lenda é lenda!
Aqui foi o único hotel com uma incrível cama de casal, com dossel e tudo, e pasmem, era bem antiga e já tinha um espelho no teto da cama! Quem disse que alemão não é romântico?

07/09 – Nördlingen a Donauwörth
Acorda-se sempre com o sino da Igreja batendo as horas, de uma em uma hora a noite inteira! Às vezes, até quarto de hora. Uma maravilha pra quem tem dificuldade pra dormir!
Caminhamos até Harburg, com seu Schloss (castelo) no topo da cidade e dali tomamos o trem local até Donauwörth.
Donau em alemão é Danúbio e worth, ilha. Assim, a cidade tem suas origens em uma comunidade de pescadores da ilha do Rio Wornitz, já que está localizada na confluência dos dois rios. É a capital do Distrito Donau-Ries e conhecida como a “Pérola do Danúbio Bávaro”. Historicamente é importante para a Alemanha como local dos incidentes que conduziram à Guerra dos Trinta Anos.
A aventura gastronômica do dia ficou por conta de um hamburger imenso de diâmetro igual a um prato de almoço! E viva a fartura da comida germânica!

08/09 – Donauwörth a Thiertphauten
Pelo caminho, o encontro com a tradicional cultura alemã: uma casa antiga servia de museu, aberta ao público, com música, roupas, decoração típicas. O detalhe: além da oferta das frutas pra quem quisesse, não havia ninguém tomando conta do lugar.
Lembrei-me do mesmo fato ter se repetido quando por ocasião de uma compra em uma loja da cidade anterior, escolhi, provei a peça, sem viva alma na loja vazia. Depois de um tempão apareceu a sorridente caixa pra fazer a cobrança.
Ao longo do caminho essa situação se repetia. Flores e abóboras eram vendidas à beira da estrada sem ninguém para cobrar. Apenas um a caixinha ao lado dos produtos com preços indicava o lugar do pagamento.
É a magnífica confiança no outro, tão desconhecida pelos brasileiros.
Caminhada belíssima dentro de florestas mas cansativa nos seus mais de 30 quilômetros sem apoio como casas ou um bar pra se comprar água. Dia quente com muito sol.
A Gasthaus (hotel/ pousada) na minúscula cidade foi o que tivemos de melhor. Como era sábado, tudo estava fechado,e a calmaria foi quebrada pelo movimento de um casamento no nosso hotel. Tudo simples, bonito, discreto e organizado.
Até a visita ao cemitério da cidade ao lado do hotel, valeu a pena. Cada túmulo era um pequeno jardim, com flores, arbustos, pedras, anjos e lanternas, desconstruindo a imagem triste e solitária dos jazigos tradicionais.
O melhor jantar do caminho, sem dúvida, foi na Klastogasthaus, a nossa pousada do dia. Um saboroso salmão em prato elaborado, digno de restaurante cinco estrelas. O café da manhã, à luz de velas, orquídeas às janelas, ofereceu iogurte artesanal de vários sabores entre pães e bolos deliciosos, arrumados com bom gosto entre flores naturais.

09/09 – De Thiertphauten a Augsburg-
Hoje, 30 quilômetros com um calor danado.
Localizada no sudoeste da Baviera, Augsburg é uma das cidades de maior importância histórica na Alemanha. E uma das mais bonitas. Com um pouco de fantasia, quem andar pelos antigos caminhos da cidade poderá se sentir como um príncipe renascentista, ou pelo menos imaginar a importância que Augsburg tinha na época da dinastia de banqueiros e comerciantes dos Fugger: um centro financeiro de destaque, metrópole do comércio internacional e meca das artes.
Visitamos a Fuggerei, um bairro operário mais antigo do mundo, surgiu a partir de 1516 por Jakob Fugger, “O Rico” e seus irmãos. São 67 casas e 147 apartamentos, uma fonte, uma igreja e uma muralha circundante com portas, é uma cidade dentro da cidade.
Seus habitantes seguem até hoje as condições que lhes foram impostas desde aquele tempo: têm que ser pobres, católicos, íntegros, cidadão e nativos de Augsburg, pagar 0,88 Euros de aluguel por ano e rezar diariamente três orações pelos seus fundadores. Já imaginaram? E tudo funciona que é uma beleza!
A cidade marcou durante muito tempo a história da Alemanha e da Europa. Augsburg sempre foi um pouco mais rica, mais deslumbrante e impressionante do que outras cidades. Já no apogeu da Idade Média, os viajantes se espantavam com as imponentes igrejas, como a Catedral com suas portas de bronze, que hoje têm quase 1.000 anos, e a basílica “St. Ulrich und Afra”, que leva o nome dos dois santos da cidade. A Augsburg medieval era cercada por grandes fortificações e pelas muralhas da cidade, das quais ainda há partes conservadas até hoje. Dentro dessas muralhas, viviam vários ourives, que alcançaram grande fama ao longo dos séculos. Suas obras podem ser vistas em diversos museus e exposições, ou compradas em nas pequenas joalherias que continuam existindo até hoje. Juntamente com as belas fontes e as casas das guildas (corporações dos artesãos), além da prefeitura – talvez a mais importante construção renascentista profana ao norte dos Alpes, a cidade forma um conjunto de rara intensidade. Outras épocas deixaram também suas marcas na cidade, ao longo da história: principalmente o barroco, o rococó e – muito mais tarde – a “art nouveau” fazem com que o passeio pela cidade se torne uma experiência inesquecível. Durante a revolução industrial, surgiram também monumentos arquitetônicos notáveis, como a fábrica Schülesche Kattunfabrik, o Glaspalast (palácio de vidro) ou o Fabrikschloss (castelo-fábrica), que hoje são usados, na maioria, como museus ou galerias de arte. Sem esquecer, também, as mansões de industriais famosos, como a Gignoux-Haus, a Villa Haag ou a Villa Silbermann. A “art nouveau” também deixou obras extraordinárias am Augsburg, como a sinagoga, o balneário “Kurhaus in Göggingen”, a igreja “Herz-Jesu-Kirche” e a antiga piscina pública da cidade, “Altes Stadtbad”.
Visitamos a casa Mozart, de 1719,onde nasceu o pai de Wolfgang Amadeus, Leopold Mozart, que descobriu o gênio musical de seu filho e foi também seu primeiro professor.
Assistimos na Igreja Luterana dedicada a São Ulrich a uma celebração com banda e coro vestidos a caráter germânico antigo.
Augsburg estava em domingo de festa: o Bearfestival, ou seja, o festival da cerveja, bem parecido com a Oktoberfest.
Dia de sol, muita cerveja, comida farta nos pavilhões enfeitadíssimos, com bandinhas típicas e quermesse. Clima germânico, total!

10/09 – Augsburg a Landersberg
Foram 30 quilômetros de carona com o táxi das mochilas. O motorista, um croata malcriado, se perdeu e xingava, baixinho, o tempo todo. Me fiz de desentendida. Xingação é igual em qualquer língua.
Landesberg, na Alta Baviera fica às margens do rio Lech, um dos mais importantes rios da Alemanha. A maior parte dos restaurantes, bares e cafés se posicionam à beira rio, e uma espécie de praia sobre as pedras deixava à mostra muita gente ao sol, desse outono gostoso, meio friozinho pela manhã e à noite, apenas para nós, gente do clima quente. Alguns moleques mergulhavam da ponte, outros pescavam nas corredeiras formadas pelos degraus construídos sobre o leito do rio.
Um passeio a pé pela cidadezinha ao entardecer foi bom programa para fotografar e observar a Praça Principal e Fonte com a estátua da Virgem Maria, a imponente Igreja da Assunção (Mariä Himmelfahrt) do século XV, a curiosa casa-torre, a Mutterturm e o bairro das Bruxas(Hexenvierte).
Dignas de serem amplamente fotografadas são as portas de entrada das cidades medievais, como Landsberg. A representativa Porta Bayer (Bayertor) do século XV é um dos maiores baluartes góticos de toda a Baviera.
Um gostoso happy-hour foi programado para a confraternização do grupo em um apartamento bem amplo da Gasthaus.

11/09 – Landesberg a Peiting
Caminhamos a metade dos 30 quilômetros de hoje.
Peiting é minúscula, visitamos a Igreja paroquial de St. Michael e tomamos o cappuccino mais caro da região: 3,60 euros.
No tradicional passeio a pé pelo lugarejo pudemos observar a quantidade de pousadas e hotéis que servem de apoio às cidades maiores em época de esportes de inverno já que estamos próximo aos Alpes. O tempo mudou trazendo frio e chuva. Permanecemos no hotel, onde jantamos e bebemos vinho com conversa fiada, até tarde
Os quarto das pousadas são, em geral, bem amplos e confortáveis com duas camas encostadas formando casal, cobertas alvíssimas de penas e travesseiros de formato esquisito e molengos demais para o meu gosto. A limpeza é impressionante.
Nesta noite, uma mensagem em alemão descansava sobre nossas camas. Futuramente será publicada sua tradução.

12/09 Peiting a Haldblech
Muita chuva nos obrigou a fazer o percurso de táxi. Haldblech é uma cidadezinha com uma rua principal, algumas pousadas e pistas para esportes de inverno. Estamos aos pés dos Alpes, com mudança de paisagem. Região de gado e reflorestamento. Muita madeira nos terraços das casas e pinturas nas paredes, bem típicas dessa região.
Visitamos a maravilhosa Igreja Wies, barroca, considerada o modelo de uma igreja rococó bávara em harmonia entre a natureza e a arquitetura. Com sua abóboda gótica, afrescos e imensa riqueza de formas fizeram valer nosso passeio (de táxi) com frio e chuva até Wies, localizada a alguns quilômetros de Haldblech.

13/09 – De Haldblech a Füssen
Foram 14 quilômetros com chuva fraca e frio. Marchamos rápido. Paisagens com vista para extensos campos de gado e ao longe aquelas igrejinhas com torres fininhas que apontam para o céu nesta região de montanhas alpinas iguaizinhas às que se costuma ver nas folhinhas se calendário. Elas existem mesmo.
Ao longe, em um prado, passamos pela Igreja de peregrinação de St. Coloman e mais adiante, como se fosse uma pintura, saindo da névoa, o Castelo de Neuschwanstein.
Em Füssen, o desagrado pelo albergue barulhento que separou casais, bolinhas pra um lado, luluzinhas para outro, foi compensado pela beleza da cidade. Almoçamos em restaurante tipicamente medieval, com babadores, a fim de saborear o joelho de porco grelhado ou truta com batatas, as famosas kartoffels que acompanham quase todos os pratos da culinária alemã junto com repolho roxo azedo (delícia). E chope, muito chope: preto, marrom, claro, forte, fraco, doce e por aí afora, quero dizer, a dentro! Ein prosit!
Aos pés dos Alpes de Allgäu, a força do glaciar Lech formou no período glacial uma paisagem encantadora com morros e lagos. Os romanos conquistaram e habitaram a região e construíram uma estrada militar, a Via Claudia (Veneza a Ausburgo).
No século VIII, Santo Magnus atuava em Füssen como missionário e depois da sua morte foi construído o Monastério de St. Mang, com a igreja, a torre do relógio, e mais acima o Castelo Hohes, lugares visitados por nós.
No ano de 1313, a cidade passou para as mãos do Príncipe Bispo de Augsburg, antes de cair em 1802 nas mãos bávaras. De antiga estrada romana para abastecimento, Füssen se desenvolveu na Idade Média como importante rota comercial até hoje como ponto culminante de Allgäu oriental, localidade central de turismo com abundância de possibilidades como capelas, igrejas, castelos reais, lagos e montanhas. Almoçamos de modo tradicional bávaro: em pé, um delicioso brot mit wurst (pão com a salsicha branca, e mostarda).

14/09 – Füssen – Zugsptize
Dia pra se curtir Füssen e ida a Zugsptize, a montanha mais alta da Alemanha, de 2.962 metros.
Depois de dois dias de chuva, um dia esplendoroso, próprio para a subida às montanhas. Um pequeno ônibus nos levou até Garmisch, onde graças a um trem com cremalheiras fomos transportados ao topo da montanha, sem problemas ao atravessar rochas, bosques e túneis com uma espetacular vista do lago Eisbsee. Enfim, a chegada de tirar o fôlego: uma paisagem coberta de neve, às vezes fofa, outras vezes, bem lisa e escorregadia, descortinava ao longe as montanhas austríacas, italianas e suíças. Mesmo sem conseguir vê-las, sabia que estávamos em região fronteiriça a quatro países: Alemanha, Áustria, Itália e Suíça. O Zugspitze fica numa região com ampla oferta de desportos de inverno e dispõe de um pequeno glaciar, o Schneeferner, que se tem vindo a retrair nas últimas décadas. Local muito turístico, o cume é facilmente acessível por caminho-de-ferro seguido de teleférico, tanto do lado alemão como do lado austríaco. Lotado de turistas, tivemos que disputar uma brecha para eternizar o momento em fotografias. Uma festa para quem não vê a neve com frequência!

15/09 – Füssen- Munique (München)
Aproveitamos a manhã em Füssen para a visita ao maravilhoso Castelo de Neuschwanstein, construído defronte ao Lago Albsee e o Castelo de Hohenschwangau.
É o castelo que inspirou o Castelo da Cinderela na Disneylândia.
Foi o excêntrico mundo inspirado por Richard Wagner, e feito realidade por Luis II ou Ludwig II, lendário rei louco da Baviera.
O solitário rei subiu ao trono aos dezoito anos e estava entusiasmado com as lendas germânicas que havia aprendido através dos dramas musicais de Richard Wagner. Foi se retirando cada vez mais a esse reino fantástico, aos seus castelos de pedra e sonhos. Sua morte trágica e até hoje inexplicável finalizou repentinamente sua obra construtora.
Da ponte, Marienbrücke, a 92 metros de altura, com cataratas profundas, espremida entre dezenas de turistas japoneses, me equilibrei para conseguir uma das mais belas fotos de toda a Rota: o fantástico Castelo Neuschwanstein em meio aos bosques da Baviera. Ao longe, o Castelo de Hohenschwangau, construído pelo pai de Luis II, Maximiliano II. Em estilo neogótico, o Salão dos Cavaleiros do Cisne recordam a lenda de Lohengrin, um personagem do Ciclo Arturiano. Filho de Perceval, é um cavaleiros da Távola Redonda enviado em um barco guiado por cisnes para resgatar a dama que não pergunta sua identidade. Sua história é uma versão da lenda do Cavaleiro do Cisne.Dessa maneira se compreende o porquê de tantas figuras de cisnes pelo castelo, inclusive o próprio nome: Neuscwhanstein, novo cisne de pedra.
Em 1848, Richard Wagner adaptou a lenda em sua popular ópera Lohengrin, considerada a versão da história mais conhecida atualmente. Lohengrin aparece para defender a princesa Elsa da falsa acusação de ter matado seu irmão mais novo (que na realidade está vivo e reaparece no final da obra). De acordo com a interpretação de Wagner, o Santo Graal fornece ao Cavaleiro do Cisne poderes místicos que só podem ser mantidos se sua natureza permanecer em segredo, justificando o perigo da quebra do tabu da pergunta sobre seu nome e sua origem.
Quem se interessar, ouça Richard Wagner e a força da sua música poderá acrescentar mais emoção à história.
À tarde, a viagem de ônibus até Munique passou ligeirinho, recheada de troca de presentes entre amigos (in)visíveis, declarações e depoimentos pra lá de entusiasmados.
Munique tem uma herança como a Cidade da Cerveja, das cervejarias, dos jardins das cervejas (Biergarten) e os Festivais da Cerveja. A arte da cervejaria é uma tradição de centenas de anos por aqui.
Depois das acomodações no hotel, vimos aparecer diante dos olhos uma cidade exuberante, lotada de turistas, com música pelo ar, descontração geral.
Fotos com a luz de final de tarde na direção da belíssima Prefeitura, com seus bonecos performáticos, balcões de flores, monumentos, inclusive o carinho ao javali em bronze, lenda que diz ser necessário o toque se quiser um dia voltar à cidade. Eu quis!
Almoço regado a Pauliner, cerveja feita segundo a original “Ordem de Pureza” bávara, uma antiga lei da velha comida da Europa.
Visitamos a Hofbräuhaus, uma das cervejarias mais famosas onde há uma mini-Oktoberfest o ano inteiro, com bandinhas tocando o dia todo, transmitindo a forte cultura bávara.
Foi fundada em 1589 pelo Duque William V da Baviera para evitar ter que comprar cerveja da baixa Saxônia, sendo de uso exclusivo do Duque. Apenas em 1828 a cervejaria foi aberta ao público. Em 1897 o edifício foi refeito quando foi movido para o subúrbio da cidade. Na Segunda Guerra Mundial toda a estrutura da cervejaria foi destruída num bombardeio, porém foi reconstruída em 1958. Em 1920 Adolf Hitler organizou a primeira das muitas campanhas de publicidade e propaganda do Hofbräuhaus. Durante esse evento foi organizada as regras e idéias do partido nazista.
Seu cardápio caracteriza os pratos típicos da Baviera, como carne de porco, joelho de porco e vários tipos de salsichas, como a Weisswurst (salsicha branca). O tipo de cerveja mais tradicional é a Helles, servido em um caneco conhecido como Mass, é servida junto com uma cerveja de trigo e com vinho.

16/09 – Munique (München) Último dia
É a capital do Estado federal da Baviera, onde anualmente ocorre a festa da cerveja mais famosa do mundo, Oktoberfest. Na qualidade de capital alberga o parlamento e o governo estadual .
Munique conta atualmente cerca de 1,4 milhão de habitantes, chegando aos 2,5 se contarmos com a sua área metropolitana. É assim a maior cidade da Baviera, e a terceira maior da Alemanha, depois de Berlim e de Hamburgo. Uma das atividades de destaque na cidade e na região é o turismo. Munique também é a sede da BMW.
A cidade foi destruída pela metade durante a Segunda Guerra Mundial, porém reconstruída. Desde 1960 a cidade possui mais de um milhão de habitantes. Munique é atravessada pelo rio Isar.
Fizemos um passeio panorâmico de ônibus pela cidade o que fortaleceu a imagem de um povo organizado, limpo, culto, alegre e trabalhador. Muitas Universidades, Museus, Escolas de Música, Igrejas, Instituições de Arte, Teatros, Estádios, transportes aéreos e de ferrovias, enfim, uma cidade grande e moderna mas com longa tradição e com um grande coração.

Auf Wiedershen

Ligia Maria Knabben Becker