Gnomo

Travo no primeiro toque, desacostumei-me do comando dos dedos, só cliques, cliques e mais cliques nos pássaros, isso mesmo, andei ocupado com afazeres que não a disposição das palavras na tela, a harmonia dessas, cada uma ocupando o seu espaço, formando o corpo pensante de um texto, vagueio, espreguiço como quem não quer acordar, mas precisa, há uma tarefa inacabada (o escritor sempre tem algo a fluir de dentro de si, como uma cacimba), a mente se ajusta, parecia tão inoperante, e de repente há uma fluidez inundando a tela, o coração pulsa forte, não morreu e tampouco morreu a mente, e essa se propõe formar riachos e rios, a tela vai se nublando lentamente, como um céu se preparando para chover, e chove, quiçá alguém chore, a mente se deixa escorrer formando correntes, enxurradas, cursos, e logo sou um barco, cavalgando ondas e cachoeiras, não tenho pressa de chegar, “cavalgar é preciso”, as margens de um rio são tão importantes quanto o próprio rio, esse sendo carinhosamente abraçado pela relva e pelos arvoredos onde nidificam os pássaros, ouço gorjeios, mas agora sei de qual garganta eles vêm, minha mente não os esquecerá, volto às telas do computador como um ser mais completo, minhas sinapses me levam para longe ao tempo que estou mais próximo de mim mesmo, dentro talvez, mas não preso, me empresto de minhas asas e voo, sou um gnomo seduzido pelas florestas, amante das flores, dos gorjeios, das matizes que camufla o sono das aves, e de repente senhor da fecunda terra, essa terra que me cobrirá, um simplório ser que a natureza um dia acolherá… no seu berço.