livro Caminho de Santiago de Compostela

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APRESENTAÇÃO

Todas as grandes religiões – judaísmo, hinduísmo, budismo, cristianismo e islamismo – têm seus lugares sagrados, para os quais os fiéis peregrinam. Judaísmo, cristianismo e islamismo convergem para Jerusalém como cidade sagrada comum. Além de Jerusalém, os cristãos católicos voltam seus passos para Roma e Santiago de Compostela como destino de peregrinação.

Este livro objetiva dar ao leitor informações históricas, culturais e turísticas sobre o Caminho de Santiago de Compostela, incluindo algumas de suas lendas, para que faça melhor proveito de sua peregrinação, tornando-a mais atrativa, intensa e proveitosa.

Apesar de seguir a mesma sequência de localidades que o peregrino percorre – desde Saint-Jean-Pied-de-Port até Santiago de Compostela -, não há sugestão de etapas diárias, pois não se trata de um guia passo-a-passo.
Sugiro que o peregrino deva ter em mente não apenas sua peregrinação e as questões interiores que a envolvem, mas, que ao caminhar em direção a Santiago de Compostela, o peregrino o faz por regiões ricas em acontecimentos históricos, cujos personagens dão pistas de sua passagem pelo mesmo palco, em outras épocas e em cenários que ainda se apresentam aos olhos dos caminhantes modernos.

O leitor ficará surpreso ao saber que mesmo povoados que hoje nos parecem insignificantes tiveram seus momentos de glória no passado, seja por algum evento histórico importante, seja por razões políticas ou econômicas, seja por edificações religiosas ou laicas das quais pouco ou nada restam, que agregavam uma população significativa para a época, além de visitantes trazidos pelos mais diversos interesses. Exemplo disso é Foncebadón, tão icônico, abandonado e assustador.

Quanto às lendas, estas sobrepõem-se umas às outras, contando milagres similares atribuídos a um mesmo santo ou a vários outros santos, em diferentes épocas e situações. Outras cobrem lendas mais antigas e lhes dão um verniz cristão, em especial as que se referem à Virgem Maria, em substituição às lendas de deusas ancestrais. Também há lendas que são representações fantasiosas de fatos reais, dando-lhes ares místicos ou heroicos.

¡Buen Camino!

INTRODUÇÃO

No ano de 813, o eremita Pelayo descobriu uma sepultura na mata de Libradón. Comunicado do fato, o bispo Teodomiro afirmou que – por inspiração divina – os restos mortais encontrados pertenciam a São Tiago Maior, apóstolo de Jesus.

Porém uma análise mais crítica sobre a origem do Caminho, podem nos levar a pensar em fraude, pois, além do empenho do bispo Teodomiro, nada prova que os restos encontrados por Pelayo eram de São Tiago Maior. Numa época em que muitas relíquias, milagres e mitos foram forjados, seja para enganar, lucrar, cativar ou incentivar para uma causa, cabe a dúvida: mito ou verdade? (No ano de 326, a mãe do imperador Constantino – Helena – afirmou ter encontrado a Verdadeira Cruz de Cristo, em Jerusalém. Esta foi uma das primeiras relíquias do cristianismo, que também serviu para consolidar um mito anterior: em 312, Constantino teria tido uma visão com a cruz de Cristo e as palavras “Com este sinal vencerás!”, antes de uma batalha. Mandou, então, pintar uma cruz sobre os escudos de seus soldados e, tendo vencido, adotou o cristianismo como religião oficial do Império Romano).

Se traçarmos uma linha de Roncesvalles a Santiago de Compostela, teremos a linha de defesa cristã contra a invasão islâmica. Não muitos anos após a Reconquista ter sido consolidada, o Caminho entrou em declínio. Coincidência?
Além disso, com a política de repovoamento, a partir do século X, a peregrinação ao extremo oeste da Espanha, o afluxo não só de peregrinos vindos de muitos países, mas também de comerciantes, artesãos, religiosos e soldados criou populações – uma flutuante e outra fixa – suficientemente grandes para garantir os territórios conquistados aos mouros.

Uma viagem ao passado nos ajudará a compreender a importância do Caminho para a Espanha e para a Europa.

Existem evidências arqueológicas da presença humana na Península Ibérica de 200 mil anos atrás. Buscando abrigo das intempéries e segurança em cavernas próximas de campos de caça e pesca, esses homens primitivos deixaram rastros de artefatos feitos em pedra, madeira e ossos. Com a adoção da agricultura, foram em busca de terras férteis, onde se estabeleceram em precárias moradias por eles construídas e desenvolveram novas tecnologias: potes cerâmicos e utensílios e armas de bronze, substituídos posteriormente pelo ferro. (Uma das jazidas arqueológicas mais importantes está em Atapuerca, por onde o peregrino vai passar).

Devido a seu vasto e pouco explorado território, diferentes povos – com suas culturas, crenças e armas – foram invadindo a Península numa contínua marcha para o oeste, subjugando ou convivendo com os povos que lá já se encontravam. Aos poucos, foram-se criando pequenos povoados; alguns cresceram para tornarem-se vilas ou cidades, ensejando a criação de pequenos reinos, dos quais existem registros escritos em documentos oficiais de reis, de nobres e de ordens religiosas, ou por historiadores que viveram os fatos ou que estiveram muito próximos a eles.

Além dos povos que se estabeleceram na Espanha migrando do Leste, outros chegaram pelo Mediterrâneo: gregos – que criaram suas cidades no que hoje é a Cataluña – e fenícios, que fundaram Gadir, hoje Cádiz. Gadir foi tomada pelos cartagineses, que se transferiram e fundaram Cartagena, no Centro-Sul da Espanha, em 227 a.C. Em 218 a. C., o general cartaginês Aníbal saiu de Cartgena com um exército de 38 mil infanrtes, 8 mil cavaleiros e 37 elefantes de guerra para atacar Roma, no que foi malsucedido.

Com a vitória sobre os cartagineses, os romanos iniciaram a conquista do território que chamariam de Hispânia. Aos poucos, os romanos foram ampliando seus territórios, disputando-os com as tribos iberas. Eles construíram estradas e pontes, para ligar as cidades e dar escoamento às riquezas que exploravam. Por outro lado, trouxeram aos povos locais costumes, leis e tecnologias de construção, agrícolas e militares sofisticadas para a época. No final de 46 a.C. Júlio César vem à Hispânia para combater as tropas ainda fieis a Pompeu e ataca acampamentos, vilas e cidades, dizimando suas populações, onde encontrava resistência. No século I, com a expansão do cristianismo, também a Espanha recebeu evangelizadores e grande parte da população foi convertida. O Império Romano, aos poucos, entrou em decadência. Em 476 d.C. Roma foi tomada pelos hérulos. Este é o ano que se convencionou como sendo o fim do Império.

Em 711, tropas islâmicas do norte da África, sob o comando do general Tárique, cruzaram o estreito de Gibraltar e venceram o rei visigodo Rodrigo, na Batalha de Guadalete. Nos séculos seguintes, os invasores foram alargando suas conquistas, assenhorando-se do território ao qual denominaram al-Andaluz, que governaram por quase oitocentos anos. A partir deste enclave, expandiram-se em direção ao Norte, encontrando fraca resistência. (Ao longo dos séculos, os califados de Sevilha, Córdoba e Granada, usufruíram de extraordinário progresso econômico e cultural, com grandes avanços nas artes médicas, ciências, matemática, astronomia e filosofia, fruto do encontro das culturas muçulmanas, judaica e cristã, que ali conviviam em relativa harmonia). Porém, numa parte das Astúrias, no Norte, o rei visigodo Pelayo descia as montanhas e assaltava os acampamentos dos muçulmanos e as aldeias despovoadas de cristãos. Pelayo e seus asturianos venceram os invasores na Batalha de Cavadonga, em 722, assegurando a soberania cristã na região.

Em 778, Carlos Magno, rei dos francos de 768 a 814, atravessando os Pirineus, irrompeu com suas tropas na Hispânia, mais defendendo seus próprios interesses em proteger a Aquitânia – província da França – que para dar apoio aos cristãos. Em suas incursões, não por acaso, seguiu rumo ao Oeste, pela rota que mais tarde se tornaria o Caminho de Santiago. (No ano de 800 é coroado em Roma pelo papa Leão III Imperador do Sacro Império. Com a restauração do título em desuso desde o ano de 476, tanto o papa quanto o Imperador agiram em benefício mútuo: um representado o poder divino e definindo o outro como rei dos reis, o outro por assumir o compromisso de defender e expandir a cristandade).

No ano de 813, o eremita Pelayo encontra os restos mortais de São Tiago Maior, conforme o testemunho do bispo Teodomiro. No ano seguinte, o rei de Astúrias Alfonso II ordena a construção de uma igreja no local, para guardar e cultuar a relíquia. Assim deu-se o início à peregrinação.

O rei Ramiro I de Astúrias, em 844, derrota o general mouro Abderramán II na Batalla de Clavijo. Na noite anterior, o rei havia sonhado com Santiago, que lhe garantira que iria estar presente na batalha, ao lado das forças cristãs. Animados, os cristãos venceram e convenceram-se do milagre. Muitos relataram ter visto o santo montado num cavalo branco, lutando contra os mouros. Nascia e criava corpo o mito de Santiago apóstolo, peregrino e guerreiro.

Alimentada por pretensos milagres, a crença na relíquia foi um impulso importante no ânimo dos cristãos, o que levou à consagração do santo como padroeiro de León y Castilla. A peregrinação a Santiago de Compostela, traçou uma linha de defesa de leste a oeste – Rncesvalles a Santiago -, a partir da qual os cristãos avançaram em direção sul.

Um volume crescente de peregrinos espanhóis e estrangeiros punha-se a caminhar em direção ao oeste espanhol, e a consequente necessidade de dar-lhes apoio – albergues, tavernas, hospitais, igrejas, ferrarias, estábulos, – criou ao longo do Caminho uma grande quantidade de vilas e cidades, atraindo artesãos de todas as qualificações existentes. Assim, cada território conquistado era repovoado com cristãos, muitas vezes vindos de outros países, em especial da França.

Em locais estratégicos foram construídos fortificações e castelos, para ocupar e manter os territórios reconquistados. Além disso, foram criadas Ordens religioso-militares cuja missão era a reconquista da Península Ibérica e proteger os peregrinos. A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, conhecida como Cavaleiros Templários, fundada em 1118, se fez presente na Espanha e várias fortificações lhes foram destinadas ao longo do Caminho, como a de Ponferrada. A Ordem Militar de Santiago, foi instituída por Alfonso VIII de Castilla e aprovada pelo Papa Alexandre III, em 1175, tornando-se uma ordem supranacional; sua insígnia era a espada crucífera, a cruz de Santiago.

Também a Igreja se expandiu, com a construção de mosteiros, igrejas e catedrais. O mosteiro francês de Cluny teve grande influência na romanização da igreja espanhola, fundando mosteiros, dando melhor formação ao clero e trazendo à Espanha o estilo gótico de construção de catedrais. Tendo sido expandida por várias vezes, em estilo pre-românico e românico, a catedral dedicada a Santiago, foi consagrada em 1211, após o término da Porta da Glória, magnífica obra de arte de Mestre Mateo. (Porém sua fachada, em imponente estilo barroco, só foi construída no século XVIII).

O processo de reconquista foi lento porque os reis cristãos mais guerreavam entre si que aos invasores muçulmanos. E estranhas alianças se formaram. Cristãos e muçulmanos aliados guerreavam contra cristãos ou contra muçulmanos. Estes, por sua vez, também lutavam entre si, cada qual defendendo seus interesses.

Após séculos de luta contra os mouros, a Reconquista finalmente terminou sob o reinado de Fernando de Aragón e de Isabel de Castilla, chamados de Reis Católicos, em 1492, mesmo ano em que Cristóvão Colombo, patrocinado por eles, chegava à América. E, não menos importante, Fernando e Isabel unificaram a Espanha tal como a conhecemos hoje, seja por alianças ou pela força e ordenaram a derrubada de castelos, fortalezas e muralhas, para impedir que fossem usadas para guerras separatistas e para enviar uma mensagem de união e paz entre os antigos reinos.

Não satisfeitos com a expulsão dos árabes – com o consequente declínio dos antigos califados de Sevilha, Córdoba e Granada – os Reis Católicos, Fernando e Isabel, decretaram a expulsão dos judeus da Espanha, em 1503, revertendo a política de repovoamento adotada por quase cinco séculos, arruinando muitas vilas e cidades, para as quais artesãos, comerciantes e banqueiros judeus em muito contribuíam para seu desenvolvimento e riqueza.

Por essa época, em 1517, Martinho Lutero, monge agostiniano alemão, lança suas “95 Teses de Reforma da Igreja”, motivo que o levou à excomunhão. Enquanto em outras partes da Europa a Reforma de Lutero abria novos horizontes à interpretação da doutrina cristã e, em Veneza e Florença, iniciava o movimento que viria ser chamado de Renascimento, a Espanha tomava o caminho inverso. Apesar das riquezas vindas das colônias da América e da Ásia, da reconquista do território e da unificação do país, a Espanha viveu décadas de obscurantismo devido ao poder absoluto dos Reis Católicos e da voracidade com que o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, criado por Fernando e Isabel, em 1478. (A Inquisição Espanhola – a mais cruel de toda a cristandade – aplicou seus estreitos limites doutrinários até 1834). Tanto o sucesso da Reconquista – que tornou a linha de defesa Roncesvalles/Santiago superada -, quanto os movimentos de Reforma Protestante – de cunho não apenas religioso, mas também político e social – e do Renascimento – que cultuava um maior valor ao uso da razão individual e à análise das evidências empíricas – foram decisivos para a drástica diminuição da peregrinação a Santiago de Compostela.

No entanto, ainda nos dias atuais – apesar da polêmica e da dúvida resultante, e até mesmo da descrença -, não há como não se emocionar com a visão da Catedral de Santiago de Compostela, ponto de chegada dos peregrinos após quatro semanas de caminhada, durante as quais estavam imersos em si mesmos. Cada uma das pedras da vetusta catedral há séculos é impregnada de incontáveis preces e votos de fé peregrina de gerações de celebrantes e fiéis. No altar, Santiago parece reconhecer em si próprio o mítico e místico personagem cultuado ali como se fosse um semideus. O ambiente medieval do templo tem algo de teatral, obscuro e misterioso, ao som metálico e vigoroso do imponente órgão. A benção do celebrante aos peregrinos, em seus respectivos idiomas, representa a invocação da proteção de uma divindade universal e arquetípica, enraizada profundamente nos corações de crentes e descrentes.

“A Europa se fez peregrinando a Compostela”, afirmou Johann Wolfgang von Goethe, filósofo, literato e estadista alemão. (Os os reis espanhóis receberam ajuda militar de outros países cristãos, cujos reis encontraram uma causa comum, apesar de suas diferenças e ambições: a defesa do cristianismo, solicitada e apoiada pelo papa e bispos, que desaguaria nas Cruzadas à Terra Santa). Também é de Goethe a afirmação: “Todas as coisas no mundo são metáforas”. Assim é o Caminho de Santiago: uma metáfora de nosso próprio caminho interior, razão pela qual o Caminho é tantos caminhos quantos são os peregrinos porque é pessoal e único para cada um. E são os peregrinos que tornam sagrado o Caminho, por sua fé, solidariedade e determinação, pois quanto mais avançam pelo seu leito, mais tornam-se contemplativos e reflexivos, mergulhando em estados mais profundos de consciência. Então, passa a ser secundário se as relíquias atribuídas a São Tiago Maior são verdadeiras ou forjadas.


O CAMINHO A CONHECER

O Caminho serpenteia por entre cidades e vilas, montanhas, campos e matas, tal qual o leito de um rio, por onde correm as águas peregrinas. Assim, todos os dias, ao longo de todo o percurso e a um só tempo os peregrinos derramam-se neste leito, escorrendo pelas estreitas vielas dos povoados ou pelas largas avenidas das cidades para desaguar continuamente em sua foz: Santiago de Compostela.

Saint-Jean-Pied-de-Port – FRANÇA – 772 Km de Santiago

Mesmo antes de sua existência, Saint-Jean era um local de passagem, mas já era integrada às vias romanas desde que estes se estabeleceram no norte da França e na Península Ibérica. O povoado foi a última escala da grande Calzada Romana Bordéus-Astorga. Por esta mesma estrada transitaram – no século VIII – as tropas de Carlos Magno, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, a caminho da Espanha, para apoiar os reis locais contra a invasão muçulmana e consolidar seu poder como imperador. Por isso, o caminho pelos Pirineus é chamado de Rota Imperial, ou – mais tarde – Rota de Napoleão, quando suas tropas invadiram a Espanha, no século XIX.

Saint-Jean-Pied-de-Port só passou a existir como vila no século XII. A cidade tornou-se um centro de comércio e comunicações importante, estabelecida e fortificada pelos reis navarros que a denominavam de “a chave de meu reino”. Por algum tempo foi capital navarra. Ainda se podem visitar o que restou do castelo-fortaleza de Mendiguren que assegurava o controle da região. Felipe III de Navarra lhe concedeu foros de comarca em 1329.

Em 1512, o exército do rei de Castilla Fernando, o Católico, invadiu e conquistou a Navarra. Contudo, os reis depostos continuaram os enfrentamentos; assim como outras localidades, Saint-Jean sofre ataques e incêndios. Em 1529, diante dos custos de manter o domínio, o novo rei espanhol Carlos I abandona a Baixa Navarra (França), que retorna aos reis locais.

Em 1620, o rei Luis XIII de França une as coroas francesa e navarra sob o governo do cardeal e primeiro ministro Richelieu e Saint-Jean é amuralhada, prevenindo ataques que pudessem vir do sul.

À época da Revolução Francesa, mais precisamente em março de 1789, os reis navarros reuniram-se em Saint-Jean e decidiram recusar-se a enviar representantes às assembleias dos Estados Gerais em Paris, declarando que a Baixa Navarra não era uma província francesa, mas um reino independente. Atualmente a região faz parte da região de Aquitânia, França, mas tem grande identidade com a região basca espanhola e, igualmente, luta por sua independência.

Em 1807, a artilharia do marechal Soult usou a passagem dos Pirineus para invadir a Espanha em nome de Napoleão, pois, embora mais íngreme, era pouco arborizada, dificultando as emboscadas.

Desde seu início, a esta pequena localidade francesa, confluíam as três grandes vias jacobeias que partiam de Paris, Vézelay e Le Puy. Os peregrinos entravam pela porta de Saint-Jacques (São Tiago), descansavam na cidadezinha para, então, continuar rumo a Santiago de Compostela.

A igreja de Notre-Dame du Bout du Pont é considerado um dos prédios góticos mais importantes do país basco francês. Sua construção é atribuída ao rei de Navarra Sancho, o Forte, em 1212.

O Cárcel de los Bispos é assim chamado pois foi transformado em cárcere no final do século XVIII. Originalmente, nos séculos XIV e XV, era a moradia dos bispos da Diocese de Bayonne. Atualmente é um museu.

Além das ruinas do Castelo-fortaleza, vale apreciar os casarões da cidadezinha e a bela ponte medieval sobre o Rio Nive.

Até mesmo antes do raiar do dia, peregrinos, a sós ou em pequenos grupos, iniciam a descida da rua principal – Rue de la Citadelle – em direção ao Portal d’España, como se este fosse uma comporta a abrir-se diante das águas peregrinas que, a partir dali, engrossam o caudaloso Caminho-rio.

O acesso aos Pirineus se faz por subidas acentuadas, íngremes e longas. O esforço é compensado pela visão da paisagem que se estende ao longe, em todas as direções. O alto das montanhas é inóspito; há poucos sinais de vida, sejam casas, animais ou carros; as matas são escassas e a vegetação rasteira é insossa. Porém, logo abaixo, as árvores parecem arremeter ao topo e, então, desistir. Outras, com menor ímpeto, invejam estar nos vales.O peregrino usufrui da beleza e quietude das paisagens, passando por Honto e Orrison, ainda na França. Logo adiante, há uma imagem da Virgem de Biakorri e a Cruz de Thibault, um bom lugar para descansar e apreciar a paisagem.

A meio caminho entre a localidade espanhola de Collado de Bentartea e Roncesvalles, o peregrino alcança o ponto mais alto da Rota Imperial (alusiva a Carlos Magno), também conhecida por Rota de Napoleão: 1.429 metros de altitude. A partir dali, chega-se a Roncesvalles pela estrada à direita, que leva ao porto de Ibañeta, ou seguindo o antigo caminho da Colegiada, em meio a uma floresta de faias, que, se em nada facilita a descida acentuada, enche os olhos de um lusco-fusco esverdeado, em meio ao silêncio apenas quebrado pelo canto dos pássaros.

Se optar pela estrada a Ibañeta, o peregrino conhecerá a Cruz de Rolando (ou Roldão), morto em emboscada, em 778.

Roncesvalles (ou Orreaga) – Província de NAVARRA – 747,1 Km de Santiago

Roncesvalles foi sempre a via de acesso para a Península Ibérica. Por ali passaram os celtas, os bárbaros e os godos, que se estabeleceram às margens do rio Duero.

No retorno de sua incursão pela Espanha, em 778, Carlos Magno cruzou os Pirineus a caminho da Aquitânia, província da França. Entre Burguete e Roncesvalles, no desfiladeiro de Valcarlos, montanheses bascos atacaram a retaguarda dos exércitos carolíngios, composta de vinte mil soldados e comandada por Rolando, sobrinho do Imperador e um dos Doze Pares de França. Emboscada, a elite do exército imperial foi chacinada. Atendendo ao apelo de socorro das trompas, o Imperador retrocedeu, mas chegou tarde: seus homens estavam mortos e os atacantes sumidos. Menestréis passaram a contar e a cantar a história, embelezando-a até chegar-se ao que se conhece como a Canção de Rolando, dando ao personagem auras de herói.

Fundado no século IX, o monastério Real Colegiada de Santa María de Roncesvalles segue sendo um dos principais marcos do Caminho. Foi fundado pelo bispo de Pamplona Sancho Larrosa, com a colaboração do rei de Aragón Alfonso I, o Batalhador, e de alguns nobres. Desde sua fundação, os papas o tomaram sob sua proteção e foi regido por um cabido de cônegos regulares de Santo Agostinho. Seu prior segue ostentando o título medieval de Grande Abade de Colônia. Foi uma das mais ricas e desprendidas hospedarias da rota jacobeia, chegando a servir mais de 25 mil refeições aos que ali buscavam abrigo, em 1660.

A construção mais luxuosa de Roncesvalles é a Igreja da Real Colegiada de Santa Maria, um dos primeiros templos góticos da Espanha e o melhor exemplo do gótico em Navarra. Nela está uma preciosa imagem da Virgem, datada do século XIV. O templo foi construído pelo rei navarro Sancho VII, o Forte, no século XIII. Num dos vitrais o rei é retratado como vencedor da Batalla de las Navas de Tolosa, ocorrida em 1212. Três incêndios deixaram suas marcas na colegiada e só uma obra de reconstrução do claustro e da igreja, no século XVII, impediu que se deteriorasse totalmente. Nessa época, seu interior sofreu inclusões detalhes em estilo barroco.

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A capela de Santiago também é conhecida por Torre de San Agustín, Capilla Real e Sala Capitular. Tem planta quadrada e é coberta por uma abóbada de sustentação mais elaborada que a da igreja, apoiada em quatro mísulas decoradas com anjos. Dois capitéis representam o pecado original e a expulsão do Paraíso. Em seu interior está o corpo do rei Sancho VII. Seu exterior lembra uma fortaleza.

A Casa Priorial possui uma biblioteca de mais de 15 mil volumes. Escritos em diversos idiomas, entre os quais o hebreu, grego, latim e chinês, os livros tratam de questões teológicas, filosóficas e de história eclesiástica. Um dos mais preciosos é o códice La Pretiosa, do século XIV, exposto no museu da Colegiada. Soma-se a isso uma seção de Arquivo Histórico que cobre os nove séculos de existência da Colegiada.

Ainda como parte do conjunto, há um museu com pinturas, esculturas, relicários, ourivesaria, móveis, tapetes e moedas. As peças mais antigas remontam ao século XIV, algumas delas envolvidas em lendas, como a esmeralda que se diz ter sido tomada por Sancho VII, o Forte, do turbante do rei mouro na batalha de Navas de Tolosa.

Não distante dali, está a capela de Sancti Spiritu, também conhecida como Silo de Carlos Magno por supor-se que sua origem se deve ao enterro dos combatentes francos mortos pelos bascos em 778. Por tal razão, a capela é considerada um templo funerário. Ademais, ali eram oficiadas missas pelos peregrinos falecidos na região e, mesmo que enterrados em outro lugar, seus restos eram depositados no ossário, sob as lajes da capela.

A Igreja de Santiago dos Peregrinos, em estilo gótico, do século XII, é uma estrutura de planta retangular. Em seu interior há uma imagem do Apóstolo Santiago. A igreja foi utilizada como paróquia até o século XVII e restaurada no século XX.

À noite, todos, crentes e descrentes, são convidados a assistir ao ritual da bênção aos peregrinos no antigo templo gótico de belos vitrais e de clima propício à cerimônia. É uma experiência surpreendente ouvir o padre celebrante relembrar a história de São Tiago Maior, apóstolo de Jesus, que pregou sua fé em terras de Espanha, ainda no alvorecer do cristianismo e os cânticos dos monges retumbar entre as arcadas góticas da capela, enquanto toma consciência da intensa aventura interior que vai enfrentar. Ao final, os caminhantes se aproximam do altar-mor e são abençoados em vários idiomas, num ritual que remonta a muitos séculos atrás.

Ao clarear do dia começa a grande experiência. Roncesvalles é deixada para trás por uma trilha que segue paralela à rodovia. À esquerda, logo ao sair, está o primeiro cruzeiro, gótico, do século XIV. Trilhas cobertas por um teto de folhagem e prados bucólicos o vão acompanhar ao longo do dia.

Burguete (ou Auritz) – NAVARRA – 744,1 Km de Santiago

É a antiga cidade de Roncesvalles, hoje muito crescida ao largo da rodovia. Seus casarões navarros, autênticas fortalezas de tradição familiar, com suas janelas vermelhas e seus escudos nobiliárquicos, talhados em pedra, merecem um olhar mais atento.

Espinal (ou Aurizberri) – NAVARRA – 740,3 Km de Santiago

É um povoado típico dos Pirineus, com o qual destoa a modernidade de sua igreja. Espinal foi fundado pelo rei navarro Teobaldo II, em 1269.

Alto de Mezkiritz – NAVARRA – 739,4 Km de Santiago

De passagem pelo povoado, pode-se fazer uma visita à igreja paroquial de San Cristóbal, de origem medieval, ampliada no século XVI. O retábulo do altar-mor é de estilo neoclássico, de meados século XIX.
A ermida de São Miguel guarda uma imagem barroca do santo que lhe dá o nome.
Numa inscrição local se lê: “Aqui se reza uma Salve Rainha a Nossa Senhora de Roncesvalles”.

Biscarreta (ou Guerendiain) – NAVARRA – 735,6 Km de Santiago

Povoado de uma única rua, Biscarreta vive da criação de gado. Até o século XII houve na localidade uma hospedaria de peregrinos, considerada na idade média como final de etapa e que devia complementar os serviços de Roncesvalles.

Lintzoain – NAVARRA – 733,5 Km de Santiago

É um povoado com serviços precários para o peregrino, porém é interessante mostruário de casas do interior basco-navarro, com inscrições e escudos gravados nas portas. Segundo a lenda por ali passaram Rolando, sua mulher e seu filho.

A sua igreja, dedicada a São Saturnino, remonta ao século XIII e foi construída em estilo românico de uma só nave.

Alto de Erro – NAVARRA – 728,9 Km de Santiago

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O Caminho tem sofrido muitas transformações ao longo dos séculos, a maioria em prejuízo dos grandes bosques que o envolviam e o faziam inseguro na Idade Média. Por isso o Alto do Erro tem tanto de especial: nenhuma outra mata como esta abraçará o Caminho até a Galícia, nem em nenhum outro lugar terá o caminhante a oportunidade de submergir no mesmo manto arbóreo pelo qual caminharam seus predecessores por séculos. É difícil não se sentir transportado a mundos antigos neste retalho do passado, coberto ainda de carvalhos, abetos, azevinho e pinheiros centenários. A trilha passa em frente à antiga Venta del Puerto, que foi pousada de peregrinos, atestando efetivamente o traçado original do Caminho.

Zubiri – NAVARRA – 725,3 Km de Santiago

Zubiri está encravado no fundo do vale, totalmente impregnado pela presença de uma indústria de magnesita, que empobrece a paisagem e cobre as botas de pó. O povoado acolhe o peregrino pela ponte gótica de La Rabia, assim conhecida pelo fato de os moradores levarem seus animais para dar três voltas ao pilar central de sua arcada para curá-los do mal da raiva.

Vale um passeio por Zubiri, para apreciar seu casario, bem como visitar a igreja de San Esteban Protomartir, uma construção mais recente, pois a anterior foi destruída durante a guerra Carlista. Em 1040, o rei de Nájera-Pamplona Gracia Sanches III doou ao povoado um monastério beneditino, do qual já não existe nem ruínas.

Seguem-se os minúsculos povoados de Ilaratz e Ezkirotz, sem atrativos.

Larrasoaña (ou Larrasoina) – NAVARRA – 719,7 Km de Santiago

Este é um povoado importante na história do Caminho. Já no século XI contava com um hospital-albergue de peregrinos mantido por monges agostinhos. No século XII recebeu foro de zona franca: artesãos estrangeiros, geralmente franceses, atraídos pelas concessões e privilégios que os reis outorgavam aos novos vilarejos.

A igreja dedicada a São Nicolás de Bari é do século XIII e parte dela é em estilo gótico. Algumas de suas casas têm mais de cinco séculos e ainda guardam seu estilo original.

A partir de Larrosoaña, o rio Arga vai conduzir o caminhante rumo a Pamplona, numa sequência de bosques de faias, pinheiros, fetos e heras, além de povoados congelados no tempo e pequenos em demasia para conter o avanço dos peregrinos, mas que, em sua simplicidade, têm sempre algo a mostrar: Akerreta; Zuriain: igreja de San Millán; Irotz: ponte românica; Zabaldika: igreja de San Esteban, do Século XIII, e Arleta: ermida de Santa Marina e um magnífico casario navarro composto pelo palácio dos senhores locais.

Aos poucos, no convívio com outros peregrinos, percebe-se que o Caminho é uma espécie de Babel redimida, abençoada por Deus, onde caminhantes de todos os continentes, por diferentes que sejam seus idiomas e credos, acabam por se entender.

Trinidad de Arre (Villava ou Atarrabia) – NAVARRA – 709,1 Km de Santiago

Arre é um lugar estratégico, habitado desde a época romana. Ali, ao atravessar a ponte medieval de seis arcos sobre o rio Ultzama, retoma-se ao traçado original do Caminho e, logo adiante, se chega à basílica da Trindade. O templo original é de estilo românico de nave única, com torre e cabeceira com abside semicírculas, edificado no final do século XI.

O convento Santísima Trinidad de Arre e albergue de peregrinos provavelmente já estava em funcionamento no século XI. Nos dois séculos seguintes, o convento alcançou seu máximo esplendor como centro eclesiástico que se encarregava da arrecadação de tributos e em torno do qual se desenvolviam novos caminhos, indústrias, centros artesanais e vilas.

A igreja de San Román de Arre que se localiza sobre uma colina, é do século XIII, num estilo de transição entre o românico e o gótico, o que a torna interessante do ponto de vista arquitetônico.

Burlada – NAVARRA – 707,7 Km de Santiago

Em Burlada, os reis de Navarra tinham um palácio que estava conectado com a antiga igreja românica por uma passagem de uso privado. Ambas as construções hoje são ruinas. A ponte românica que cruza o rio Arga, construída sobre seis arcos e várias vezes reformada, dá uma medida da importância atribuída à localidade no passado.

São do início do século XX os vários palacetes da cidadezinha, sendo o mais significativo o palácio Uranga, no qual são realizadas exposições de arte. Tanto em seu interior quanto no exterior há cafeterias, onde o peregrino pode restaurar-se, enquanto aprecia a vista do parque que rodeia a propriedade.

Pamplona (ou Iruña) – NAVARRA – 704,5 Km de Santiago

Pamplona foi fundada em 74 a.C. pelo general romano Pompeu sobre um povoado basco já existente, chamado Iruña ou Bengoda. Mas, os vestígios de ocupação humana da zona remontam a 75 mil anos.

Após as invasões bárbaras no século VI, a cidade fez parte do Reino Visigótico de Toledo e, a partir do século VIII, do califado Al-Andalus.

Entre 778 e 816 a região foi disputada aos muçulmanos por Carlos Magno, que veio em socorro dos reis cristãos de Zaragoza Marsílio e Baligando e consolidar um estado-tampão para proteger seu próprio reino, denominado Marca Hispânica. Após derrotar em definitivo o rei mouro Aigolando e o príncipe basco Furro de Monjardim, Carlos Magno sentiu-se traído pelos reis aos quais veio socorrer, que não cumpriram sua parte no trato. Por vingança, o rei francês destruiu as muralhas de Naverría – atual Pamplona-, provocando a emboscada dos bascos à retaguarda de seu exército, em Roncesvalles.

Durante a primeira metade do século IX a nobreza local, aliada à família cristã convertida ao islamismo Banu Qasi, conseguiu consolidar um reino cristão vassalo dos muçulmanos, o Reino de Pamplona, que depois se tornaria o reino independente de Navarra, em 905, cujo auge ocorreu no século XI, quando Sancho III se tornou o monarca cristão mais poderoso da Península Ibérica, reinando sobre quase todos os territórios ibéricos cristãos e algumas partes do que é atualmente a França (a Baixa Navarra). Em 1164, o nome de Reino de Pamplona é definitivamente abandonado e passou a denominar-se Reino de Navarra.

A Pamplona atual foi formada a partir de três vilas rivais: a Naverría, ocupada por bascos; San Cernin e San Nicolás, ocupadas por francos. Cada uma chegou a ser uma pequena cidade autônoma, com suas muralhas, leis e armamentos. A corte navarra tentou uma aliança com a coroa de Aragón, com a qual tinha mais afinidade cultural que com os francos. Em resposta, o rei da França Felipe II atacou e dizimou a população da Naverría, em 1276. A vila ficou abandonada por cinquenta anos. A paz só foi definitivamente alcançada em 1423, quando a cidade foi unida sob uma mesma administração e as muralhas que separavam os burgos foram demolidas.

Em 1512 foi ocupada por tropas castelhanas do rei Fernando, o Católico, tendo o reino navarro sido oficialmente anexado à coroa espanhola em 1521.

Após a Revolução Francesa, Pamplona foi cercada por forças francesas em 1794, que não lograram entrar na cidade. Entre 1808 e 1813 a cidade foi ocupada por tropas de Napoleão Bonaparte. A cidade também se viu envolvida nas Guerras Carlistas que marcaram o século XIX, tendo sido palco do movimento popular e político em defesa dos fueros que ficou conhecido como a “Gamazada”.

Apesar da vitória dos republicanos nas eleições autárquicas que conduziram à Segunda República Espanhola, de 1931 a 1939, Pamplona foi controlada pelas forças franquistas desde o primeiro dia da guerra civil, o que não a livrou de assistir ao fuzilamento de centenas de republicanos. Durante o franquismo, a cidade transformou-se de uma cidade rural numa cidade industrial, tendo mais que triplicado a sua população.

Pamplona é a primeira grande cidade à qual o peregrino chega, tirando-o de sua introspecção, da simplicidade e do desapego desenvolvidos nos primeiros dias no Caminho.

O peregrino entra no centro histórico de Pamplona pelo imponente Portal de Francia, a parte melhor conservada das muralhas que cercavam a cidade, construída em meados século XVI. Vale diminuir o passo e admirar o conjunto.

O património histórico e as diversas festividades que ocorrem ao longo do ano contribuem para que a cidade atraia milhares de turistas espanhóis e estrangeiros. Os eventos mais concorridos são os Sanfermines – Festa de San Cernín, ou San Fermín -, que se realizam todos os anos em julho, com a corrida de touros pelas ruas do centro histórico. (Ernest Hemingway escreveu vários livros sobre os acontecimentos na Espanha de sua época, incluindo a Guerra Civil, as touradas – pelas quais era apaixonado – e a Corrida de Touros nas ruas de Pamplona).

Um passeio pela capital da Navarra, em especial pelo centro histórico, é essencial para absorver a cultura basca. Suas amplas praças, monumentos, prédios públicos e privados, igrejas e catedrais e museus são encantadores. O conjunto escultórico em bronze que representa a Corrida de Touros é magnífico.

A catedral de Pamplona é sede da Arquidiocese e tem características próprias, pois, além de igreja, claustro e sacristia, ainda conserva sua chancelaria, sala capitular e dormitório, já eliminadas das demais catedrais espanholas. Sua atual aparência se deve a reformas em diferentes épocas e estilos. (Originalmente era de estilo românico; nela trabalhou mestre Esteban, que também se fez presente na construção da catedral de Santiago). Destruída por um incêndio em 1390, a Catedral de Pamplona foi reinaugurada em 1525, já com marcado estilo gótico. Sua fachada é uma das obras mais puras e representativas do estilo neoclássico foi erguida no século XVIII. Seu claustro é considerado uma maravilha da arte gótica europeia.

A igreja de San Saturnino, também chamada de San Cernín, está localizada no centro histórico da cidade, construída sobre duas outras: uma primitiva e outra românica, do século XII. A sua aparência atual é de estilo gótico, do século XIII e fazia parte do burgo de San Cernín, habitado por francos. Até o século XVII, suas torres eram fortificadas com ameias, permitindo a defesa do burgo contra os burgos rivais: Naverría e San Nicolás. Seu pórtico é decorado com belos entalhes de Santiago Peregrino e de San Saturnino. Em seu interior há várias capelas, entre as quais a da Virgen del Camino, em estilo barroco. O repicar de seus sinos é que dá início às festividades de Sanfermines.

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Também a igreja de San Nicolás, do século XII, foi construída para ser uma fortaleza, ainda conserva uma das torres de vigilância e defesa. A construção primitiva, em estilo românico, foi destruída por um incêndio em 1222. Reformas através dos séculos variavam de estilo: do protogótico ao gótico, ao barroco e ao neomujedar – de influência árabe-, demonstrando o ecletismo arquitetônico medieval.

Uma das lendas locais refere-se a uma imagem vista nas águas do rio Arga. Por mais que os pamplonenses tentassem resgatá-la, ela dava mostras de não querer ser resgatada. Assim, quando alguém ou algum barco se aproximava, a imagem afundava. Ao anoitecer, cansado e decepcionado, o povo retornou às suas casas. Foi quando as monjas agostinianas do convento de San Pedro saíram de sua clausura e aproximaram-se do rio. Então, a imagem fugidia chegou à margem e deixou-se recolher. Levada ao convento operou seu primeiro milagre, curando a madre abadessa que estava gravemente doente. Desde então La Virgen del Río faz parte das relíquias do convento.

A construção da Ciudadela de Pamplona foi ordenada por Felipe II, em 1571, como principal elemento de defesa da cidade. Tem a forma de uma estrela de cinco pontas, das quais se controlavam os possíveis ângulos de ataque. É bom lembrar que os reis de Castela recém haviam conquistado o reino de Navarra e era necessário proteger as forças castelhanas dos ataques bascos, incluindo-se os dos próprios pamplonenses, razão pela qual duas das pontas da estrela estavam voltadas para a cidade. Cada ponta da estrela tinha um nome: San Antón, El Real, Santa María, Santiago e La Victoria. Foi concluída em 1645. Ainda impressiona ver o muito que restou da obra original.

À saída da cidade, o peregrino passa através dos jardins da Universidade de Navarra e cruza a ponte de Azella, sobre o rio Sadar. Neste ponto – diz a lenda – ocorreu a batalha em que Carlos Magno teria vencido os mouros, em 778.

Cizur Menor – NAVARRA – 699,9 Km de Santiago

Cizur Menor é hoje um bairro anexo a Pamplona. Sua igreja românica, do século XII, dedicada a San Miguel Arcángel, já fez parte de um conjunto que incluía um monastério e um hospital-albergue de peregrinos administrado pela Orden de San Juan de Jerusalén. Do mesmo século XII e igualmente de estilo românico é a igreja paroquial de San Emetério e San Caledonio.

Zuriquiegui – NAVARRA – 693,8 Km de Santiago

A igreja de San Andrés foi construída no século XIII, em estilo românico. O retábulo do altar-mor é do século XVII. Adiante está a fonte de La Teja ou da Renegação, onde, segundo a lenda, o demônio tentava os caminhantes oferecendo-lhes água em troca de que renegassem sua fé.

Alto del Perdón – NAVARRA – 691,3 Km de Santiago

Apesar de sua fama, o Alto del Perdón não é um desafio difícil. Ao longe já se ouve o atrito do vento nas pás dos geradores eólicos instalados no Alto, junto ao belo e sugestivo monumento ao peregrino – erguido pela Associação dos Amigos do Caminho de Navarra. Olhando para trás, pode-se fazer uma avaliação do quanto andou até o momento: os cumes pirenaicos, o alto de Erro, o vale do rio Arga. Admirar a paisagem, cujo horizonte – ao longe – é sempre limitado por outras montanhas, algumas ainda envoltas por névoa, faz bem aos olhos e ao espírito.

Ali já houve, antigamente, uma hospedaria de peregrinos e, até há pouco, uma ermida dedicada à Virgen del Perdón. A inscrição no monumento não pode ser mais explícita: “Onde se cruza o Caminho do Vento com o das Estrelas”.

Um dia – conta a lenda – um peregrino chegou ao topo do Alto del Perdón cansado, faminto e sedento. Ainda ofegante, pôs-se a procurar alguma fonte para, pelo menos, minorar a sede. Logo deu-se conta de que havia alguém a observá-lo. Dirigindo-se ao desconhecido falou de sua aflição. Em resposta, o desconhecido afirmou saber onde havia uma fonte, mas que a água tinha um preço: que desistisse de completar a peregrinação. Já sabendo que era o demônio em pessoa que o tentava, o peregrino manteve-se firme em seu propósito, dizendo que preferia morrer de fome e sede a interromper sua caminhada sagrada. O demônio o abandonou à própria sorte. O peregrino acomodou-se como pode à sombra de uma rocha, certo de que a morte seria sua próxima visita. Adormeceu. Em sonho apareceu-lhe um cavaleiro montado em um cavalo branco que escavou na rocha com uma concha, fazendo fluir água pura e cristalina. Ao acordar, viu que realmente a fonte existia e dela bebeu. Assim como reconheceu o demônio, reconheceu Santiago com que sonhou. Agradecido, ajoelhou-se e fez uma prece. E seguiu feliz rumo ao oeste, para concluir sua peregrinação. A fonte chama-se ‘Fuente Reniega’.

Muruzábal – NAVARRA – 685,1 Km de Santiago

Depois de passar por Uterga – povoado de robustos casarões de pedra, que já viu dias melhores -, chega-se a Muruzábal. O edifício mais representativo do povoado, o palácio do Marquês, edificado no século XVII, atualmente é uma vinícola.

A igreja de San Esteban, do século XVII, que mescla os estilos gótico e barroco, tem um magnífico pórtico de três arcadas. O retábulo do altar-mor é barroco e exibe várias imagens em madeira entalhadas dos séculos XIV e XVI.

Quem vem de Roncesvalles pode desviar-se para a rota do Caminho Aragonês para visitar a ermida de Santa Maria de Eunate, a três quilômetros de Muruzábal. Solitária em meio ao campo, atrativa por sua forma octogonal, Eunate foi erguida no século XII pelos templários.

Ao Sol – sendo ele a única testemunha viva da história e das lendas que envolvem a ermida – e isolada de quaisquer referências atuais, sua contemplação conduz a um mundo imaginário de cavaleiros medievais e suas façanhas de romance, luta e fé. Em um dia cinzento, quando a névoa envolve a planície navarra, Eunate é capaz de deixar gelado o ânimo mais tranquilo.

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A obra é puro simbolismo, encerrando um octógono – a ermida – dentro de outro – o muro. Nela destaca-se a abóbada de oito nervuras sem apoio central e seu grande espaço interior é cheio de simetrias. A imagem de Santa María de Eunate, que se vê sobre um pedestal atrás do altar, é uma réplica da imagem românica original, do século XIII, que foi roubada. (Muitos povoados e pequenas cidades ao longo do Caminho trancam suas igrejas com receio dos ladrões de imagens sacras, suprimindo ao peregrino a visão de obras antigas e de grande valor artístico, histórico e religioso. Guardar as chaves de igrejas e capelas é uma honra, da mesma forma que é mostra-las aos que respondem ao repicar dos sinos chamando fiéis para a oração ou missa. Ou que, persistentes, procuram pelos guardiães das chaves, suplicando-lhes uma visita).

Escavações realizadas no entorno da ermida, revelaram sepulcros com conchas junto aos corpos, dando conta de tratarem-se de peregrinos de épocas há muito passadas.

Óbanos – NAVARRA – 683,3 Km de Santiago

Localidade de importância histórica, como deduz o peregrino ao passar entre os palacetes e ruas que a conformam. Óbanos é conhecida como Villa de los Infanzones, já que nela se reuniu, em 1327, a pequena e média nobreza para frear os abusos da coroa e estabelecer um poder alternativo. Apoiavam Óbanos quatro outras comarcas: Miluce, Arteaga, Irache e La Ribera. O movimento foi dissolvido pelos reis Juana II e Felipe de Évreux.

A cada ano, no verão, “El Mistério de Óbanos” é dramatizado na cidade. Trata-se da história dos irmãos Felícia e Guillermo, duque de Aquitânia. Ainda que os personagens sejam reais, o que restou é lenda. A jovem e bela Felícia, aos 17 anos, decidiu peregrinar a Santiago de Compostela, mesmo contra a vontade de seus pais. Quando ela e seu séquito puseram-se a Caminho, Felícia tomou contato com milhares de peregrinos famintos, doentes e aleijados em busca da redenção de seus pecados. Penalizada, dedicou-se a alimentar os famintos e a cuidar dos doentes. Estas ações caridosas a fizeram tomar uma decisão extrema: dedicar-se ao Caminho e aos peregrinos menos afortunados e tornar-se eremita, estabelecendo-se próximo de Óbanos. A mando do pai, Guillermo fez o que pode para convencer a irmã a retornar à casa dos pais. Diante das insistentes negativas, num acesso de raiva incontrolável, ele a matou com um punhal. Caindo em si, Guillermo foi a Roma pedir perdão ao papa, que como penitência impôs-lhe a peregrinação a Santiago de Compostela. Na volta, assumiu a obra da irmã na mesma ermida que ela havia construído e da qual ainda sobram alguns restos, à saída de Óbanos. O corpo de Santa Felícia está em Labiano, próximo de Pamplona; seu irmão Guillermo jaz na Ermida de Santa María de Arnoteguí.

Puente la Reina (ou Gares) – NAVARRA – 681 Km de Santiago

Na localidade de Mendigorria, próxima de Puente la Reina, ainda há ruinas da cidade romana de Andelos. Porém, há indícios de que a região foi habitada desde épocas remotas.

No início do século XI, sob o patrocínio da rainha Munia – esposa de Sancho III, rei de Navarra -, foi construída a bela ponte de seis arcos para facilitar o trânsito de peregrinos sobre o rio Arga, vindos dos caminhos francês e aragonês, com destino a Santiago de Compostela.

A cidade teve origem no final do século XI, período de lutas entre os reinos de Pamplona e de Castilla e de ambos contra os invasores muçulmanos. Por ser necessário povoar todos os espaços, o rei de Astúrias Alfonso I, o Batalhador, convidou migrantes francos para estabelecerem-se às margens do rio Arga. O mesmo rei deixou de herança à Ordem dos Templários todos seus territórios. Por não aceitar este testamento, Navarra separou-se do reino de Astúrias e coroou rei Garcia Ramirez, o Restaurador. O rei basco doa aos Templários a localidade de Murugarren, até a extinção da Ordem, em 1312.

Puente la Reina é uma das localidades mais emblemáticas do Caminho, em Navarra, além de ser um perfeito exemplo de povoado nascido por e para a rota de Santiago. Nela, entre casarões de nobreza e pedras centenárias, é fácil sentir-se peregrino.

A igreja Del Crucifijo foi erguida pelos templários e conserva em seu interior um crucifixo em estilo gótico, do século XIII, uma das imagens mais icônicas do Caminho. A Cruz em Y é feita de uma árvore não trabalhada, sugerindo a redenção da árvore do fruto proibido do Paraíso. O corpo pendurado e retorcido de Jesus e seu braços desproporcionais falam do sofrimento da tortura imposta. Corre a história de que, no início do século XIV, peregrinos alemães, no retorno de Santiago de Compostela, doaram o crucifixo em agradecimento pelos cuidados que um dos seus recebeu quando adoeceu e teve de permanecer em Puente la Reina, enquanto seus amigos seguiam em peregrinação.

A igreja paroquial de Santiago, do século XII, contém em seu interior belos entalhes em madeira de Santiago, el Mayor, e da Virgen del Rosário. A imagem de San Bartolomé foi esculpida em pedra. O retábulo é de estilo barroco.

A igreja de San Pedro guarda o entalhe da Virgen del Txori, antigamente venerada um nicho da ponte românica. Conta-se que de tempos em tempos um txori (tipo de pássaro) limpava a face da Virgem com seu bico; sua chegada se convertia em motivo de feriado e festejos no povoado.

Rodeando o centro histórico, pode-se observar a muralha medieval guarnecida com torreões. Do palácio real de La Grana, onde reis da dinastia Évreux passavam temporadas, só restam ruinas.

A bela ponte medieval sobre o rio Arga, vaidosa e imperturbável, franqueou passagem à conturbada história espanhola. O rio, manso e claro, aqui reflete a ponte, ali, a vila, além, a mata, como um espelho líquido e inconstante, a buscar sempre a próxima imagem, ao longo de seu curso, tal qual o fazem as águas peregrinas a rolar no leito do Caminho-rio.

Mañeru – NAVARRA – 676,1 Km de Santiago

Mañeru pertenceu à Ordem Militar del Hospital de San Juan de Jerusalén- os monges hospitalários -, do século XIII até o ano de 1555, quando passou a ser uma vila autônoma.

Na Guerra da Independência contra os franceses, ocorreu ali a Batalla de Mañeru, em outubro de 1812, em que as tropas espanholas de Espoz y Mina infringiram severas baixas ao exército de ocupação.

Ainda conserva restos de uma igreja gótica e surpreende pelo bom estado das casas e ruas. A igreja paroquial de San Pedro possui um retábulo barroco do século XVIII.

Dizem que San Román foi torturado e decapitado em Mañeru e que sua cabeça ainda lá se encontra. Grande pregador, sofreu nas mãos dos soldados romanos e os fez sofrer também, pois não parava de falar. Para fazê-lo calar-se, cortaram-lhe as faces, sem sucesso. Cortaram-lhe, então, a língua e, enfim, a cabeça. Ainda assim, o santo juntou a cabeça, segurou-a debaixo de um braço e continuou sua pregação, por algum tempo.

Logo à saída da cidadezinha, inicia uma agradável trilha. As grandes extensões de vinhedos de ambos os lados da trilha, confirmam que se está chegando à terra dos vinhos.

O castro de Gasteluzar fica entre Mañeru e Cirauqui. Pesquisas arqueológicas indicam que o local era habitado e servia de ponto de defesa desde épocas muito remotas, provavelmente anteriores à Idade do Ferro. Os restos de suas muralhas, fossos e fundações de casas e depósitos demonstram o quão estratégico era dominar a elevação onde se situa a fortificação. Ademais, as terras no entorno são férteis, irrigadas pelo rio Salado.

Cirauqui (ou Zirauki) – NAVARRA – 673,5 Km de Santiago

Graças à sua privilegiada localização, Cirauqui – Ninho de Víboras, em euskera, idioma basco – foi escolhida como assentamento desde épocas remotas. Também os romanos marcaram sua presença, como atestam a estrada e a ponte por eles construídas e que levavam a Andelos.

Nos tempos medievais, foi um lugar bastante agitado. O surgimento da peregrinação a Santiago de Compostela fez com que fossem construídos um hospital e um albergue para dar guarida aos caminhantes e enfermos.

Encravado no alto de um morro, oferece ao caminhante um agradável conjunto medieval envolto em restos das muralhas.

A igreja de San Román – do século XIII -, expandida e remodelada nos séculos XVI e XVII -, situa-se no ponto mais alto da cidade. Sua fachada é em arco, com forte influência árabe. Seu interior abriga três altares barrocos, do século XVIII, e uma bela cruz renascentista de prata, do século XVI.

Sua igreja de Santa Catalina de Alejandría é do século XII, reformada no século XVI. Sua planta é uma cruz latina de nave única. Sua portada é feita de oito arquivoltas. O retábulo do altar-mor, dedicado à padroeira, é barroco, dos primeiros anos do século XVIII. O retábulo da Virgen del Pilar é rococó e o de San Blas é românico. No coro podem ser vistas várias esculturas dos séculos XVII e XVIII, além de um órgão neoclássico, do século XVIII.

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A ermida de Aniz, de estilo pré-gótico ou românico tardio, é do final do século XII.

À saída de Ciruaqui o peregrino terá outra surpresa: os únicos restos de uma calçada romana que serviu de embrião ao que mais tarde os reis navarros converteram em caminho medieval e rota jacobeia. As calçadas romanas tinham entre cinco e oito metros de largura e um perfil abaulado para drenar a água e quatro camadas de diferentes materiais para lhes dar durabilidade. Grande parte foi espoliada e aproveitada em outras obras.

Diz-se que, junto ao rio Salado, os navarros aguardavam que os peregrinos dessem de beber a seus cavalos e, quando estes morriam pela ingestão da água salobra, aproveitavam-se da carne.

Lorca – NAVARRA – 668,2 Km de Santiago

O nome Lorca provém do árabe e significa “a batalha”, pois ali houve um enfrentamento entre os exércitos cristãos e muçulmanos. Conhecida como a batalha de Valdejunquera, o exército do emir de Córdoba Abderramán III combateu e os exércitos aliados dos reis de León Ordoño II e do rei de Pamplona Sancho Garcés I, em 920, em que estes foram derrotados.

Villatuerta – NAVARRA – 663,3 Km de Santiago

Antes pequena e pacata, Villatuerta desenvolveu-se em função da peregrinação a Santiago de Compostela. Na Idade Média foi passagem importante, como atesta a ponte românica sobre o rio Iranzu e a grande quantidade de ermidas ali construídas. Villatuerta chegou a ser um feudo, abrigando alguns nobres entre a população de lide agrícola. De início, o Caminho entre Villatuerta a Irache passava por Zarapuz; com a fundação de Estella, em 1090, o Caminho foi desviado para a cidade de Ega. Em anos recentes, Villatuerta foi novamente revitalizada pelos peregrinos.

Estella (ou Lizarra) – NAVARRA – 659,2 Km de Santiago

O Caminho foi razão de ser de muitas localidades, que nasceram e cresceram para dar abrigo e alimento aos peregrinos. É o caso de Estella, que segue fiel às suas raízes, oferecendo ao caminhante todo tipo de serviços.

O primitivo burgo de Lizarra (significa estrela em basco), que ocupava parte da atual cidade de Estella, é citado pela primeira vez em 1024. Cruzados francos, que vieram em socorro dos reis cristãos de Castilla e Aragón, reconquistaram-na aos mouros, em 1087. Foi, contudo, o rei de Pamplona y Aragón Sancho Ramirez que fundou a atual Estella como vila de artesãos e comerciantes estrangeiros, francos em sua maioria, para atender à afluência cada vez maior de peregrinos de toda a Europa. A nova cidade foi construída na margem direita do rio Ega, abrigada por muralhas e um castelo fortificado.

Cem anos depois, o rei de Pamplona Sancho VI, o Sábio, ampliou a população basca no entorno da cidade. Sua localização privilegiada, atraiu comerciantes judeus e francos, vindos de Le Puy e Tours. Em breve espaço de tempo, o núcleo comercial transformou-se num conjunto urbano bem definido, ao qual se acrescentaram templos, armazéns e hospedarias. A cidade é citada no Codex Calixtinus, considerado o primeiro guia peregrino, como sendo “fértil de bom pão e excelente vinho, assim como carne e pescado” e situado junto a “um rio de água sadia e extraordinária”.

Diz a tradição que um bispo grego, de Patras, veio ao Caminho, em 1270, trazendo uma relíquia do apóstolo San Andrés, que queria doar à catedral de Santiago. Porém o bispo veio a falecer em Estella, sendo enterrado no claustro da igreja de San Pedro de la Rúa. Por esta razão San Adrés é copatrono da cidade, junto com a Virgen del Puy.

Após seu apogeu no século XIII, Estella entrou em decadência no início do século seguinte, em razão dos conflitos entre os reinos de Navarra e Castilla e das inundações que a assolaram. Em 1512, caiu em mãos das tropas do rei de Castilla Fernando, o Católico. Cinquenta anos depois suas fortificações foram derrubadas; o mesmo ocorreu com todas as fortalezas da Navarra subjugada.

A cidade também veio a sofrer com as seguidas Guerras Carlistas: o pretendente ao trono, Carlos VII estabeleceu-se com sua corte em Estela, em 1872, e com a guerra civil entre republicanos e franquistas, de 1936 a 1939.

A igreja de San Pedro de la Rúa foi construída nos séculos XII e XIII e sua fachada tem semelhanças com a das igrejas de San Román, de Cirauqui e de Santiago, de Puente la Reina. No século XV foram introduzidos traços góticos na parede norte e a cobertura das naves são dos séculos XVI e XVII. Entre as diversas artes sacras, destaca-se o retábulo da Virgen del Rosario, do século XVI; num de seus nichos há uma imagem da Virgen de la O, do século XIV. A capela de San Andrés tem estilo barroco e seu retábulo é em estilo rococó, do século XVIII.

A parte mais antiga da igreja de San Miguel data de 1187, época da invasão da Navarra pelos castelhanos. O que se vê é uma mistura de estilos românico tardio e gótico. Um retábulo de Santa Elena é uma de suas obras de arte mais expressivas. No exterior, encontra-se a capela de San Jorge.

Também a igreja do Santo Sepulcro é uma fusão de estilos românico e gótico. Iniciada em 1200, só foi concluída no século XVI. É uma das mais antigas igrejas paroquiais de Estella. Impressionam os detalhes da cena da crucificação de sua portada gótica e da galeria de santos que a ladeiam, mais acima.

O convento de Santo Domingo, hoje transformado em residência de idosos, foi construído pelo rei de Navarra Teobaldo II, no século XIII.

A igreja de Santa María Jus del Castillo é románica, do século XII, foi construída sobre uma sinagoga abandonada. Hoje é sede do Centro de Interpretación del Románico y del Camino de Santiago.

A atual basílica de Nuestra Señora del Puy substituiu uma anterior, de estilo barroco. Construída no início do século XX, sua planta e toda a decoração gira em torno de uma estrela de oito pontas e abriga uma imagem folheada em prata, do século XIV, da Virgen del Puy, patrona da cidade, juntamente com San Andrés. Conta uma lenda do século XI que pastores de Abárzuza foram atraídos por estrelas que assinalavam uma cova, onde encontraram uma imagem da Virgem com o Menino, muito parecida com a Notre Dame du Puy, de Le Puy-en-Velay, França. Por isso a denominaram Virgen de Le Puy. O rei navarro Sancho Ramirez mandou construir uma ermida em sua homenagem, séculos mais tarde substituída por uma igreja barroca, da qual se conserva o átrio de acesso ao templo.

O convento de Santa Clara, cuja fundação data do século XIII, foi reedificado em estilo barroco, no século XVI, abriga monjas clarissas, em clausura. É permitida a visitação à igreja do convento, que contém vários retábulos barrocos.

O maior destaque da igreja de San Juan Baptista é o retábulo renascentista do altar-mor.

Em Estella cultua-se La Virgen de Rocamador, que segura o menino Jesus em seu lado direito, ao contrário da maioria de outras representações da Madona que tem o Menino à esquerda. Conta uma lenda que um peregrino havia chegado à cidade e decidiu participar das festividades de San Felipe e Santiago. Durante os festejos um morador de Estella foi assassinado e o peregrino acusado, julgado e condenado pelos juízes com base em provas circunstanciais. Já no cadafalso, voltou a jurar sua inocência e tomou como testemunho a Virgen de Rocamador, afirmando que ela trocaria a posição do Menino da esquerda para a direita. O povo correu à igreja e comprovou o milagre. O peregrino pode, então, voltar ao Caminho.

O palácio de Los Reyes de Navarra é o único exemplo civil da arte românica em Estella. Construído na segunda metade do século XII, é também conhecido como palácio de Los Duques de Granada e Ega (Atualmente, abriga o museu do pintor Gustavo de Maeztu, um dos mais importantes da Escola Basca).

Ayegui – NAVARRA – 657,1 Km de Santiago

Ayegui é quase que um bairro de Estella, tal sua proximidade. À saída do povoado pode-se optar por ir diretamente a Azqueta ou seguir, à esquerda, até o monastério de Irache, voltando ao traçado original do Caminho.

Quanto mais o peregrino avança por vilas, cidades, trilhas e estradas, mais confiança ganha em seu senso de direção. Os sinais que indicam o Caminho tornam-se mais evidentes aos seus olhos já treinados e ele já não teme perder-se. Às vezes, o único indício de que está no caminho certo são as pegadas das botas dos peregrinos que ali passaram antes dele. Mas, mais importante, ele também ganha confiança em si, sabendo que no encontro com tudo e todos há o que aprender e ele aprende a abrir-se ao novo e ao inesperado.

Monastério de Irache – NAVARRA – 654,6 Km de Santiago

As origens do monastério de Irache – regido pela Ordem dos Beneditinos -remontam ao século VIII. Alguns edifícios são do século XI e têm detalhes medievais renascentistas e barroco. A grande torre é inspirada nas de San Lorenzo de El Escorial, de Madri e preside um conjunto de três claustros e uma igreja do século XII. Por achar-se em pleno Caminho de Santiago, construiu-se ali uma hospedaria para peregrinos, por ordem do rei de Nájera-Pamplona Garcia Sanches III, em 1054. Teve várias funções ao longo dos séculos: de início foi monastério e hospedaria de peregrinos; de 1569 a 1824 foi universidade (a primeira da Navarra); hospital de sangue nas Guerras Carlistas e, hoje, abriga serviços de hotelaria.

Chama a atenção a Fuente del Vino, situado junto ao muro das Bodegas Irache. As duas bicas da fonte servem água fresca e vinho. “Peregrino, si quieres llegar a Santiago con fuerza y vitalidade de este vino echa um trago y brinda por la felicidad”, diz uma inscrição, em referência à hospitalidade medieval, quando a nenhum peregrino se negava um pedaço de pão e uma taça de vinho.

A partir de Irache, pode-se seguir para Luquin ou para Villamayor de Monjardín.

A caminho de Villamayor de Monjardín, passa-se por Azqueta onde se pode descansar na praça do povoado e aproveitar para reabastecer-se de água na fonte.

Villamayor de Monjardín – NAVARRA – 650,2 Km de Santiago

A história da cidade está ligada ao castelo-fortaleza de San Esteban de Deyo, um baluarte defensivo contra a invasão muçulmana, tomado e retomado várias vezes. Em 778, foi tomada aos mouros pelo exército do rei franco Carlos Magno, futuro imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Voltou a cair em mãos árabes e, novamente, retomado pelo rei navarro Sanches Garcés I, em 908.

Tempos depois, após a retirada moura do norte espanhol, o castelo foi doado pelo rei Sancho II ao monastério de Irache. Contudo, em nova doação do rei Sancho, o Maior, passou a pertencer à catedral de Pamplona. De 1564 até 1835 foi propriedade do Duque de Alba e seus descendentes. Nas Guerras Carlistas – guerras intermitentes entre 1833 e 1876 – foi ocupada alternadamente por centralistas e carlistas. Pouco resta para ver-se, além dos muros de arenito. Uma lenda dá conta de que Sancho Garcés I ali foi enterrado.

Vale a pena admirar os casarões ornados de brasões de família e a belíssima igreja de San Andrés, templo de estilo românico com torre barroca. Guarda em seu interior uma cruz processional em prata, datada do século XII.

São quase treze quilômetros entre Villamayor de Monjardín e Los Arcos, por paragens isoladas, numa antecipação do que virá nas planícies castelhanas.

Luquin – NAVARRA – 645 Km de Santiago

Um caminho alternativo, à esquerda do monastério de Irache, leva a Luquin. O caminho é íngreme, em acentuado aclive por meio de belas matas. Já próximo do povoado, inicia-se uma descida igualmente acentuada.

Luquin existe como povoado desde 921. Sua igreja, dedicada a San Martín de Tours, é medieval, tendo sido renovada e ampliada no século XVII.

Conta uma lenda local que um humilde agricultor, lavrando seu campo, encontrou duas imagens: da Virgen de los Remédios e da Virgen del Milagro, que se tornaram alvo de devoção na região e a elas foram atribuídos inúmeros milagres. Como o povoado vizinho de Villamayor de Monjardín não tinha uma imagem da Virgem, o povo de Luquin cedeu uma das duas. No entanto, já no dia seguinte à doação, a imagem que permaneceu em Luquin apresentou gotas de sangue, que só pararam de gotejar quando a imagem cedida voltou ao povoado.

Los Arcos – NAVARRA – 637,9 Km de Santiago

Los Arcos, como atestam estudos arqueológicos, era habitada desde a Idade do Bronze. Era identificada pelos historiadores romanos como Curnonium, até ser destruída por Quinto Sertorio, no ano de 72 a.C, em guerra com os apoiadores do ditador Sila. Logo, porém, formou-se um novo núcleo urbano com as populações vizinhas remanescentes.

A atual Los Arcos surge no século XI a partir de um pequeno bairro que se transformou em vila, graças ao repovoamento ordenado pelo rei de Navarra Sancho Garcés IV, após vencer a batalha de Valdegón, em 1067. A batalha fez parte da Guerra dos Tres Sanchos: navarros e aragoneses de um lado e castelhanos de outro, sendo os castelhanos os vencidos.

Em 1274, o povoado volta a sofrer os efeitos da guerra ao ser atacado por castelhanos, que disputavam a região aos bascos. Em 1463, Los Arcos foi incorporado ao reino de Castilla, por sentença arbitral do rei da França Luis XI, sem, contudo, perder seus privilégios políticos e comerciais. Em 1521, numa tentativa de reconquista pelos reis bascos, Los Arcos é atacada e saqueada. No ano de 1763, a cidade volta a ser incorporada à Navarra.

Com a invasão das tropas de Napoleão, em 1809, o coronel francês Belloc se defrontou com guerrilheiros espanhóis nas cercanias de Los Arcos. Os guerrilheiros eram abastecidos, às escondidas, de comida e bebida por moradores da cidade, que não demoraram a unir-se na luta contra os franceses: trinta e dois dos mais de cem voluntários losarquenses morreram na Guerra da Independência. A conturbada história espanhola ainda envolveu Los Arcos nas Guerras Carlistas (1833 a 1876) e na guerra civil de 1936 a 1939.

Ainda assim, Los Arcos viveu momentos de esplendor nos séculos XV e XVI, quando sua condição de fronteira entre Navarra e Castela lhe permitiu gozar de foros dos dois reinos sem pagamento de impostos a nenhum deles.

A igreja de Santa María, do século XII, em estilo românico, ao qual foram acrescentados detalhes góticos, renascentistas, barrocos e neoclássicos, tem sua portada é lavrada em pedra como um retábulo. Seu interior é magnífico; mesmo a meia luz pode-se ver os detalhes decorativos de suas colunas, arcos e cúpula, além dos belos retábulos dos altares principal e laterais, em estilo barroco. Os afrescos que a decoram são pintados sobre madeira e prata, imitando o couro repuxado de Córdoba. Impressiona seu claustro gótico e os assentos do coro, em madeira talhada. A torre renascentista, do século XVI, levou 30 anos em obras e foi inaugurada pelo rei Felipe II.

O portal de Castilla, do século XVII, exibe o brasão de Felipe V de España. Ainda há vestígios da ocupação romana e do castelo medieval nos arredores da cidade.

Torres del Río – NAVARRA – 630,3 Km de Santiago

Torres del Río foi um assentamento agrícola romano, sem registros históricos. A vila também foi ocupada pelos muçulmanos, até ser retomada pelos espanhóis no período da Reconquista. Em 1109 foi ali construído um monastério subordinado ao monastério de Irache, sendo este e seu subordinados tomados sob a proteção do papa Alexandre III, em 1172. Entre 1463 e 1753, Torres del Río pertenceu ao reino de Castilla, por sentença arbitral do rei francês Luis XI, pondo fim à disputa entre os reis Enrique IV, de Castilla, e Juan II, de Aragón. Ainda assim, seguiu regendo-se pelas leis e pela economia navarra/aragonesa.

Durante a ocupação napoleônica, de 1807 a 1814, voluntários locais, de Sansol e de Los Arcos uniram-se ao grupo guerrilheiro sob o comando de Francisco Xavier Mina e deram combate aos franceses, que debandaram.

A igreja do Santo Sepulcro foi construída entre 1160 e 1170, pela Ordem dos Cavaleiros do Templo, com planta octogonal similar à igreja homônima de Jerusalém e à ermida de Nossa Senhora de Eunate. A cruz patriarcal, na entrada da igreja, é o símbolo da Ordem Militar do Santo Sepulcro. O interior surpreende por sua sóbria elegância. A cúpula, de evidente influência da arquitetura árabe, mostra nervuras em forma de estrelas de oito pontas, entre as quais se intercalam pequenas aberturas que iluminam estes detalhes. Seus capiteis são um mundo de aves, serpentes e centauros.

A caminhada até Viana é temida por seus contínuos sobe-e-desce, justificando o apelido de ‘rompepiernas’ (quebra-pernas). A trilha leva ao alto do Poyo, onde está a ermida da Virgen del Poyo, do século XVI, com traços góticos em seu interior.

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Ao atingir o maior topo do trecho, avista-se a cidade de Viana e, ao longe, Logroño. As cidades parecem próximas. Puro engano. Até Viana o peregrino ainda tem de caminhar por duas horas e meia e passar por Cornava, antigo assentamento agrícola romano.

Viana – NAVARRA – 619,4 Km de Santiago

Viana foi habitada desde o período Neolítico, como prova um cemitério com mais de cem corpos e datados entre 2650 a 2500 a. C. Também há registros das Idades do Bronze e do Ferro na região. Os achados arqueológicos avançam em direção a romanização da Espanha (Hispania, para os romanos), entre os quais cerâmicas, fivelas e moedas. Por ser uma vila aliada do general Pompeu, aliado do ditador Sila, foi atacada e destruída por Quinto Sertório, no século I a.C. Sua população dispersou-se e fundou vilas ao redor, sempre às margens do rio Ebro.

Conta uma lenda que o frei beneditino Gregorio Argáiz construiu um monastério sobre um antigo templo de Diana, ao oeste da atual cidade. Dedicado a um santo local – Pedro de Torreviento – nele teria morado e morrido a monja e santa Anatoquia. A província de La Rioja foi ocupada pelos muçulmanos até o ano de 923 e não há registro histórico do período de ocupação. São do século XI, documentos que voltam a referir-se ao monastério, bem como a outro que teria sido construído logo após a reconquista cristã.

A tensão entre os reinos de Castella e de Navarra iniciou, em 1195, as hostilidades entre os exércitos do rei basco Sancho VII, o Forte, e do rei castelhano Alfonso VIII. O rei basco construiu um castelo-fortaleza nas proximidades da atual Viana e dali partia para fustigar o reino vizinho. Outras fortalezas foram construídas na região pelos reis bascos. Em 1219, o rei Sancho VII, fundou Viana, agregando e abrigando a população de oito vilas do entorno dentro de suas muralhas, atraindo migrantes de outras regiões e países, incluindo uma importante comunidade judia.

Em 1275 as muralhas foram testadas com um forte ataque castelhano, que destruiu os campos cultivados e as habitações fora dos muros. A paz celebrada em 1336 voltou a ser rompida no ano de 1378, e Viana foi ocupada pelos castelhanos por oito anos.

O rei basco Carlos III, o Nobre, instituiu o título de Príncipe de Viana, em 1423, em benefício de seu neto Carlos. Em 1466, a cidade recebeu o título de “ Noble y Muy Leal” e permissão criar manter um mercado de seus produtos agrícolas e de artesanato.

Personagem histórico importante em Viana, César Bórgia foi bispo de Pamplona, cardeal, príncipe, guerreiro e libertino. Por ser o segundo filho do papa Alexandre VI, foi encaminhado à vida religiosa, que deixaria com o assassinato de seu irmão Giovani, iniciando sua vida militar como capitão das forças do papado. Foi nomeado duque de Valentinois, em 1498, pelo rei Luís XII de França como gesto de amizade com o papa.

Foi casado com Charlotte de Albret, e teve uma filha: Luisa Bórgia. Porém, como o pai, foi um devasso. Suspeita-se que ele tenha matado o irmão e sido amante da irmã, Lucrécia. Muitos de seus atos criminosos foram encobertos pelo poder exercido pelo pai. Ao final de 1502, César Bórgia assassinou vários de seus inimigos, após convida-los para virem a seu palácio de Senigallia.

Conviveu com figuras ilustres como Leonardo da Vinci e Nicolau Maquiavel. Leonardo trabalhou para César como engenheiro e arquiteto civil e militar. Maquiavel o teria usado como modelo para escrever “O Príncipe”.

Após a morte de Alexandre VI, César foi perseguido e preso alternadamente tanto pelo rei de Castilla Fernando II, o Católico, como pelo novo papa, Júlio II, ambos inimigos declarados da família Bórgia.

Em 1506, fugindo de Nápolis, onde foi decretada sua prisão, aderiu ao exército navarro como general do rei Juan de Labrit, seu cunhado. Embora sua experiência militar na Itália lhe desse vantagem na concepção de estratégias, mesmo conquistando a cidade de Viana, em 1509, não conseguiu tomar o castelo, em mãos castelhanas. Fez o cerco ao castelo, disposto a fazer seus ocupantes morrerem de fome e sede. Contudo, por um descuido de suas tropas, os sitiados foram providos de alimentos e água. Raivoso, César Bórgia saiu em perseguição aos que socorreram os sitiados e acabou por ser emboscado e morto pelos castelhanos. Seu corpo, por ordem do rei basco foi enterrado na capela principal da igreja de Santa María.

Em 1512, os castelhanos invadiram a Navarra e conquistaram Pamplona, capital basca. Também Viana rendeu-se. O rei de Castilla Carlos I fez apor seu brasão nas muralhas da cidade. Durante os séculos XVI e XVII famílias nobres de Burgos, Viscaya e Guipúzcoa estabeleceram-se em Viana. Como parte da desforra castelhana, os ossos de César Borgia foram transladados para a “Calle Mayor”, para ser pisoteada por pedestres e cavalos. A partir de então, a cidade passou a pertencer ao reino de Castilla, até 1523.

Viana foi atingida pela peste negra em 1599, fechando suas portas aos infectados, que eram tratados precariamente fora de suas muralhas. Em 1630, Viana recebeu o título de Ciudad (cidade) do rei navarro Felipe VI.

A cidade também esteve envolvida nas três Guerras Carlistas – de 1833 a 1872, em anos intermitentes -, chegando a ser quartel-general dos liberais isabelinos. Estas guerras destroçaram as igrejas, em especial de San Pedro e a população local sofreu saques dos exércitos rivais, que se alternavam na posse da cidade.

Durante a guerra civil espanhola – de 1936 a 1939- não houve combate ou execuções em Viana. No entanto, a pobreza gerada em consequência da guerra, levou à migração de muitos vianenses às grandes cidades e capitais como Bilbao, Zaragoza e Barcelona. A recuperação deu-se nos anos 1960, com a instalação de um polígono industrial na região.

Seu centro histórico é amuralhado e repleto de mansões palacianas que foram fronteiriças dos antigos reinos de Castela e Navarra, situação que condicionou sua história, assim como de outras localidades de fronteira entre os reinos.

Dos monumentos de Viana, destacam-se a Prefeitura barroca e a igreja de Santa María, altiva, luminosa, com portada renascentista inspirada no arco do triunfo romano.

À saída da cidade situa-se a ermida da Virgen de las Cuevas, patrona de Viana. Alguns historiadores sustentam que houve ali uma banca templária dedicada ao câmbio de moedas e à cobrança de tributos de fronteira.

Logroño – Província de LA RIOJA – 610 Km de Santiago

Logroño é a capital da província de La Rioja e centro econômico, cultural e de serviços. Banhada pelo rio Ebro, foi sempre um lugar de passagem e cruzamento de caminhos e de fronteiras disputadas por reinos rivais.

Logroño está associada à localidade romana de Vareia, que hoje faz parte da cidade. Plínio, o Velho, escritor e historiador romano, menciona Vareia como ponto de apoio a tropas de Augusto. Foi importante porto fluvial, que permitia o comércio da cidade com o restante da Hispania romana. (O porto continuou ativo até o século XI).

No ano de 575, o núcleo celta de Cantábria, foi devastado pelas tropas do rei godo Leovigildo, cujas ruinas ainda podem ser visitadas, próximas à cidade.

Seu primeiro registro histórico com o nome de Lucronio é do ano de 965, quando é doada ao Monastério de San Milán. O Caminho de Santiago de Compostela deu impulso à cidade. Em 1095 o rei de Castilla Alfonso VI concedeu-lhe foro de cidade, citada como Logronio, lembrando a palavra celta para vau, ou passagem fluvial.

Logroño e La Rioja devem muito ao rei de Catilla y León Alfonso VI. Foi ele quem, deslocada a fronteira de Castela até a margem do Ebro, encarregou Santo Domingo de la Calzada e seu companheiro de obras, São Juan de Ortega, da melhoria da ponte de pedra sobre o rio. No final do século XI, a obra converteu-se em catalizadora de uma cidade que, até então, não passava de um assentamento agrícola.

Em 1431 recebe o título de Ciudad (cidade) do rei castelhano Juan II, que a denomina “Muy Noble y Muy Leal”, em 1444.

Em 1521, Logroño resistiu dentro de suas muralhas a mais de trinta mil soldados franceses e bascos. Num ataque noturno de surpresa, os logronhenses espalharam pânico entre as tropas atacantes, disseminando o engodo que o duque de Nájera viera em seu auxílio com vinte mil soldados. Apavorados, os sitiantes retiraram-se às pressas. A partir de então, Logroño comemora o dia de San Barnabé – 11 de junho – como o dia da vitória. Em 1523, o rei da España Carlos I – também sagrado Imperador do Sacro Império Romano-Germânico com o nome de Carlos V – outorgou a Logroño o brasão que ostenta três flores de lis, por sua resistência frente ao cerco francês. Um arco comemorativo – Del Revellín – ainda pode ser visto na muralha da cidade, com o brasão real. A cada visita real, a cidade era regalada com novas obras e tinha seu comércio fortalecido.

Ainda em meados do século XVI, funda-se ali o primeiro colégio da Sociedade Jesuítica, que viria a tornar-se em foco difusor do humanismo e da cultura. Em contraponto, em 1570 foi criado em Logroño um tribunal da Inquisição, que deixou um registro de um ato de fé que resultou na morte em fogueira de seis ‘brujas’, em 1610.

Em 1833 converte-se em capital da Província de Logroño; em 1980, passa a incorporar a Província de La Rioja, muda de nome, mas continua capital.

Apesar de se terem incendiado a igreja de Santiago, uma escola religiosa e as oficinas do El Diário de La Rioja, Logroño e região não enfrentou grandes conflitos durante a guerra civil, de 1936 a 1939; contudo, alguns assassinatos e prisões infundirem medo à população.

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A catedral de Santa María de la Redonda foi construída sobre um templo medieval de 1196, de estilo românico. A atual é de estilo gótico, do século XV, com acréscimo das torres barrocas no século XVIII. Em 1453 obteve o título de colegiada (colégio de clérigos assessores de um bispo). Chama-se La Redonda por ser uma igreja octogonal, similar às de Eunate e Torres del Río. Entre 1516 e 1596 foi construído seu corpo central em estilo gótico, com oito pilares cilíndricos que suportam a abóbada, cujo conjunto lembra um palmeiral. Vale destacar a beleza dos assentos do coro, o retábulo barroco do altar principal, do século XVII, e o quadro da Crucificación, atribuído a Miguelêngelo Buonarroti.

A igreja de San Bartolomé foi edificada no século XIII, junto às muralhas da cidade. Sua portada é tida como a melhor mostra de escultura gótica em La Rioja.

A igreja de Santiago, o Real, é do século XVI. No século seguinte recebeu a fachada barroca na qual impera uma grande imagem de Santiago Matamoros.

A igreja Imperial de Santa María de Palácio foi doada pelo rei Alfonso VII para a instalação da Ordem do Santo Sepulcro no reino de Castilla, em 1130. Sua torre gótica pontiaguda é do século XIII.

O antigo convento de La Merced é hoje a sede do Parlamento de La Rioja, biblioteca e sala de exposições. O convento de Madre de Dios, de 1531, destruído na guerra civil e reconstruído em 1971, está em desuso. Do convento de Valbuena, do século XV, só restam ruinas.

A ermida de San Gregorio, do século XV, foi reconstruída em 1994, usando-se as pedras originais. No século XI, San Gregorio era abade do mosteiro de San Cosme y San Damián e bispo de Ostia, quando ocorreu na região uma praga de gafanhotos. O religioso convocou o povo para uma procissão de penitência ao longo do rio Ebro até Logroño, levando as relíquias dos santos mártires Emetério e Caledônio. Os gafanhotos iam-se apinhando em camadas e desaparecendo para sempre. San Gregorio estabeleceu-se em Logroño, onde dedicou-se a facilitar o trânsito de peregrinos, incentivando a Domingo García – futuro Santo Domingo de la Calzada – a fazer o mesmo. Já velho e doente, San Gregorio ordenou que, ao morrer, montassem seu corpo em uma mula e deixassem que ela escolhesse o lugar de sua sepultura. A mula não foi longe, atravessou o rio Ebro e dirigiu-se à capela de San Salvador de Panaba, no povoado de Sorlada. Na crença popular, o santo continua a realizar milagres: a água que passa através da relíquia de seu crânio é aspergida nos campos para que produzam mais e se mantenham livres de pragas.

Navarrete – LA RIOJA – 597,2 Km de Santiago

Embora tenha sido ocupada intermitente e esparsamente desde milênios, Navarrete surge como vila por determinação do rei de Castilla Alfonso VIII, em 1195, como parte do processo de consolidação do domínio castelhano. Por ser passagem para Santiago de Compostela, ali se construiu o albergue de San Juan de Acre, no final do século XII, cujas ruinas são vistas à beira do Caminho, pouco antes de Navarrete. Questões dinásticas, instabilidade política e econômica, lutas entre reis e nobres e a peste negra justificaram a construção de um castelo sobre a colina Tedeón e de muralhas no entorno da vila, que vieram a perder-se com a unificação do país e dos quais não existem vestígios.

Hoje famosa por suas peças de cerâmica e por suas vinícolas, a localidade é mais antiga que Logroño e foi cenário de muitas batalhas entre castelhanos e navarros. Ainda conserva seu traçado medieval e seus casarões de largos beirais.

A atual igreja de Santa María de la Asunción, de estilo renascentista, foi construída a partir de 1523. Seu altar-mor é em estilo barroco, datado do século XVII.

À saída de Navarrete o peregrino passa pela porta do cemitério, à qual se adicionou a rica portada da antiga hospedaria de San Juan de Acre, gótica de transição e decorada com motivos geométricos.

Nájera – LA RIOJA – 581 Km de Santiago

Nájera nasceu de uma localidade romana chamada Tritium Magalum, criada a dois quilômetros da cidade atual. No século X houve ali lutas entre mouros e cristãos. Foram os mouros que lhe deram o nome atual: Náxara e ao rio denominaram Naxarilla. Construíram um castelo fortificado no cerro da Motta e um alcázar (palácio real), dos quais nada resta.

Em 923 os reis de Pamplona Sancho Garcés I e de León, Ordoño II, conquistam Nájera e grande parte de La Rioja. Garcia Sanches, filho de Sancho assume o Reino de Nájera, para onde transfere a capital do reino de Pamplona, após a morte do pai e a destruição de Pamplona por Abderramán III, califa de Córdoba, em 924. Denominou-se rei de Nájera-Pamplona e instaurou a política de repovoamento dos territórios e fez vultuosas doações aos mosteiros da região, em especial a de San Milán de la Cogolla.

Seus descendentes, contudo, foram forçados a pagar tributo ao califado de Córdoba, para manterem-se no poder. Sancho III originou a legislação navarra, que serviu de base do direito nacional. Incentivou a peregrinação a Santiago de Compostela, criando albergues e hospitais e convertendo a cidade em ponto chave da rota jacobeia.

Com a morte de Sancho III, o reino foi dividido por seus três filhos. García Sánches III herdou os territórios de Nájera e Pamplona, além da hegemonia política sobre os reinos dos irmãos. Expandiu seus domínios sobre Calahorra e Zaragoza, fundou o monastério de Santa María la Real como sede episcopal e favoreceu os mosteiros do reino. Morreu na Batalha de Atapuerca, lutando contra o irmão Fernando I de Castilla, em 1054.

Lenda e história misturam-se na biografia de Garcia Sanches III. Num dia, ao caçar pelos arredores da Nájera, viu uma pomba de bom tamanho e lançou seu falcão à caça. As aves desapareceram na mata. Intrigado com a demora do falcão em retornar, seguiu na mesma direção das aves, chegando até a entrada de uma caverna, de onde saía uma intensa luminosidade. Ao entrar, deparou-se com um altar sobre o qual havia uma imagem da Virgem Maria. Aos pés do altar, chamou sua atenção uma jarra com açucenas frescas e as duas aves – a pomba e o falcão –, pacíficas e tranquilas. O rei, crendo que o prodígio só podia ser uma mensagem celestial, fez erguer ali a igreja de Nuestra Señora la Real e um mosteiro e a caverna tornou-se o panteão destinado ao sepultamento dos reis de Navarra. Em 1044, em honra à imagem que encontrou, Garcia Sanches III instituiu a Orden de Caballería de la Terraza, também conhecida como Orden de la Jarra e Orden de las Azucenas, a mais antiga ordem militar da Europa.

Garcia Sanches III foi sucedido por Sancho IV, que faz celebrar no monastério de Santa María la Real o Concílio de Nájera, substituindo o rito religioso visigodo pelo rito romano. Junto com seu primo Sanches Ramírez de Aragón fez frente às pretensões expansionistas do rei de Castilla Alfonso VI. Em 1076 é assassinado pelo próprio irmão Ramón, originando a divisão do reino. A parte navarra é anexada ao Reino de Aragón. Nájera deixa de ser reino e é incorporada ao reino de Castilla por Alfonso VI de León.

Ainda assim, a cidade não perde prestígio, mantendo um importante papel na vida política, econômica e de notáveis acontecimentos. A coroação de Fernando III de Castilla ocorreu em Nájera, em 1217.

Um século e meio após, em 1367, Nájera deu nome à batalha entre os exércitos de Pedro I, o Cruel, e Enrique de Trastámara. Apoiado por tropas inglesas, Pedro I derrotou Enrique e a cidade sofreu dura repressão.

O rei de Castilla Juan II deu a Nájera o título de Ciudad (cidade), em 1438. Em 1454, Enrique IV de Castilla lhe concedeu o título de “Muy Noble y Muy Leal”.

Em 1520, Nájera junta-se ao levante contra a política imperial de Carlos I e também Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, com o nome de Carlos V. O movimento fracassou.

Nas Guerras Napoleônicas – 1808 a 1814-, Nájera foi ocupada pelos franceses, que confiscaram bens e saquearam o monastério de Santa María la Real, além de cobrar pesados impostos aos najerenses.

Na parede de um velho moinho, o padre Eugenio Garibay Baños escreveu um dos mais belos poemas sobre o Caminho: “Peregrino, ¿quien te llama?. Um exercício de amor e sensibilidade que incitam à reflexão:

Peregrino ¿Quién te llama?

“Polvo, barro, sol y lluvia
es camino de Santiago.
Millares de peregrinos
y mas de un millar de años.

Peregrino ¿Quién te llama?
¿Que fuerza oculta te atrae?
Ni el campo de las estrellas
ni las grandes catedrales.

No es la bravura navarra,
ni el vino de los riojanos
ni los mariscos gallegos
ni los campos castellanos.

Peregrino ¿Quién te llama?
¿Que fuerza oculta te atrae?
Ni las gentes del Camino
ni las costumbres rurales.

No es la historia y la cultura,
ni el gallo de la Calzada
ni el palacio de Gaudí,
ni el castillo de Ponferrada.

Todo lo veo al pasar,
y es un gozo verlo todo,
mas la voz que a mi me llama
la siento mucho mas hondo.

La fuerza que a mi me empuja
la fuerza que a mi me atrae,
no sé explicarla ni yo
¡Solo El de arriba lo sabe!”

A ponte de oito arcos sobre o rio Najerilla, que une a cidade velha à nova, é uma ampliação da ponte original traçada por San Juan de Ortega, benfeitor do Caminho.

O monastério de Santa María la Real foi doado como sede episcopal pelo rei navarro García Sanches III, em 1045. Alfonso VI de Castilla doou-o à Orden del Cluny, com a qual permaneceu entre 1079 a 1513, ano em que passa à Congregación de San Benito de Valladolid. A igreja atual, em estilo gótico, iniciou a ser construída em 1435 e terminada em 1516. Seus retábulos barrocos são revestidos em ouro, com entalhes de grande arte, cercando as imagens de muitos santos. No subsolo está o Panteón Real, onde jazem os reis e rainhas do antigo Reino de Navarra. O monastério foi abandonado em 1835, após a Desamortización de Mendizábal, que consistiu na desapropriação de terras, bens e valores doados à Igreja por reis e nobres, para cobrir o déficit público do governo espanhol. Uma das ordens franciscanas ali instalou-se em 1895 e ali permanece na atualidade.

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O convento de Santa Elena abriga monjas clarissas em clausura e foi construído no século XVI.

Azofra – LA RIOJA – 575,3 Km de Santiago

Citada em documentos desde 1040, a pequena Azofra tem o título de vila desde 1168, ano em que ali foi construído seu primeiro albergue, além de um cemitério para acolher os corpos dos peregrinos que faleciam no Caminho. O albergue original foi ativo até o século XIX; hoje não há nem mais ruinas dele.

A igreja de Nuestra Señora de los Ángeles foi edificada nos séculos XVII e XVIII. Em seu altar principal há um retábulo de três corpos (tríptico), o primeiro tem imagens de San José, San Roque e de María Magdalena; o central, imagens de San Pedro, San Pablo e de Nuestra Señora de los Ángeles; o terceiro, de Santiago Peregrino, San Buenaventura e San Antonio de Padua.

Casas com escudos nobiliárquicos falam de um passado melhor. O antigo cruzeiro de pedra que se vê na vila foi trazido da catedral de Colônia, Alemanha. Nos bares da Plaza de España há sempre um agradável e intenso ambiente peregrino.

Ainda que não esteja situado no traçado do Caminho, muitos peregrinos se desviam para o sul, a partir de Azofra, para conhecer os Monastérios de San Milán de Cogolla, considerados Patrimônio da Humanidade pela Unesco, por razões históricas, artísticas, religiosas, linguísticas e literárias.

Encravado na montanha, o monastério de San Milán de Suso é o mais antigo, do final do século VI, construído junto ao túmulo do eremita Aemilianus, ou seja, San Milán, falecido em 574. Seu estilo mescla elementos de arquitetura visigótica, mozárabe e pré-românica. Em Suso permanece seu cenotáfio, monumento fúnebre, construído em alabastro, no século XII, em que o santo é retratado vestido de roupas sacerdotais visigodas, anteriores à romanização da igreja espanhola.

Suso é ligada a uma lenda cantada por menestréis na idade Média que teria algo de verdade histórica. Segundo a lenda, no século X, sete irmãos, filhos do nobre Gonzalo Gustioz, foram capturados por muçulmanos, transladados a Córdoba e lá decapitados. Seus corpos foram levados a Castilla e depositados em sepulcros de pedras no pórtico meridional do Monastério de San Milán de Suso, que é lembrado como ‘el panteón de los siete heroes castellanos’.

Conta outra lenda, que o rei navarro García Sánches III, após inaugurar o monastério de Santa María la Real de Nájera, quis enriquecê-lo transladando para lá os restos de San Milán, que é o padroeiro de Castilla. Os bois da carroça carregada com os despojos do santo, mal saíram do monastério, empacaram, negando-se a avançar para Nájera. O fato foi considerado um milagre, razão pela qual o rei navarro decidiu construir um novo monastério no exato local em que os bois pararam, para abrigar os restos mortais do santo, acondicionados em urna funerária decorada com painéis dourados e em relevo. Assim surgiu o monastério de San Milán de Yuso, construído em 1053. Sua portada barroca é esplêndida, bem como sua igreja, sacristia e claustro, que teve por primeiros inquilinos monges beneditinos. (Atualmente, o monastério abriga frades da Orden de Agustinos Recoletos, que continuam a tradição iniciada pelo eremita San Milán, no século VI).

Embora produzida em Suso, é Yuso que abriga uma magnífica coleção de códices, entre os quais o ‘Glosas Emilianenses’, manuscritos em latim, espanhol medieval e navarro-aragonês, creditando-se a eles as raízes do espanhol atual.

Adiante, de volta ao Caminho, está Cirueña.

Cirueña – LA RIOJA – 565,8 Km de Santiago

Cirueña é citada em documentos do ano de 960 como local em que foram aprisionados o conde castelhano Fernán González e sua família. Para libertá-los, o rei de Castilla cedeu ao rei de Navarra parte de La Rioja (Alta La Rioja). No ano de 972, o rei navarro Sancho Garcés II doou Cirueña ao monastério de San Andrés. Em 1052, o rei Garcia Sanches III, doou a vila ao monastério de Santa María la Real de Nájera. No século XIV, despovoou-se devido aos frequentes ataques que sofria. O repovoamento ocorreu em 1387, com incentivos tributários a seus moradores.

A igreja de San Milán data do século XV, com remodelações nos séculos XVIII e XIX. Em seu interior há um retábulo em estilo rococó, do século XVIII.

A igreja de San Andrés foi construída em 1965, sobre as bases de um templo românico do século X, do qual guarda alguma aparência.

Santo Domingo de la Calzada – LA RIOJA – 560 Km de Santiago

Santo Domingo de la Calzada – cidade que deve a este santo seu nome e existência – é um dos lugares mais míticos do Caminho.

Após o falecimento de seus pais, Domingo García tentou sua admissão em dois monastérios beneditinos, sem sucesso. Retirou-se como eremita, levando uma vida contemplativa até 1039, quando passou a colaborar com o bispo de Ostia, San Gregorio, que o ordenou sacerdote. Juntos, construíram uma ponte de madeira sobre o rio Oja, para facilitar o trânsito de peregrino que rumavam a Santiago de Compostela.

Em 1044, com a morte do bispo, Domingo dedica-se totalmente ao Caminho. Desmatou, aplainou e construiu uma estrada (calzada) de pedras, modificando o traçado anterior do Caminho entre Nájera e Rencidilla del Camino. Para melhorar as condições de peregrinação, substituiu a ponte de madeira sobre o rio Oja por uma de pedra e construiu um complexo integrado de hospedaria, igreja e fonte de água, criando uma vila – Masburguete – e atraindo moradores e colaboradores, entre os quais Juan de Ortega, discípulo e continuador de sua obra.

Em 1076, o rei de León e Castilla Alfonso VI, o Bravo, vendo que o desenvolvimento do Caminho de Santiago de Compostela contribuía com seu projeto de incorporar La Rioja a seu reino, tornou-se partidário de Domingo e deu-lhe o apoio necessário para seu empreendimento.

Domingo morrreu em 1109, quando a vila de Masburgurte já estava consolidada e em franca expansão. Mais tarde seria chamada de Santo Domingo de la Calzada, em homenagem a Domingo García. Concentrando sua população ao redor da igreja e da hospedaria, recebeu o título e os privilégios de povoado em 1141, sendo governada pelo abade do monastério local. A partir de 1250, sua administração passou a responder ao rei de Castilla.

O rei Alfonso VIII concedeu à vila privilégios que a levaram a grande crescimento demográfico e logo foram se formando bairros ao redor do núcleo central, chegando a ter 3.000 habitantes, no século XVI. Hoje, a cidade é um importante centro de serviços, comércio, indústria e turismo.

A construção da catedral de Santo Domingo de la Calzada foi iniciada em 1158, para abrigar os restos mortais do santo. Em linhas gerais, é um misto de arquitetura românica, renascentista e gótica. O magnifico campanário exibe um barroco exuberante, acrescentado em 1767. O pórtico é renascentista, imponente e assimétrico. Os assentos do coro são entalhados com figuras de santos. O sepulcro de Santo Domingo merece ser admirado por sua delicadeza e magnificência. O retábulo do altar-mor, todo revestido em ouro, mostra cenas bíblicas de grande impacto e beleza. A capela funerária de Santa Teresa contém vários sepulcros góticos e um belo retábulo pintado em madeira, do século XV. O claustro é uma obra gótica, com influência árabe, na qual estão expostas obras de arte religiosa.

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Em seu interior é conservado um galinheiro com duas galinhas, para que se recorde a mais popular lenda de milagre atribuído ao santo: uma família de peregrinos alemães de Colônia alojou-se numa pousada na cidade. A criada enamorou-se do filho dos hóspedes, que não correspondeu. Para vingar-se, a criada escondeu uma taça de prata no alforje do rapaz e o denunciou. Ele foi preso, condenado e enforcado. Os pais, aflitos, continuaram a peregrinação a Santiago. Ao regressarem, encontraram o filho ainda vivo, pendurado na forca: o santo o segurava pelos pés. Correram a contar ao corregedor da cidade, porém este não acreditou. “Seu filho está tão vivo como esta galinha que estou comendo”, contestou. No momento seguinte, a ave reviveu e cantou. Como diz o refrão: “Santo Domingo de la Calzada, donde cantó la gallina despues de asada”.

O convento de San Francisco foi edificado pelo arcebispo de Zaragoza Fray Bernardo de Fresneda, confessor dos reis Carlos V e Felipe II. Atualmente, uma parte dele é um estúdio de restauração de obras de arte. Uma segunda parte é um Parador de Turismo e uma terceira parte é um hospital. No pátio de uma das faces do convento existe um elaborado monumento ao peregrino, tendo ao fundo a cruz de Santiago e duas representações de Santo Domingo acolhendo peregrinos.

O monasterio de Nuestra Señora de la Anuciación abriga monjas cistercienses desde 1610. O retábulo do altar-mor de sua igreja é barroco, do século XVIII. A antiga casa do capelão é hoje um albergue.

A ermida de Nuestra Señora de la Plaza, patrona da cidade, foi a primeira morada das monjas cistercienses até que se concluísse o monastério.

Outras obras de interesse turístico-religiosos: ermida del Puente, ermida de la Virgen de las Abejas, e ermida de la Mesa del Santo, além de várias construções civis centenárias, de diferentes estilos e usos.

Grañon – LA RIOJA – 553,5 Km de Santiago

Grañon nasceu com a construção de um castelo-fortaleza sobre um cerro de nome Mirabelia, por ordem o rei de León Alfonso III, para defesa contra a invasão muçulmana na região, no ano de 885, e logo formou-se uma vila ao seu redor. Porém, Granionne, como era conhecida, esteve implicada também em guerras entre reis cristãos, como ocorreu entre os reis de Navarra Sancho IV e de Castilla Alfonso VIII, na segunda metade do século XI. Não há nem mesmo ruinas do castelo, que perdeu sua importância com o crescimento da vila, a expulsão dos mouros e a unificação do país.

Com a alteração do traçado do Caminho por Santo Domingo, o povoado desenvolveu-se a partir da agricultura, criação de gado e serviços aos peregrinos, incluindo hospitais, albergues e tavernas.

As terras férteis de Grañon foram disputadas por Santo Domingo de la Calzada. Sem chegar a um acordo, e para evitar que a disputa acabasse sendo resolvida pelas armas, estabeleceu-se que cada povoado indicaria um ‘campeón’ ou ‘valiente’ para uma luta corpo-a-corpo, sem armas. O vencedor daria a seu povoado o direito às terras disputadas. Santo Domingo elegeu um lutador especializado que treinava para a luta e era bem alimentado. O escolhido por Grañon era lavrador e não deixou de trabalhar a terra, sem preocupar-se muito com a luta, alimentando-se de feijões vermelhos.

Chegado o dia da disputa, o combatente de Santo Domingo apresentou-se nu e untado-se com azeite para impedir ser agarrado. Diante da dificuldade, Martín García o lavrador de Grañon, estudou o adversário até encontrar um ponto de apoio (o ânus), então, com suas mãos ásperas, levantou o adversário e o atirou ao solo, ganhando a disputa em favor de Grañon. Fato ou lenda, a verdade é que em agosto celebra-se o fato com uma romaria até a Cruz de los Valientes, localizada entre os dois municípios e suas populações comemoram juntas o litígio e homenageiam o vencedor. O que se come? Feijões vermelhos.

A igreja de San Juan Bautista é do século XV, sendo a sacristia e a torre posteriores. Em seu interior há uma pia batismal do século XII, único vestígio do monastério ali existente no passado. O imponente retábulo dourado do altar-mor é do século XVI, com imagens policromadas que parecem mover-se. Dignos de um olhar atento são os retábulos dos altares laterais e os assentos do coro, obra do século XVII.

As casas mais antigas do povoado são do século XVI e XVII e exibem as heráldicas das famílias que as habitaram. Em destaque as padarias, que oferecem as especialidades locais: bollos de Grañon (de manteiga), magdalenas (bolo inglês) e españolas (biscoitos).

A Ermita de los Judíos, à saída do povoado contém um cruzeiro, que antigamente servia como referência para guiar os caminhantes, e também um retábulo maneirista de 1540, representando a flagelação de Jesus. A ermida só é aberta uma vez ao ano, na sexta-feira santa.

Rendecilla del Camino – Província de BURGOS – 549,7 Km de Santiago

Já faz parte da província de Burgos, tem bons serviços ao peregrino, considerando seu tamanho, inclusive um escritório de informações turísticas. A igreja guarda uma joia histórica do século XII: uma grande pia batismal esculpida em pedra.

Castildelgado – BURGOS – 547,7 Km de Santiago

Um caminho rural leva a esta pequena localidade, pela qual passava o Caminho na Idade Média e que contou com um monastério dedicado a Santiago, subordinado ao de San Millán de la Cogolla.

Viloria de Rioja – BURGOS – 545,6 Km de Santiago

O nome original de Viloria de Rioja é citado em documentos de 1028 como Villa Oria. Seu filho mais ilustre foi Santo Domingo de la Calzada que nasceu neste povoado em 1019 e foi batizado na pia batismal que ainda se conserva na igreja local. Viloria é hoje apenas uma rua entre casarões de largos beirais e alguns poucos moradores que lutam para evitar o desaparecimento de tão emblemático lugar. O peregrino, ao transitar, contribui para sua permanência.

Belorado – BURGOS – 537,6 Km de Santiago

Após passar por Villamayor del Río – povoado conhecido por ‘El pueblo de las tres mentiras: ni es villa, ni es mayor, ni tiene río’ -, chega-se a Belorado.

É provável que a origem de Belorado tenha sido como um povoado celta e, mais tarde, romano. Na Idade Média já era uma vila, passagem natural do vale do rio Ebro para a Meseta, as grandes planícies que se seguem, o que lhe proporcionou um crescimento rápido e prolongado. No século XVI contava com um castelo defensivo, para proteger os territórios reconquistados. Foi o reduto que El Cid recebeu como dote ao casar-se com Jimena Díaz.

Em 1116, o rei navarro-aragonês Alfonso I, o Batalhador, concedeu o privilégio de organizar e manter uma feira, a mais antiga documentada do país. Mais para o final do século XII, Alfonso VIII de Castilla, o Nobre, permite que o conselho da vila use um selo próprio para legitimar seus documentos. A dependência da vontade real era crítica naqueles tempos. Favorecido por alguns, Belorado também foi alvo de vingança por parte de outros: por ter apoiado o rei castelhano Pedro I, o Cruel, a vila perdeu privilégios com a nova dinastia e ficou sujeita a altos impostos, em especial os judeus, que acabaram por abandonar Belorado, iniciando sua decadência. Durante a Idade Moderna (séculos XV a XVII) Belorado pertenceu aos Condetables de Castilla – representantes máximos do rei -, que se destacaram nas expedições à América, incluindo expedições científicas de estudo de flora e fauna. Belorado voltou a desenvolver-se.

A igreja de Santa María é do século XVI, com modificações externas feitas em séculos posteriores. Seu retábulo dourado, em estilo barroco, é do final do século XVII. São muito artísticos, também, a imagem de La Inmaculada, o quadro de Nuestra Señora de Belén e o retábulo de Santiago Matamoros.

A igreja de San Pedro é do século XVII. Seu retábulo é barroco, tendendo ao rococó. Impressiona a imagem do patrono – revestido de paramentos, tiara e segurando o báculo papal – no centro do belíssimo retábulo dourado, ornado de vistosas colunas e imagens de santos de devoção local: Juan Evangelista, San Andrés, Virgen Asumpta, San Matías e San Ciriaco. O órgão é em estilo rococó e os assentos do coro vieram do antigo convento de San Francisco. (Para conservar em bom estado suas duas principais igrejas, os moradores alternam o culto a cada seis meses numa delas).

A ermida de Nuestra Señora de Belén é o que resta do antigo hospital–albergue de peregrinos.

O Convento de San Francisco foi fundado em 1250. Ali hospedou-se San Bernardino de Siena quando peregrinou a Santiago de Compostela. Recentemente foi convertido em habitações familiares.

Do século XVI, o convento de Nuestra Señora de Bretonera acolhe monjas clarissas.

Tosantos – BURGOS – 532,8 Km de Santiago

Tosantos deriva de Todos los Santos. A ermida escavada em rocha que se vê na montanha ao fundo da vila é a de Nuestra Señora de la Peña, cuja imagem foi encontrada em 712. Acredita-se que tenha sido escondida durante a invasão dos mouros. Chama a atenção uma rara estátua de Santa Maria Magdalena, a pecadora perdoada por Jesus e que foi uma de suas mais fieis seguidoras, ainda cultuada nas pequenas vilas esquecidas pela Igreja.

O albergue local está instalado num casarão do século XVII. Nele se tenta reviver os rituais peregrinos do passado: jantar coletivo, orações e salmos lidos na capelinha improvisada e leitura de mensagens deixadas por outros peregrinos, escritas em seus próprios idiomas e lidos por pessoas de mesma nacionalidade.

Villambistia e Espinosa del Camino são pequenos povoados sem história ou expressão econômica.

Villafranca Montes de Oca – BURGOS – 525,7 Km de Santiago

Villafranca Montes de Oca foi fundada durante a ocupação romana com o nome de Auca e semidestruída durante a invasão muçulmana, no século VIII. Na Idade Média foi se desenvolvendo para sua localização atual, junto ao rio Oca. Chegou a ser sede episcopal, transferida para Gamonal (hoje parte de Burgos), em 1075. Acredita-se que o fundador da cidade de Burgos – Diego Porcelos – esteja enterrado na ermida de San Felices, da qual pouco resta.

San Juan de Ortega – BURGOS – 513,6 Km de Santiago

Juan de Velásquez, que passou à História como San Juan de Ortega, nasceu em Quintanaortuño, em 1080, em uma família de grandes posses. No retorno de uma peregrinação à Terra Santa, tornou-se o grande colaborador e continuador da obra de Santo Domingo de la Calzada, dedicada ao Caminho de Santiago de Compostela e aos peregrinos. Porém sua obra mais importante foi a construção de uma igreja dedicada a San Nicolás de Bari e de um pequeno monastério em Montes de Oca, localidade hoje denominada San Juan de Ortega.

Quando morreu, em 1163, foi sepultado na mesma igreja românica que ajudou a erguer e passou a ser invocado para curar a esterilidade feminina e para auspiciar um bom parto. Em 1477, a rainha Isabel I, – grávida do primeiro filho -, peregrinou ao lugar, atraída pelas propriedades milagrosas contra a esterilidade que se atribuíam ao santo. Agradecida pelos favores, mandou ampliar a igreja até completar o grupo de edifícios que hoje se vê: igreja monacal, capela de San Nicolás de Bari, claustro dos monges Jerônimos e o albergue. No interior da igreja está o mausoléu do santo, esculpido em delicado estilo isabelino. A abóbada gótica ostenta os escudos dos Reis Católicos, Isabel e Fernando. Sobre o capitel da Anunciação, a cada equinócio de primavera ou de outono, incide um raio de sol que ilumina o magnífico entalhe da Virgen María, como se ela se voltasse à luz e não ao arcanjo Gabriel. Os moradores chamam a isso ‘el milagro de la luz’.

A generosidade da rainha Isabel I virou lenda. Após rezar diante da tumba do santo, teria insistido para que fosse aberta, para que ela contemplar o corpo. Diante da insistência real, os monges teriam cedido e levantado a tampa da tumba. Imediatamente dali teria saído de dentro um enxame de abelhas brancas que revoaram pela cripta, até que, comprovado que o corpo estava íntegro, teriam retornado, antes que a tumba fosse lacrada novamente. A lenda ainda acrescenta que as abelhas são almas de não-nascidos aguardando que San Juan de Ortega interceda para que venham ao mundo.

Agés – BURGOS – 509,9 Km de Santiago

Povoado com interessantes exemplos de arquitetura tradicional. Como toda a região, também Agés foi favorecida pelos trabalhos de engenharia de San Juan de Ortega. Ele desbastou os montes, drenou e aterrou pântanos e traçou o caminho que leva a Atapuerca. À saída do povoado há uma ponte de um único arco sobre o rio Vena, cuja construção é atribuída ao santo engenheiro.

Atapuerca – BURGOS – 507,4 Km de Santiago

A região de Atapuerca – que une o vale do rio Ebro com o vale do rio Duero – atraiu e fixou populações, devido a suas terras férteis e a abundância de recursos hídricos, animais e vegetais. Os vestígios mais antigos dizem respeito ao Homo Antecessor, que surgiu há 780 mil anos.

Além do fato histórico mais relevante do povoado ter sido a ocorrência da Batalha de Atapuerca, em 1054, entre castelhanos e navarros – na qual morreu García Sánches III de Pamplona -, a pacata vila é conhecida internacionalmente pela riqueza de achados arqueológicos na região, com a descoberta da Galería del Sílex, em 1972, que continha restos de rituais funerários e coloridas pinturas rupestres, de traço surpreendentemente preciso e realista.

Os sítios arqueológicos da Sierra de Atapuerca são excepcionais pela abundância de fósseis encontrados, sua boa conservação e importância científica. As ferramentas encontradas, por exemplo, abarcam todas as etapas tecnológicas, desde a mais primitiva, talhada em pedra, às de bronze. Até uma espécie desconhecida de urso foi descoberta: o Ursus Dolinensis. Mas os achados mais importantes dizem respeito à evolução humana: o Homo Antecessor é o antepassado europeu mais antigo, a última espécie comum entre o Homo Neandertal, o Homo Sapiens e os pré-neandertal Homo Heidelbergensis.

Seguem-se Cardeñuela-Riopico e Orbaneja, povoados pequenos e sem expressão histórica ou econômica, e a moderna Castañares, cidade satélite de Burgos, sempre atrelada e ofuscada pela capital da província.

Burgos – BURGOS – 484,3 Km de Santiago

A palavra burgo provém do latim – burgus – e significa cidadela ou povoado fortificado. Os burgos surgiram na Baixa Idade Média, com a decadência do sistema feudal e o crescimento urbano provocado pelo processo de troca de produtos entre um burgo e outro.

Além dos achados de Atapuerca que provam assentamentos humanos na região desde a pré-história, ainda há vestígios da Calzada Romana Bordéus-Astorga ao norte de Burgos.

Burgos tem início a partir de uma fortificação erguida por Diego Rodrígues Porcelos, a mando do rei castelhano Alfonso III, em 884, para deter o avanço dos mouros que vinha fazendo incursões na região desde 860, saqueando e aterrorizando os povoados. A partir de então, Burgos teve sua importância estratégica aumentada sistematicamente. Já em 931 a vila foi escolhida como capital do Condado de Castilla. Com a criação do reino de Castilla, em 1035, tornou-se capital do reino em 1038, logo após a coroação de Fernando I, em León. Estes fatos, somados ao translado do bispado de Oca para Burgos, em 1075, deram-lhe o impulso necessário para converter-se durante séculos na cidade mais importante da Espanha.

Em 1080, o rei de León y Castilla Alfonso VI convocou um concílio geral de seus reinos em que foi abolido o rito litúrgico hispânico (ou visigótico) e substituído pelo romano. Uma das razões era obter as bênçãos papais e o reconhecimento do reino pelo papa e por outros reinos cristãos da Europa.

O mesmo Alfonso VI reconquistou Toledo aos mouros, em 1085, e para lá transferiu a capital do reino. Mesmo assim Burgos progrediu no período porque parte da administração real continuou na cidade. O geógrafo árabe Al-Idrisi descreve a cidade no século XII: “é uma grande cidade, dividida em bairros rodeados de muros (…) é forte e preparada para defesa. Há bazares, comércio e muita gente e riquezas. Está situada sobre uma grande rota de viajantes”. O século XVI foi o século de seu apogeu. De agrícola, torna-se comercial, explorando ao máximo o potencial de sua localização geográfica.

No século seguinte ocorreu um período de decadência ocasionado pela transferência da capital para Madrid e o centralismo dos monarcas absolutos, além dos desdobramentos do descobrimento da América e da Guerra de Flandres. (Nos séculos XVI e XVII, os Países Baixos, hoje Holanda, revoltaram-se com a ocupação espanhola e guerrearam por oitenta anos por sua independência, conseguida em 1648).

Numa tentativa de recuperar-se, foi criada uma Academia de Artes e Ofícios, em 1781 e uma faculdade de Medicina junto ao Hospital de La Concepción, ativa entre 1799 e 1817.

Durante a guerra civil (1936 a 1939), Burgos foi a sede da Junta de Defensa Nacional e do Primer Gobierno Nacional de España, durante o qual Francisco Franco assume oficialmente os cargos de Jefe de Estado y de Gobierno. Ao final da guerra, o centro de poder retorna a Madrid.

Seu filho mais ilustre é Rodrigo Días de Vivar, chamado de El Cid (Senhor) e de Campeador (Campeão), que foi um nobre guerreiro castelhano que viveu no século XI, época em que a Espanha estava dividida entre reinos rivais de cristãos e muçulmanos. Sua vida e feitos tornaram-se lenda, sobretudo devido à ‘Canción de Mio Cid’, datada de 1207. A imagem que emerge desse manuscrito é a do cavaleiro medieval idealizado: forte, valente, leal, justo e piedoso. Mas há outras fontes que lhe pintam um retrato bem menos favorável. Acolhido na corte do rei de León Fernando I, tornou-se amigo de Sancho, um dos infantes. Com a morte do rei, o reino foi divido entre seus cinco filhos. A Sancho coube Castela, inconformado, ele passou a lutar pela reunificação, com o auxílio de Rodrigo Días de Vivar, cujas proezas logo o fizeram receber o título de Campeão. Nestas guerras fratricidas, Sancho acabou por ser morto e Rodrigo, desterrado.

Em Valência, tornou-se amigo e protegido de Al-Cádir, o rei mouro local. Lutando por Al-Cádir conquistou o título de El Cid (Senhor). Lutando ora por reis mouros, ora por reis cristãos, Rodrigo juntou um grande exército e, ao saber do assassinato de Al-Cádir, atacou e tomou Valência, em 1094. Ao se tornar senhor de Valência, mostrou-se um governante justo e equilibrado. Outorgou à cidade um estatuto de justiça, implantou a religião cristã, mas, ao mesmo tempo, renovou a mesquita dos muçulmanos, cunhou moedas e rodeou-se de uma corte de estilo oriental, composta tanto por poetas árabes quanto cristãos. Defendendo com denodo sua cidade, Rodrigo governou Valência em nome do rei de Castilla y León Alfonso VII, mas seu poder era independente do rei. Apesar das lendas, sua morte se deu por razões naturais.

Burgos possui um grande número de igrejas, conventos e monastérios construídos na Idade Média e na Idade Moderna, em vista da importância da cidade naquelas épocas.

A catedral de Santa María La Mayor é seu exemplo mais representativo. Sua construção começou em 1221, sob o reinado de Fernando III, o Santo, e foi concluída em 1260, em estilo gótico francês. Os pináculos das torres, a capela Del Contestable e a torre do zimbório foram acrescentadas nos séculos XV e XVI, caracterizando seu perfil inconfundível, altivo e airoso, que ainda hoje impressiona por sua grandiosidade. A catedral fascina à primeira vista. Suas variadas torres, rosáceas e vitrais são adornados de um requintado rendilhado. Igualmente majestosa é a vista interna: sustentadas por imponentes colunas esculpidas, as altas cúpulas são rematadas por zimbórios que mais parecem graciosas rendas suspensas por invisíveis fios celestes. Suas esculturas de santos e anjos e seus magníficos altares e retábulos, recobertos de ouro, ilustram histórias sagradas, com grande arte e didática. Chamam a atenção por sua beleza os assentos do coro, a estatuária externa, a capela mortuária de Los Condestables Pedro Fernández de Velasco y Manrique de Lara y Mencía de Mendoza y Figueroa e a lápide que marca o túmulo de Rodrigo Díaz de Vivar, El Cid e de Doña Jimena Díaz, sua esposa.

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O crucifixo da catedral veio do convento dos agostinhos, já envolto em lenda. Consta que um comerciante da cidade, antes de uma viagem, prometeu aos monges de Santo Agostinho trazer-lhes uma relíquia em troca de suas orações por sua segurança e sucesso no empreendimento. Em sua viagem de retorno, o comerciante lembrou-se de sua promessa. Tomado de vergonha e ansiedade, fez uma oração, terminada a qual ouviu o vigia do navio gritar que havia um corpo flutuando no mar. Desceram um escaler e recolheram um crucifixo cuja perfeição artística era tanta que parecia ter vida. Até por sua aparição miraculosa, esta seria a relíquia ideal a ser doada pelo comerciante ao convento. Anos mais tarde, a rainha Isabel I, a Católica, visitou a catedral, para onde o crucifixo havia sido transferido. Fascinada, a rainha empenhou-se em levar como objeto de devoção um dos cravos da cruz. Tirado o cravo, o braço de Cristo caiu junto ao corpo. A rainha desmaiou.

O monastério de Santa María La Real de Las Huelgas, de monjas cistercienses, foi fundado em 1189 pelo rei de Castilla Alfonso VIII para receber filhas das famílias nobres. Boa parte da realeza e da nobreza castelhana da época ali está enterrada. Digno de nota é o Museo de Telas Medievales de Burgos, abrigado neste monastério, bem como o Pendón de las Navas de Tolosa, troféu arrebatado aos muçulmanos na Batalla de las Navas de Tolosa, em 1212.

A Cartuja de Santa María de Miraflores, em estilo gótico, é um conjunto monástico nos arredores da cidade. Foi fundado em 1441 pelo rei castelhano Juan II. Em 1453, foi acrescentada a sepultura do rei e sua esposa Isabel de Portugal, pais da rainha Isabel, a Católica, e do infante Alfonso, seu irmão.

A igreja de San Gil, em estilo gótico, foi construída sobre a ermida de San Bartolomé. Suas capelas laterais abrigam retábulos góticos dos séculos XV e XVI.

A igreja de San Esteban, gótica do século XIII, foi construída sobre um antigo templo romano e abriga o Museo del Retablo.

A igreja de San Nicolás de Bari foi erguida em 1408 e abriga um dos retábulos mais belos, detalhados e monumentais do Renascimento Castelhano, ilustrando cenas da vida do santo.

O convento de Santa Clara, de monjas clarissas, foi construído em estilo gótico, no século XIII.

A igreja de San Lesmes, patrono da cidade, é uma das mais antigas, do século XI. Foi erguida por encomenda do rei de Castilla Alfonso VI e abriga os restos mortais do santo. Foi ampliada no século XIV pelo rei castelhano Juan I.

Cidade de muitas igrejas, em Burgos podem ser visitadas as igrejas de Santa María la Real, de La Merced, de San Cosme y Damian, de Santa Águeda, de San Lorenzo (em estilo barroco), a ermida de San Amaro, o monastério de San Juan e o convento de Santa Dorotéa.

Entre as construções históricas civis, destacam-se o palácio de Castilfalé, do século XV, residência ocasional do rei Fernando VII e de Napoleão Bonaparte e o palácio de Los Condestabels de Castilla, também conhecido por Casa del Cordón, do século XV; foi nele que os reis Católicos – Fernando e Isabel – receberam Cristóbal Colón, após sua segunda viagem à Índia.

Da fortaleza erguida por Diego Rodríges Porcelos sobram apenas as fundações, pois foi explodido pelas tropas napoleônicas em 1813. Mesmo o que se vê de suas muralhas externas impressiona por seu vigor e imponência.

Na época do rei Alfonso X, o Sábio, século XII, Burgos era uma cidade amuralhada, protegida por 90 torres e doze portas em arco, alguns dos quais ainda existem: San Martín, San Esteban, San Juan e San Gil. Porém o arco mais belo é o Arco de Santa Maria, um dos monumentos mais emblemáticos da cidade e reconstruído em honra a Carlos I rei da España e Imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Com o crescimento da cidade a partir do século XIX, parte dos muros foram derrubados.

Também surpreendem as muitas esculturas em bronze espalhadas pela cidade, os muitos parques e passeios e o magnífico Museo de la Evolución Humana. Nele são conservados, inventariados e expostos os achados dos sítios arqueológicos de Atapuerca, constituindo-se numa referência internacional do processo evolutivo do homem em seus aspectos ecológicos, biológicos e culturais.

O Caminho passa ao largo do povoado de Villalbilla, que é pouco visitado, a menos que o peregrino queira pernoitar em seu pequeno e sóbrio albergue.

Tardajos – BURGOS – 475,2 Km de Santiago

A história de Tardajos remonta ao século VIII a. C. como um povoamento celta, dedicado à agricultura e à criação de gado, cujo núcleo original é El Castro, onde foram encontrados vestígios de ocupação, incluindo restos de sua estrutura defensiva que lhe dá nome.

O grego Cláudio Ptolomeo cita a localidade como acampamento romano em seu livro ‘Geografia’, fato confirmado em ‘Itinerário’, do romano Antônio Augusto Caracalla, redigido no século III, no qual compila as rotas do Império Romano. Por ali passava a Via Aquitânia – o Caminho de Mercadores – que ligava Bordéus a Astorga.

No ano de 882, durante o reinado de Alfonso III de Castilla, é reiniciado seu repovoamento como parte de uma linha defensiva com a fortaleza de Castrojeriz, sendo construído em Tardajos um castelo. Em 929 já existiam na vila duas igrejas, a de San Pelayo e de Santa Eulalia. Em 1117, o rei de Castilla Alfonso VII hospedou-se em Tardajos e concedeu-lhe direitos e privilégios, tais como autonomia para legislar sobre a vida da comunidade.

A igreja da Asunción de Nuestra Señora foi construída sobre a elevação onde se situava o castelo da cidade, do qual, provavelmente, fazia parte a torre da atual igreja. A construção é do século XIII e sua portada é do século XVIII.

Ainda há para ver-se as igrejas de La Magdalena e de Santa María.

A pantanosa etapa que ligava à localidade seguinte – Rabé de las Calzadas – deu origem ao dito: ‘De Rabé a Tardajos no le faltarán trabajos; de Tardajos a Rabé, ¡libéranos, Dómine!’.

Rabé de las Calzadas – BURGOS – 473,6 Km de Santiago

Nesta localidade de sólidos sobrados de pedra, uma agradável fonte circular e ruas sinuosas se uniam duas ‘calzadas romanas’, daí seu nome.

O palácio do conde de Villariezo, do século XVI, encontra-se bem à entrada do povoado.

A igreja de Santa Marina foi construída em 1877 no mesmo local onde havia outra dedicada à mesma santa.

Em 949, a vila já contava com três igrejas: de Santa María, San Martín e San Juan de Rabé. Conforme atestam documentos oficiais, também Rabé de las Calzadas teve seu castelo defensivo, construído à época da Reconquista. Do castelo e destas três igrejas nada mais resta.

Ali refugiou-se o bispo de Burgos Don Luis Osorio de Acuña, em 1475, por opor-se ao rei Fernando I, o Católico. De Rabé, o bispo hostilizou aos burgaleses fiéis ao rei, numa época em que também os religiosos de origem nobre comandavam exércitos.

Hornillos del Camino – BURGOS – 465,5 Km de Santiago

Hornillos del Camino, com uma única rua, é o primeiro povoado das extensas planícies de Castilla.

Sepulcros, cerâmicas e objetos de metal atestam que o local foi habitado por visigodos, povo de origem germânica que substituiu o domínio romano na Hispânica, de 418 a 711, no ano em que se iniciou a invasão muçulmana.

A primeira menção escrita é do século IX, citando Forniellos como parte da linha defensiva do reino de Castilla. Hornillos derivou de Forniellos, pequenos fornos em que se produziam telhas.

Na idade média existiram no lugar o albergue de Santo Espíritu, para peregrinos, e o leprosário de San Lázaro, fundados pelo rei castelhano Alfonso VII, em 1156, dos quais nada restou.

Arroyo San Bol – BURGOS – 459,8 Km de Santiago

Sobre a antiga aldeia de San Bol há pouca informação confiável, o que a torna um dos enigmas do Caminho. O que se dá como certo é que havia ali, em 1352 uma colônia de leprosos e o Convento dos Antoninos, que respondia ao convento de San Anton de Castrojeriz, que funcionou até o século XV.

Sobre seu desaparecimento, atribui-se a uma misteriosa doença ou como consequência da expulsão dos judeus, durante o reinado dos Reis Católicos, em 1503. Muito presentes na região, como delatam os topônimos Yudego e Castrillo Matajudíos, um grupo de judeus refugiou-se em San Bol durante anos, desobedecendo o decreto real, até que sentiram que suas vidas estavam ameaçadas e abandonaram o país.

No lugar há apenas ruínas a lembrar a aldeia de San Bol e um precário refúgio, diferente dos demais, sem nenhuma concessão ao conforto nem ao luxo, porém com todo o calor e acolhida necessários para ajudar o caminhante a suportar os descampados castelhanos.

Hontanas – BURGOS – 454,8 Km de Santiago

Hontanas é uma localidade pequena como o vale em que está encravada e que a abriga dos fortes ventos outonais. O nome se deve às numerosas fontes que ofereciam água ao caminhante. Conta com serviços suficientes para o descanso após uma larga etapa. Parte do hospital medieval de San Juan foi restaurado como albergue de peregrinos.

A igreja de La Inmaculada Concepción é de estilo neoclássico, embora originariamente tenha sido construída em linhas góticas, no século XIV, anexa ao palácio do bispo de Burgos, antigo proprietário da vila. Um belo retábulo barroco dourado, em forma de gruta apoiada sobre colunas artisticamente torneadas – como que protegendo a padroeira e os santos em seus respectivos nichos – contrasta com a simplicidade das paredes brancas e nuas do templo.

Próximo de Hontanas está a ermita de La Virgen de Espinosa. De acordo com uma lenda local a Virgem teria aparecido a um dos moradores locais. Já houve época em que se realizava uma romaria entre a vila e a ermida, quando se trocava a Virgen de Espinosa pela Virgen del Rosario.

A caminho de Castrojeriz, o peregrino passa por um lugar carregado de magia e esoterismo: o velho convento de San Antón. A ordem dos Antonianos foi fundada em 1095, durante o delfinado francês e se estendeu por toda a Europa, chegando a ter quase 400 hospitais-albergues, graças a seus conhecimentos de cura do ‘fuego de San Antón’, uma enfermidade gangrenosa parecida com a lepra, que assolou o continente nos séculos X e XI. As túnicas pretas com o tau grego que vestiam, a caridade que exerciam e seu culto à cosmogonia oriental e a tradição iniciática os fizeram famosos no Caminho. Do edifício gótico do século XIV só se salvaram algumas paredes da nave central, parte da abside e a fachada da igreja o gigantesco arco do alpendre que servia de abrigo aos caminhantes. À esquerda do arco pode-se ver os nichos onde os monges deixavam comida para os peregrinos que chegavam à noite e dormiam fora do edifício. Neste lugar agora silencioso, que outrora fervilhava de atividade, o peregrino pode sentir a presença de milhares de outros que o antecederam em busca de um sonho.

Castrojeriz – Província de PALENCIA – 445,1 Km de Santiago

Assim como outras vilas ao longo do Caminho, Castrojeriz já teve dias melhores, rica em história e glorias.

A vila atual está aos pés do cerro onde ainda podem ser vistas as imponentes ruinas do antigo castro, ou fortificação. Há indícios de que desde a pré-história havia ali construções defensivas, que protegiam a vila abaixo. Os romanos o ocuparam e acrescentaram uma torre de vigilância, dando ao local o nome de Castrum Sigerici. Após os romanos, os visigodos o ocuparam e ampliaram. Com a invasão muçulmana, houve nos arredores inúmeras batalhas entre mouros e cristãos. Em 865, a fortaleza é conquistada pelo exército de Muhammad I e retomada pelos cristãos em 882, sob o comando do conde Munio Nuñes. Tendo como base a fortaleza, o conde não apenas manteve a posição como auxiliou o rei de Castilla García I a rechaçar os mouros para lá do rio Duero.

A partir de então, ficou livre o caminho para Santiago de Compostela e a localidade converteu-se em uma florescente vila – com igrejas, conventos, hospitais, hospedarias e comércio vigoroso -, logo protegida por muralhas.

Em 974, o conde de Castilla García Fernandés outorgou a Catrojeriz direitos para legislar em questões locais e de comércio com outras localidades. Após o turbulento matrimônio entre o rei aragonês Alfonso I, o Batalhador e a rainha castelhana Urraca, em 1113, Castrojeriz fez parte do reino de Aragón. Em 1426, Diego Gómes de Sandoval y Rojas recebe o título de I Conde de Castrojeriz, das mãos do rei de Navarra Juan II, do qual foi aliado contra o reino de Castilla. Vencido na batalha de Olmedo, perde suas concessões. Seu neto, Diego Gómes de Sandoval, defendendo os reis de Castilla y León Fernando II e Isabel I, os Reis Católicos, em guerra contra o rei de Portugal Alfonso V e, posteriormente contra o reino de Granada, reconquista os privilégios da família e acrescenta o título de Marqués de Denia.

A igreja-fortaleza de San Juan pertenceu à Ordem dos Cavaleiros Templários e, mais tarde, aos Hermanos Hospitalarios de San Antonio. No alto do frontispício, a rosácea esconde uma simbologia mística, representando o Homem Cósmico. Seu claustro, do século XVI, contém um artefato mudéjar (de influência árabe) com alusões astrológicas. O retábulo do altar-mor, de estilo rococó, do século XVIII, foi doado ao convento de San Antón e trazido para Castrojeriz quando a Orden de San Antonio se uniu à Orden de Malta, em 1777.

A igreja de Santa María del Manzano iniciou a ser construída em 1214, pela rainha de Castilla Berenguela, filha de Alfonso VIII e mãe de Fernando II, o Santo. Sua portada principal é em estilo gótico, adornada com arquivoltas e esculturas da Virgen María e do arcanjo San Gabriel. A rosácea acima representa Jesus rodeado dos apóstolos e, em suas bordas, aparecem os quatro evangelistas. Seus retábulos mais antigos representam Cristo crucificado (século XVI) e Santiago Apóstolo (século XVII). O retábulo do altar-mor é do século XVIII, representando La Anunciación, La Visitación, El Nacimiento, La Presentación en el Templo e Niño Jesus entre los doctores. A imagem de Nuestra Señora del Manzano, feita em pedra policromada, é do século XVIII. A Virgem traz o Filho no colo, coroa na cabeça e um camafeu em que aparece gravada a letra T, de Tao, símbolo da Ordem dos Antonianos. Também no interior da igreja, está o sepulcro gótico da rainha Leonor de Castilla, assassinada em Castrojeriz, em 1359, a mando de seu sobrinho Pedro I, o Cruel. A igreja mantém um museu de objetos relacionados ao culto cristão como imagens, quadros, livros, cálices, entre outros.

Itero de la Vega – PALENCIA – 434,3 Km de Santiago

A meio caminho entre Castrojeriz e Itero de la Vega está o Alto de Mostelares, subida longa e exigente por estrada de terra e cascalho. De lá pode-se ver o caminho de onde se veio e o caminho a percorrer, ambos a perder de vista.

À entrada de Itero de la Vega está a ponte sobre o rio Pisuerga. O Codex Calixtinus, considerado o primeiro guia do Caminho, se refere a ela como ‘pons fiterie’, donde o nome Puente Fitero, local onde se encontra o que sobrou de um hospital-albergue do século XIII: a ermida de San Nicolás, que funciona como albergue no verão. O cenário agreste e intemporal parece sugerir que um monge de hábito puído ou um peregrino medieval com capa e chapelão possa surgir a qualquer momento.

Itero de la Vega foi criada no século IX, por determinação do rei de Astúrias Alfonso III, como parte da política de repovoamento da região, que incluía Sahagún, Carrión de los Condes, Frómista e Boadilla del Camino, todas vilas alinhadas de leste a oeste. Com a descoberta dos restos mortais de São Tiago Apóstolo, iniciou-se a peregrinação em direção à localidade que viria a ser Santiago de Compostela, o que deu impulso a todas as vilas na rota, assegurando também o território para os reis cristãos.

Em 950, Itero de la Vega, já havia sido privilegiada com foros de autonomia. Foi ali construída uma ponte de sete arcos por ordem do rei de León Alfonso VI. Em 1174, um hospital-albergue, foi entregue aos cuidados da Orden de San Juan. Naquele ano nascia a infanta Bereguela, filha do rei de Castilla Alfonso VIII e Leonor Plantagenet. A infanta foi criada em Itero de la Vega por duas enfermeiras, às quais o rei recompensou com uma propriedade na vila.

Em 1465, o rei de Castilla Enrique IV, o Impotente, entra em guerra contra seu meio irmão e principe de Astúrias Alfonso, o Inocente, que era apoiado pelos nobres que julgavam Enrique IV despreparado e anárquico. Com a morte de Alfonso, em 1468, teve fim o conflito e o rei Enrique IV concedeu privilégios a Itero de la Vega, que o apoiou com homens e dinheiro.

Em 1529, a vila comprou seu direito à soberania dos nobres aos quais pertencia, seguindo-se um período de grande desenvolvimento. No século XX, porém, com a migração dos jovens em busca de melhores oportunidades, viu sua população envelhecer e minguar.

A igreja de San Pedro foi construída no século XIII e ampliada nos séculos XVI e XVII. O retábulo do altar-mor é barroco, representando La Magdalena, San Pedro, San Antonio e o Calvário. Também barroco é o retábulo Del Evangelio, do século XVI, com imagens da Virgen del Rosario, Santiago Apóstol e Santo Domingo.

A ermida de Nuestra Señora de la Piedad é um edificio gótico do século XIII, muito modificado pelas reformas posteriores.

Em 1529, Itero de la Vega passou a ostentar o Rollo de la Justicia, símbolo de seu direito de soberania. Em estilo renascentista, a coluna quadrangular ainda se conserva em bom estado.

Boadilla del Camino – PALENCIA – 426,2 Km de Santiago

Boadilla del Camino entra para a história oficial em 950, após a retomada da região pelos cristãos e seu repovoamento. Seu auge ocorre nos séculos XV e XVI, depois de comprar seu direito à soberania. Seu filho mais ilustre foi Nicolás de Boadilla, um dos fundadores da Companhia de Jesus, a Ordem Jesuítica, e que se dedicou à Contrarreforma na Alemanha e na Itália.

O povoado chegou a contar, em 1345, com três igrejas e dois hospitais-albergues. Hoje, apenas uma das igrejas está aberta. A igreja de Santa María de la Asunción, do século XVI, foi construída sobre uma antiga igreja românica, do século XIII. Em seu interior estão o retábulo Ecce Homo e o Calvario del Cristo de San Miguel e o retábulo do altar-mor é dourado, menor e mais modesto que de outras igrejas e, nem por isso, menos belo.

O magnífico Rollo de la Justicia – coluna cilíndrica símbolo do poder jurídico da comarca e que servia para acorrentar e executar os condenados – é do século XV, em estilo gótico, é decorado com animais, motivos jacobeus e anjos. Poucos ‘rollos’ foram conservados, nenhum tão elaborado e ricamente decorado como este.

Deixa-se Boadilla del Camino por uma estrada que ladeia o Canal de Castilla. A obra foi iniciada no final do século XVIII por iniciativa do marquês de Ensenada para o transporte de mercadorias entre as capitais castelhanas e o porto de Santander, o que era feito em barcaças tracionadas por mulas. A obra ficou inconclusa, porém chegou a 207 quilômetros de canais e eclusas, como a que o peregrino atravessa para chegar a Frómista.

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Frómista – PALENCIA – 420,2 Km de Santiago

O nome da pequena cidade vem da época do domínio romano: Frumesta, devido à abundância de grãos produzidos na região.

Frómista recebeu em testamento da rainha Doña Mayor, em 1066, o monastério de San Martín, que, em 1118, passa à jurisdição da Orden de San Bento de Carrión de los Condes. Em 1436, funda-se o monastério de Nuestra Señora de la Misericordia, também de monges beneditinos.

Os judeus fizeram-se presentes em Frómista desde o repovoamento, no século XI, pois tinham fama de serem habilidosos, industriosos e ativos. Seu número aumentou durante o reinado de Alfonso X, o Sábio, no século XIII, ao fugirem das perseguições árabes, em al-Andalus (Andaluzia). Contudo, por determinação dos Reis Católicos, em 1492, os judeus foram expulsos de toda a Espanha unificada, trazendo uma queda demográfica e econômica significativa. Foram-se os artesãos, comerciantes e banqueiros. Esta foi uma das razões de sua decadência nos séculos seguinte.

Com a construção do Canal de Castilla, houve um aumento moderado da economia local, pois permitiu a irrigação dos campos e o fluxo comercial na região. Também auxiliou sua economia a linha férrea, inaugurada em 1865.

Uma lenda local conta que um cristão pediu dinheiro emprestado a um banqueiro judeu. Vencido o prazo, negou-se a pagar o empréstimo. O banqueiro queixou-se às autoridades e o devedor foi excomungado. Diante de tão extremado fato, o cristão devedor pagou a dívida, mas não comunicou a quitação à Igreja. Anos depois, enfermo, pediu a extrema-unção. O padre que o atendeu, ao tentar dar-lhe a hóstia sagrada, notou que ela grudara na patena e não queria soltar-se. Perguntou ao moribundo se deixara de confessar algum pecado, o que o fez lembrar-se da dívida paga. Esclarecido o fato, comungou outra hóstia e melhorou de saúde. A hóstia do “milagre” – aquela grudada na patena – foi exposta na igreja de San Martín, juntamente com a estola do padre confessor. Por isto, Frómista foi chamada de Villa del Milagro por muito tempo.

A igreja de San Martín de Tours, do século XI, é um dos principais protótipos do estilo românico da Europa. Contrastando com a simplicidade de seu interior, seu exterior é complexo, sólido, vigoroso e detalhado. Possui três naves, cada qual com sua abside, um zimbório octogonal e duas torres cilíndricas. É um dos ícones do Caminho.

A igreja de Santa María del Castillo é gótico-renascentista, hoje transformada em centro de história multimídia.

A igreja de San Pedro iniciou a ser construída no século XV, num misto de estilos gótico e renascentista. Chamam a atenção as esculturas de San Pedro e San Pablo. Junto à igreja, funciona o Museo Etnográfico.

A ermida Del Otero é gótica. Em seu interior está a imagem da Virgen del Otero sentada, com o Menino no colo, em estilo românico, do século XIII.

À saída de Frómista, o caminhante segue por uma trilha larga, plana e exclusiva, paralela à rodovia, que se estende a perder de vista. Se nas etapas anteriores o esforço era exigido pelo sobe-e-desce de montanhas, nas próximas será necessário vencer a monotonia das planícies sem fim.

Población de Campos – PALENCIA – 416,4 Km de Santiago

Desde meados do século XII, Población de Campos foi propriedade da Orden Hospitalaria y Militar de San Juan de Jerusalén, Rodas y Malta. O privilégio foi concedido pelo rei de León Alfonso VII, em 1140. Contudo, a história remete a vila a épocas pré-romanas. No apogeu do Caminho de Santiago, chegou a contar com dois albergues: o de Nuestra Señora de la Misericordia e o de San Miguel.

A igreja de Santa María Magdalena, padroeira da vila, é do século XVI, em estilo barroco. A capela de San Juan Bautista foi acrescentada no século seguinte, assim como sua torre. Outras reformas acrescentaram ou modificaram o projeto original. Destacam-se sua pia batismal, relíquia do século XIV, além de vários retábulos do século XVIII.

A ermida de Nuestra Señora del Socorro é pré-românica, do século XII. A ermida de San Miguel – simples e despretensiosa, um século mais recente – encontra-se junto à uma área de descanso, à saída do povoado.

Revenga de Campos – PALENCIA – 412,7 Km de Santiago

Revenga de Campos não tem registros históricos significativos.

Sua igreja de San Lorenzo foi construída no século XIII, seus retábulos laterais são posteriores. O retábulo do altar-mor é dourado, belíssimo, com nichos que acolhem os santos mais cultuados pelos fiéis. Destaca-se em seu acervo a imagem de La Virgen del Peregrino. As casas ostentam brasões de família; em sua maioria são do século XVI, época áurea da vila.

Pouco à frente está Villarmentero de Campos que não conta com mais de uma vintena de moradores.

Villalcázar de Sirga – PALENCIA – 406,7 Km de Santiago

A vila pertenceu à Orden del Templo, ou seja, aos Caballeros Templários, que ali construíram uma igreja-fortaleza dedicada a Santa María. A igreja, do século XII, é uma transição do estilo românico para o gótico; teve um acréscimo no século XIV, porém seu projeto era tão ambicioso que jamais foi completado. Sobre seu imponente pórtico em arcos góticos há dois frisos de grande riqueza escultórica. No friso superior está representado Cristo Pancrator, rodeado dos símbolos dos evangelistas – anjo, águia, touro e leão – e outros apóstolos. No friso inferior estão La Virgen con el Niño, Los Tres Reyes Magos, San José, e a cena de La Anunciación.

O retábulo do altar-mor, extremamente rebuscado e colorido, é do século XV. Junto a uma das colunas, há uma estátua da Virgen María que a retrata grávida, numa pose serena e receptiva. Na capela dedicada a Santiago estão três sarcófagos belamente decorados e iluminados por uma rosácea. Um deles guarda o corpo do infante Don Enrique, irmão do rei Alfonso X, o Sábio. Noutro está o corpo de Doña Inés Rodriguez Girón, segunda esposa do infante. No terceiro sarcófago está Don Juan de Pereira, cavaleiro da Orden de Santiago. Nesta mesma capela há uma imagem da Virgen de la Cantigas, do século XIII, à qual foram atribuídos muitos milagres e para a qual o rei Alfonso X dedicou várias de suas cantigas. Em uma dessas canções o rei poeta narra como peregrinos enfermos que voltavam de Santiago sem que o apóstolo os tivesse curado, tinham a saúde restaurada ao rezar diante da Virgen de Villalcázar de Sirga.

Próximo da igreja, um conjunto em bronze, representando uma mesa posta e um peregrino sentado, olhando para a imensa igreja, é um convite para fazer-lhe companhia.

Carrión de los Condes – PALENCIA – 401 Km de Santiago

Carrion de los Condes é bem mais antiga que a cidade atual, que de início chamava-se Lacóbriga, posteriormente romanizada. A via de Aquitania fazia ali uma parada importante, tanto para quem vinha de Bordéus como de Astorga. Mais tarde, durante o reinado de Sancho III de Castilla, o Caminho jacobeu – que vinha de Pamplona – uniu-se à via Aquitania em Carrión.

Em 783, Mauregato apossa-se do trono do reino de Astúrias com a ajuda de Abderraman I, emir de Córdoba, a quem promete um tributo periódico de cem donzelas por sua colaboração. Em 788, os condes Arias e Oveco rebelaram-se contra o rei Mauregato e o mataram como vingança por haver pago aos mouros tal tributo. O rei Bermudo I, seu sucessor, propôs ao emir substituir o tributo humano por dinheiro. Foi sucedido por Alfonso II, o Casto, que se recusa a pagar também o tributo em dinheiro e entra em guerra com os mouros, vencendo a batalha de Lutos, em 794, extinguindo a aliança e o tributo.

No ano de 1047, foram construídos o convento de San Zoilo, a ponte sobre o rio e um hospital-albergue de peregrinos, doados pelos condes Gómes Díaz e sua esposa Retesa Pelaés. Contudo, o nome da cidade não é em homenagem a eles. É o rio Carrión que dá nome à localidade. De los Condes, provém dos condes que compunham o Concejo de Carrión, que em 1462, assinaram um documento que favoreceu de modo inequívoco a cidade.

Nada menos de doze igrejas e outro tanto de hospitais-albergues esperavam os peregrinos desde o século XIV nesta importante localidade, descrito por Aymeric Picaud em seu ‘Codex Calixtinus’ como “ativa e industriosa cidade, rica em pão, em vinho e em carne”, que eram distribuídos gratuitamente aos caminhantes; caso fossem presbíteros, recebiam também ovos e dinheiro.

A igreja de Santa María del Camino – edificada no século XII e dedicada à La Virgen de las Victorias – recebe o visitante com um sóbrio pórtico românico no qual está figurado o Tributo das Cem Donzelas. No pórtico sul estão representados o Reyes Magos, Sansón e Carlomagno. Em seu interior encontra-se um entalhe de La Virgen del Camino ou Virgen de la Victória, do século XIII, e o Cristo del Amparo, obra gótica do século XIV. Numa das capelas há uma pintura da escola sevilhana, do século XVII, e vários sepulcros de religiosos.

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O peregrino passa ao lado da igreja românica de Santiago, do século XIII, com seu magnífico friso de fachada que representa Jesus Pantocrator (todo-poderoso), rodeado pelos quatro evangelistas em figuração simbólica: anjo: São Mateus, leão: São Marcos, touro: São Lucas e águia: São João. É uma das mais belas, complexas e representativas obras da escultura românica. Na portada da igreja estão representados vinte e dois artesãos, aos quais não faltava trabalho com o ir e vir de peregrinos e comerciantes, atestando que Carrión de los Condes foi uma das cidades mais importantes dos reinos cristãos.

O monastério de Santa Clara, é do século XIII, e pertence à Orden de las Clarisas. As primeiras monjas vieram do monastério de Santa María del Páramo em 1255, por sugestão do papa Alejandro IV à Doña Mencía Lópes de Haro, viúva do rei de Portugal Sancho II.

Há, ainda, as igrejas de Nuestra Señora de Belén, do século XVI, de San Andrés Apóstolo e de San Julián.

À saída da cidade, o monastério de San Zoilo, anteriormente dedicado a San Juan Bautista, que já existia em 948. Com o translado dos restos mortais de San Zoilo, de Córdoba para o monastério, mudou-se o santo padroeiro, em 1047. É nele que está o panteão familiar dos condes de Carrión. Em 1219, o rei de Castilla Fernando III, o Santo, casou-se ali com Beatriz de Suabia, neta de Isaac II Ángelo, imperador de Constantinopla. Seu claustro foi construído entre 1537 e 1604, ornamentado com imagens de profetas, patriarcas, heroínas, apóstolos e evangelistas, bem como reis, rainhas, papas e santos.

Conta-se que um peregrino cego de nascença, iniciou uma peregrinação a Santiago de Compostela, guiado por um peregrino amigo e caridoso, em busca de cura. Hospedando-se ambos no albergue do monastério de San Zoilo, o peregrino cego solicitou aos monges que o deixassem passar a noite em oração diante do altar do santo. Na manhã seguinte, o encontraram em atitude devota olhando a imagem de San Zoilo com a luz que lhe foi devolvida aos olhos. (O monastério, que antigamente dava pouso aos peregrinos, hoje foi transformado em hotel de luxo).

Calzadilla de la Cueza – PALENCIA – 383,8 Km de Santiago

O trajeto até Calzadilla de la Cueza é longo: dezessete quilômetros no meio do nada. Só campos numa planície de poucas árvores, sem serviços de qualquer espécie.

Antes, porém, o peregrino passa pelo que foi a abadia de Santa María de Benevívere, monastério fundado em 1169 e entregue aos Canónigos Regulares de San Agustín. Dela resta tão-somente uma estrutura octogonal e o campanário, à qual foi anexada uma construção maior, mais recente. Seu interior é simples e despido de estatuária e altares, porém, chamam a atenção os desenhos circulares do piso feito de pedras. Várias esculturas de reis e nobres ornamentam o pátio em frente à abadia. Em sua época de maior esplendor, contava com seis priorados e os papas Alexandre III e Lúcio III concederam-lhe privilégios. Em 1835, com a Desamotización de Mendizábal, os monges perderam a propriedade do monastério, que foi quase totalmente demolido, apesar dos esforços da Comisión Central de Monumentos para salvá-lo. A maioria de seus documentos são conservados no Archivo Histórico Nacional. Graças aos desenhos de Jean-Charles Danjoy, feitos em 1841, tem-se imagens do interior do monastério e ideia de sua magnificência.

Após a longa caminhada, Calzadilla de la Cueza surge de surpresa, pois está protegida por uma depressão do terreno. O povoado, construído pelos romanos ao longo da via Aquitânia, tem uma única rua, por onde passa o Caminho.

Em sua igreja, dedicada a San Martín, encontra-se um retábulo em madeira dourada, do século XVI, que nos conta algo sobre a riqueza do hospital-albergue e abadia de las Tiendas, cujas ruínas podem ser vistas mais adiante, a caminho para Lédigos. O hospital-albergue de las Tiendas, foi fundado em 1182 por Bernardo Martín, por concessão do rei de Castilla Alfonso VIII e doado posteriormente à Orden de Santiago, que o manteve em funcionamento até o século XIX, quando foi considerado improdutivo e levado a leilão público pela Desamotización de Mendizábal. (As terras e bens considerados não produtivos estavam quase sempre em poder de ordens religiosas ou de nobres, os habituais beneficiários de doações e testamentos. A finalidade dessa desapropriação foi acrescentar esses bens à riqueza nacional e criar uma classe média de lavradores proprietários. Além disso, o erário obtinha rendas extraordinárias com as quais visava amortizar os títulos da dívida pública).

Ao sair de Calzadilla, o peregrino terá feito metade de sua caminhada a Santiago de Compostela.

Lédigos – PALENCIA – 377,6 Km de Santiago

Lédigos é um povoado de construções em adobe – barro prensado com fibras vegetais – e sua vinculação com o Caminho é motivo de orgulho para seus moradores.

A igreja local, dedicada a Santiago, é a única no Caminho a representar em imagens suas três faces: de apóstolo, de peregrino e de guerreiro. Seus retábulos são do século XVII, da mesma época da construção do templo. Sua torre de tijolos substitui a original, que ruiu.

Havia no povoado um hospital-albergue – o de San Lázaro -, demolido em 1752. Com seus materiais foi construída a ermida de Nuestra Señora de Vallejera.

Terradillos de Templários – PALENCIA – 374,3 Km de Santiago

Como seu nome indica, foi possessão da Orden de los Caballeros del Templo. O Caminho foi desviado para passar por Terradillos de Templários em função do desaparecimento de duas outras localidades próximas que faziam parte do traçado original.

San Nicolás del Real Camino – PALENCIA – 369,1 Km de Santiago

Tanto a localidade de Moratinos quanto a de San Nicolás del Real Camino já faziam parte do Caminho na Idade Média. O documento mais antigo mencionando Moratinos é do ano de 955.

San Nicolás del Real Camino vinculou-se ainda mais à peregrinação após a construção de um hospital de mesmo nome, em 1183, que dava assistência a leprosos. Nada restou dele.

Sahagún – Província de LEÓN – 362,1 Km de Santiago

Sahagún situa-se entre dois rios: Cea e Valderaduey. No período romano, havia ali uma vila – Camata – que servia de parador para pernoite e troca de montarias, pois fazia parte da estrada que ligava Legio, hoje León, a outras estradas que levavam a Roma. A atual cidade nasceu em torno de um santuário dedicado aos mártires Facundo e Primitivo, romanos convertidos ao cristianismo e mortos por sua fé.

Com a concessão de foro de vila pelo rei de León Alfonso VI, disposto a consolidar o Caminho de Santiago de Compostela, houve grande incremento no comércio e influência de Sahagún na região. No entanto, para escapar da perseguição de seu irmão, o rei de Castilla Sancho II, Alfonso VI recolheu-se no monastério de Sahagún e vestiu hábito beneditino, por algum tempo. Fugiu e refugiou-se no califado de Toledo, cujo rei mouro era seu vassalo. Com a morte do irmão, voltou a reinar em León.

A vila progrediu durante a Idade Média, atraindo artesãos de todas as profissões e de vários países. No ano de 1347, o papa Clemente VI, concedeu ao monastério de Sahagún o direito de ter sua própria universidade, o que aumentou sua influência sobre mais de uma centena de monastérios, conventos e igrejas. Na universidade ministravam-se cursos de Teologia, Direito Canônico e Artes Liberais. Em 1569, a Orden de San Benito transferiu a universidade para o monastério de Irache.

Ao longo dos séculos seguintes, Sahagún foi decaindo, piorando sua situação com a Desamortización de Mendizábal, no século XIX. Em 1808, ocorreu a Batalla de Sahagún, entre tropas inglesas, a serviço da Espanha, e francesas, que foram derrotadas.

Construída em tijolos no século XII, a igreja de San Lorenzo tem estilo românico, com influências gótica e árabe. Sua torre de quatro lances é do século XIV.

A igreja de San Tirso também é do século XII e de estilo românico, de aparência muito parecida com a de San Lorenzo.

O santuário de La Peregrina foi fundado em 1257 como convento franciscano, em estilo românico, totalmente em tijolos. Foi abandonado em 1835, com a Desamortización de Meduzábal. Atualmente é o Centro de Documentación del Camino de Santiago.

Sobre o santuário de Facundo e Primitivo foi construída uma igreja pelo rei de Castilla Alfonso III, o Magno, no início século X. Oitenta anos depois, em 988, foi destruída pelo exército muçulmano de Almanzor e novamente reconstruída, como monastério. Em 1080, o monastério foi entregue à Orden de Cluny – cuja vinda trouxe a mudança do rito religioso visigótico pelo romano -, passando a ser chamado de monasterio Real de San Benito. No século XV, o monastério entrou em decadência. Restam a capela de San Mancio, a Torre del Reloj e o Arco de San Benito, construído em 1662 para substituir a portada românica anterior que ruíra. O monastério abrigava o panteão de Alfonso VI e suas esposas, cujos sarcófagos foram transferidos para o Museo Arqueológico Nacional.

Outros monumentos religiosos de interesse são a igreja de La Santísima Trinidad, a igreja e monastério de Santa Cruz, a ermida de San Juan de Sahagún, de estilo neo-classico, e a ermida de La Virgen del Puente, situada antes de se chegar à cidade, em pleno Caminho.

À saída da cidade se faz pela ponte sobre o rio Cea, construída pelo rei de Castilla Alfonso VI, em 1085. Próximo dali, ocorreu uma das batalhas entre os exércitos do rei mouro Aigolando e de Carlos Magno, na qual morreram 40 mil soldados. Diz uma lenda que as lanças cristãs floresceram ao serem cravadas ao solo.

Bercianos del Real Camino – LEÓN – 352 Km de Santiago

O nome de Bercianos del Real Camino indica a procedência dos primeiros povoadores: el Bierzo. A vila já é citada no ano de 950 em documento de doação da localidade ao monastério de Sahagún. Uma das tradições do lugar é a procissão entre a ermida de La Virgen de Perales e a igreja do povoado, com o translado da imagem da santa. Assim como em outros lugares da Espanha, a imagem é vestida com roupas e manto de tecido bordado e bem modelado.

El Burgo Ranero – LEÓN – 344,2 Km de Santiago

Em meio à imensidão da planície, El Burgo Ranero é um povoado identificado com o Caminho, tanto que sua Calle Mayor se chamava antes Calle del Camino Francés e, ainda hoje, dispõe de todo o tipo de serviços necessários ao peregrino.

Ao sair de El Burgo Ranero, o peregrino deverá vencer quase treze quilômetros até chegar a Reliegos. Por sorte há uma área de descanso arborizada entre os povoados.

Reliegos – LEÓN – 331,4 Km de Santiago

As estranhas construções subterrâneas à entrada de Reliegos são antigas adegas de vinho abandonadas, algumas poucas foram transformadas em casas de moradia.

Como tantas outras localidades do Caminho, a região de Reliegos foi habitada há mais de 150 mil anos, de acordo com os achados arqueológicos que também confirmam a presença humana ao longo da Idade do Bronze e do Ferro. Os romanos ali estiveram, criando um assentamento de nome Palantia ou Pelontium, como a denominou Ptolomeo, citando-a como a capital dos Lugones. Os romanos a fizeram um ponto de encontro de três importantes vias de transporte comercial e militar: Augusta-Tarraco, Augusta-Burdilaga e Anónimo de Rávena. Em 456, a vila foi saqueada pelo rei visigodo Teodorico II, sendo repovoada muitos anos após. Com a expansão do reino de Astúrias, entre 718 e 910, passou a chamar-se Campus Gothorum (Campo dos Godos).

A localidade foi abandonada com a invasão muçulmana e novamente repovoada com migrantes que vinham do sul dominado pelos invasores e que aceitavam trabalhar e defender a terra. Em 916, o rei de Galiza y León Ordoño II doou a vila, já chamada de Reliegos, à igreja Santa María de León. Anos mais tarde, em 971, o Rei Ramiro III de León doa a vila ao monastério Benedictino de Sahagún, medida contestada pelo bispo de León, que recebe Reliegos de volta em 985, sob ordens do rei de Galícia e León Bermudo II. Ao longo dos séculos seguintes, Reliegos foi por várias vezes disputada por religiosos ou nobres.
Desde o início das peregrinações, Reliegos de las Matas – seu nome histórico – fez parte do traçado da rota jacobeia. Na segunda metade do século XX, após a guerra civil, foi marginalizada, despovoada e muitos de seus habitantes emigraram.

Mansilla de las Mulas – LEÓN – 325,5 Km de Santiago

Esta localidade junto ao rio Esla foi chamada Mansiella pelos romanos, quando por ali passava a Via Trajana, mas teve vários nomes: Mansiella del Ponte, Mansiella del Estola, Mansilla del Camino e Mansilla de las Mulas, este último em função de uma feira de animais que existia na vila.

A ponte de oito arcos foi construída no século XII, para atender ao fluxo crescente de peregrinos, e refeita em 1573. Da mesma época são as muralhas, que em alguns pontos atinge catorze metros de altura e três de largura, construída no período de repovoamento e Reconquista. Foi desfeita, em parte, assim como o castelo, por ordem de Fernando II, o Católico, para evitar sublevações contra a unidade que ele havia conseguido entre os reinos da Espanha. Haviam quatro portas na muralha, que davam acesso à Mansilla, destas, ainda resta o arco de Santa María, ou da Concepción. Sua visão ainda impressiona e dá ideia da importância militar como núcleo defensivo das cidades de Oviedo e León. Ainda podem ser vistas as ruinas do castelo, mais antigo que as muralhas.

A igreja de Santa María foi a primeira de Mansilla, até 1220, quando se construíram as igrejas de San Miguel, San Lorenzo, San Nicolás, San Juan y San Pedro, desaparecidas ao longo dos séculos. Seu atual edifício é do século XVIII, construído sobre a anterior, em estilo arquitetônico simples. O belo retábulo dourado do altar-mor é da mesma época, em estilo barroco. Numa das imagens – policromada – são representadas Santa Ana, a Virgem Maria e Jesus (três gerações), obra do século XVI.

A igreja de San Martín, hoje Casa de la Cultura, é do ano de 1220, em estilo gótico tardio, com detalhes de influência árabe. Foi ampliada nos séculos XVI e XVII e restaurada em 1990.

Em Mansilla de las Mulas se celebram as Jornadas Medievales, em data próxima ao dia de Santiago (25 de julho). Trata-se de uma réplica de um mercado medieval, onde se podem adquirir diferentes produtos artesanais típicos da Idade Média, admirar costumes, tradições, concertos musicais com instrumentos da época e representações teatrais, tais como a encenação do julgamento e queima de bruxas. O ponto alto são as Justas: cavaleiros que lutam em honra de sua dama ou da vila.

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O povo, apegado às tradições, conta a história de um filho ilustre: Don Ponce, cavaleiro que foi lutar contra os mouros e foi por eles aprisionado. Sem notícias dele e crendo-o morto, sua esposa entrou para um convento e dedicou-se a cuidar dos peregrinos que por ali passavam. Muitos anos depois, ainda marcado pelo longo cativeiro, Don Ponce empreendeu uma peregrinação a Santiago de Compostela para agradecer sua liberdade. Ao passar por Mansilla, hospedou-se no hospital-albergue do convento Del Carrizo, onde eram tratados os peregrinos doentes ou exaustos da caminhada. À noite, num exercício de humildade, as monjas lavavam os pés dos peregrinos. Uma delas, com a cabeça coberta com véu, lavou os pés de Don Ponce e, estremecida, reconheceu o marido. Após a alegria do encontro, o cavaleiro completou sua peregrinação. Retornando, confirmaram seus votos matrimoniais e fundaram o mosteiro de Sandoval.

Villamoros – LEÓN – 321,5 Km de Santiago

Villamoros de Mansilla é uma vila pequena, cujo nome provém dos habitantes mouros da época da invasão muçulmana. Sua igreja de San Esteban é do século XVI. Em frente à igreja pode ser vista uma casa com brasão de família.

Próximo dali estão as ruínas de Lancia, cidade asturiana, posteriormente romanizada. Muito dela se perdeu por saques ao longo do tempo, porém, pelas fundações pode-se ter uma noção de sua grande importância até o século V e há quem diga que foi a precursora da cidade de León.

Puente de Villarente – LEÓN – 319,5 Km de Santiago

Antes de entrar no núcleo urbano se cruza uma estranha ponte em curva sobre o rio Porma. Puente de Villarente foi e é uma importante passagem do Caminho desde a Idade Média. Numa de suas praças há um belo monumento em homenagem aos peregrinos.

Arcahueja – LEÓN – 315,1 Km de Santiago

Antes de chegar à capital da Província, passa-se por Arcahueja, cuja proximidade com León leva à evasão de sua população mais jovem. Assim como em outros pequenos lugares espanhóis, também Arcahueja preocupa-se com o abandono progressivo e o desaparecimento de igrejas, ermidas e santuários e de seus objetos de arte religiosas ainda não catalogadas, que são parte do patrimônio da vila e de sua história.

León – LEÓN – 306,8 Km de Santiago

León foi fundada no século I a.C., pelos romanos da Legio VI Victrix. Em 68 d.C. a Legio VII Gemina fundou ali um acampamento militar permanente, com o objetivo de proteger o território dos antigos ocupantes cantábrios e asturianos de origem visigoda e para garantir o transporte do ouro extraído da província. O primitivo acampamento romano desenvolveu-se e virou uma importante cidade, sempre resistindo aos ataques dos visigodos até 586, quando foi tomada por Leovigildo. Foi uma das poucas cidades que os visigodos permitiram manter suas fortificações.

Séculos mais tarde, a cidade foi tomada por invasores muçulmanos. No ano de 856, sob o rei de Astúrias Ordonho I, um grupo de moçárabes – cristãos que viviam sob o regime islâmico – obteve sucesso em retomar a região. O rei Ordonho II fez de León a capital de seu reino, em 914, e a transformou na mais importante das cidades cristãs da Ibéria.

Saqueada por Almançor em 987, a cidade foi reconstruída e repovoada pelo rei de Castilla Afonso V, cujo decreto de 1017 regulamentou a vida econômica da cidade, incluindo o funcionamento de seus mercados, o comércio e o artesanato.

Já na Idade Média, León era ponto de parada para os peregrinos que percorriam o Caminho de Santiago. Não havia na rota jacobeia cidade com tantas igrejas, conventos, albergues e monastérios como esta. Aquele era um tempo em que nem todos os peregrinos eram devotos e penitentes. Eram, antes, trapaceiros que viviam às custas de enganar os mais ingênuos, através do jogo de dados. Mesmo os lugares sagrados não eram respeitados e era comum a jogatina ocorrer nos claustros da catedral de Léon. Um peregrino abastado deixou-se levar pelo vício e perdeu grande parte de suas moedas para os dados viciados dos jogadores profissionais. Muito irritado por não poder comprovar a trapaça, o peregrino lançou seu dado em direção a uma imagem da Virgem, que veio bater no rosto do Menino, fazendo-o sangrar. Para lembrar o fato, a Virgem tem um dado no pedestal que segura sua mão direita.

Há muito o que ver em León, a começar pela catedral, cujo pórtico é orientado à Jerusalém. A pedido do bispo Manrique de Lara, o rei de León Alfonso IX fê-la construir. Arquitetos franceses a projetaram no princípio do século XIII, num delicado jogo de harmonias góticas. É considerada uma das belas da Europa e a de maior superfície de vitrais: 1.800 m². Embora sua arquitetura exterior não seja tão imponente quanto a de Burgos, estar em seu interior é como ser transportado para dentro de uma joia de incontáveis facetas, lapidadas com ciência e arte: seus vitrais são como pedras preciosas e multicoloridas, harmoniosamente incrustadas em seus delicados arcos góticos. É fascinante deixar-se banhar nos variados efeitos de luz e cor, que parecem penetrar até o âmago do ser. Tamanho é o enlevo que não se sabe se o recinto é sagrado por ser um templo ou se é um templo por ter sido sagrado por tão elevada arte.

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Igualmente imponente é a igreja de San Isidoro, consagrada em 1063. É uma mistura dos estilos românico, renascentista e barroco. Nele estão sepultados reis e rainhas leoneses e o próprio santo Isidoro. A entrada principal se faz pela Puerta del Cordero. Seu interior pouco iluminado convida ao recolhimento. Sua abóbada é recoberta de pinturas que retratam a Redenção segundo a liturgia moçárabe. Em anexo há um museu aberto à visitação pública.

O conjunto monumental de San Marcos experimentou ao longo da história múltiplos e variados destinos. Sua construção tinha como objetivo ser a Casa Mayor de la Orden de Santiago. Sua antiga sala capitular e seu claustro foram ricamente decorados em estilo clássico, no século XVI. A igreja é de estilo gótico tardio. Hoje parte do conjunto é um museu, no qual se destaca uma importante coleção de epigrafia romana, e outra parte foi transformada em hotel.

A Casa de Botines foi construída pela família de mesmo nome como estabelecimento de comércio de tecidos e moradia. Em contraste com a arquitetura da cidade, é de estilo neogótico, seguindo projeto de Antoni Gaudi. Atualmente é sede de um banco espanhol.

O caminho medieval que levava a Santiago de Compostela era um aproveitamento da estrada construída pelos romanos que ligava Legio (León) a Astúrica Augusta (Astorga). Com pequena variação é o caminho que o peregrino segue ao sair de León.

La Virgen del Camino – LEÓN – 299,7 Km de Santiago

Após passar Trobajo del Camino – na verdade, um bairro de León, chega-se a La Virgen del Camino, localidade que sempre foi rica em mananciais aquíferos, explorados já pelos romanos, que ali construíram poços e fontes para irrigação dos pomares de uma grande quinta da qual ainda existem restos.

Em 1505, o pastor Alvar Simón afirmou ter sido agraciado com uma aparição da Virgem Maria. No local foi construído um santuário mariano, em torno do qual cresceu o povoado. O original foi substituído por um santuário em estilo moderno – em cuja lateral se destacam esculturas em bronze dos doze apóstolos e da Virgem.

A Ermida de Santiago foi reconstruída em 1777 sobre a ermida medieval preexistente. Já a igreja de San Juan Bautista foi construída em 1794, em pedra e tijolo.

A partir de La Virgen del Camino há um caminho à esquerda – menos frequentado, mas também sinalizado -, que passa por Fresno del Camino, Oncina de la Valdoncia, Chozas de Abajo, Villar de Mazarife, Villavante e, finalmente, Puente y Hospital de Órbigo.

A outra opção segue por Valverde de la Virgen, San Miguel del Camino, ambas vilas pequenas, até chegar a Villadangos del Páramo.

Villadangos del Páramo – LEÓN – 287 Km de Santiago

Villadangos parece ter-se originado de um assentamos asturiano, conquistado pelos romanos. Na idade média, foi alvo de incursões muçulmanas e foi abandonada até o ano de 714. Por vontade dos reis de León, foi repovoada no final do século IX com pequenos grupos familiares.

Em Villadangos del Páramo houve, em 1111, um enfrentamento armado entre galegos partidários de Doña Urraca e aragoneses, partidários do rei Alfonso I, o Batalhador. Ambos disputavam o reino do príncipe Alfonso, filho de Doña Urraca e futuro rei Alfonso VII. O local do enfrentamento e o fato em si foram denominados de “La Matanza”.

Desde o ano de 1112 até 1580, o povoado foi concessão eclesiástica. Em 1788, o rei da Espanha Carlos III cria o título de Marques de Villadangos, que perdurou até 1837.

Seus habitantes se dedicaram à criação de ovelhas e cabras, até o surgimento da estrada de ferro, que trouxe à localidade indústrias e comércios e um progresso considerável. (Houve um retorno à agricultura e à criação de gado nos anos 1960, por conta da construção da represa de Barrios de Luna, cuja água é distribuída por uma rede de canais e valas).

Na igreja de Santiago há relevos alusivos às peregrinações e à batalha de Clavijo e a representação da aparição de São Tiago ao rei de Astúrias Ramiro I, antes de sua vitória sobre o rei mouro Abderraman II, na reconquista das terras tomadas pelos muçulmanos.

San Martín del Camino – LEÓN – 282,5 Km de Santiago

Por um bom tempo o peregrino continuará caminhando pela planície interminável e monótona, até chegar ao povoado de San Martín, lugar cuja única referência histórica é um pequeno albergue para peregrinos pobres, que funcionou até o século XVIII.

Puente Y Hospital de Órbigo – LEÓN – 274,7 Km de Santiago

Puente de Órbigo criou-se, na idade média, em torno da igreja de Santa María, na margem esquerda do rio Órbigo. Seu nome provém de uma ponte original construída pelos romanos e ampliada nos séculos seguintes. Sua longa extensão – 19 arcos – tornou-se inútil depois da construção da barragem de Barrios de Luna, que controla as cheias do rio.

No final do século XVI, outro povoado surgiu na margem direita, junto ao antigo albergue de peregrinos fundado pela Orden de los Caballeros de San Juan de Jerusalén, e denominado Hospital de Órbigo. São, pois, dois povoados, separados pelo rio e unidos pela ponte.

A região foi palco de uma batalha entre tropas do rei godo Teodorico II e do rei suevo Requiário, cristão, no ano de 456. Embora Requiário tenha feito uma aliança com os godos, casando-se com a filha de Teodorico, a disputa pelo espólio da era romana os colocou em lados opostos. O rei suevo perdeu a batalha e foi executado. Dele restaram as moedas cunhadas em seu nome, o primeiro rei cristão a fazê-lo.

Crê-se que Almanzor, líder militar e religioso do califado de Córdoba, tenha atravessado a histórica ponte ao regressar de Santiago de Compostela, que destruiu no ano de 997. (Seu nome – al-Mansur – significa “O Vitorioso”, porque seu exército era implacável contra os cristãos, vencendo-os mesmo quando enfrentou a força coligada dos reinos de León, Castilha e Navarra. Assolou e saqueou Salamanca, Coimbra, León e Zamora e atacou Astorga, sem conquista-la. Morreu em Medinaceli em 1002, de enfermidade).

Em 1434, outro fato tornou-se notório, envolvendo romance, compromissos de honra e combates entre cavaleiros. Don Suero de Quiñones, um leonês apaixonado e desiludido, desafiou por um mês a todo o cavaleiro que tentava transitar pela ponte para um torneio entre ele e nove de seus homens, contra o desafiado e igual número de auxiliares. Terminado o mês, com apenas uma morte acidental, todos os cavaleiros continuaram sua peregrinação a Santiago de Compostela, onde Don Suero doou ao Apóstolo um bracelete de ouro recebido com juras de amor da dama outrora amada.

No século XIX, os habitantes de Hospital de Órbigo destruíram as cabeceiras da ponte para impedir o avanço das tropas do exército de Napoleão.

Seguem-se três povoados dos quais pouco há o que dizer: Villares de Órbigo, Santibañes de Valdeiglesias, de onde já se podem ver as torres da Catedral de Astorga, e San Justo de la Vega.

Astorga – LEÓN – 258,5 Km de Santiago

Há vestígios de ocupação humana na região que remontam a 200 mil anos. A região ficou conhecida por Astúrias e foi a última da Península Ibérica a ser conquistada pelos romanos. Astorga foi fundada por eles em 14 a.C., sob o nome Asturica Augusta por Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus, sobrinho neto de Júlio César.

A cidade foi um importante entreposto coletor de riquezas exploradas pelos romanos, de onde eram enviadas ao porto de Cádiz, no sul da Hispânia, pela Via de la Plata, incrível obra de engenharia de estradas, ao longo da qual floreceram muitas cidades: Salamanca, Zamora, Cáceres, Mérida, Sevilha.

A cidade não chegou a ser tomada pelos mouros, embora tenha sido atacada pelas tropas do general mouro Tariq ibn Ziyad, em sua expansão para o norte. Com a criação do Reino de Astúrias, no século VIII, o rei Alfonso I iniciou a Reconquista cristã, pressionando os muçulmanos em direção ao sul. Astorga retomou sua importância na Idade Média como ponto de passagem do Caminho de Santiago, quando chegou a ter 25 albergues para peregrinos.

Em 1034, o rei de Pamplona Sancho Garcês II tomou a cidade por desavenças com o rei de León Bermudo III.

Em 1143, a cidade passou a ser domínio do rei de Portugal Afonso I, o Conquistador, aproveitando as disputas entre a rainha de León Urraca I e o rei de Aragón Alfonso I.

De 1367 até o final do século XIV, Astorga – já em poder dos espanhóis – sofreu com a peste negra e as constantes lutas entre reis castelhanos, criando dificuldades econômicas à região. Perdeu sua condição de cidade livre em 1465, por determinação do rei de Castilla Pedro I, o Cruel, que a entregou como feudo a Álvar Pérez de Osorio, nomeando-o Marquês de Astorga e submetendo o Cabildo Catedralício local ao seu poder.

Ainda se podem ver as imponentes muralhas que cercavam a antiga cidade romana de Asturica Augusta, hoje Astorga, e que dão uma ideia da importância militar, administrativa, tributária e econômica a ela atribuída pelos conquistadores romanos. Plínio, o Velho, a definiu como ‘Urbs Magnífica’. Também podem ser visitadas as minas de ouro, exploradas na época, hoje consideradas patrimônio da humanidade, pela Unesco.

Já no século III, portanto nos primórdios do cristianismo, foi escolhida como sede episcopal, o que nos remete a dois magníficos monumentos da cidade: a Catedral e o Palácio Episcopal.

Ao longo do Caminho de Santiago de Compostela nos é mostrado o quanto a Espanha é rica em heranças de uma época em que Deus e César eram faces de uma só moeda. Uma época em que Igreja e reis sentavam-se à mesma mesa e bebiam do mesmo cálice. São testemunhas disso castelos, palácios e majestosas igrejas, catedrais e monastérios, cujos santos e altares são recobertos de ouro.

Dedicada a Santa María, a catedral de Astorga é um exemplo dessa herança. Construída, a partir de 1069, ao longo de trezentos anos por gerações de pacientes e desprendidos artesãos, sua arquitetura é uma síntese de estilos: gótico tardio, barroco e neoclássico. Ereta, em majestosa postura, ela aguarda os fiéis para mostrar-lhes histórias sagradas no retábulo de rara beleza do altar principal, finamente esculpidas e emolduradas em painéis dourados e lavrados com arte. Não menos artísticos são os relevos entalhados dos assentos do coro, feitos em sólida madeira escura, representando grande diversidade de santos, profetas, anjos e florões, que não se repetem uma só vez. Assim como as catedrais de Burgos e de León, essa também nos convida mais à contemplação que à oração, mais ao êxtase que ao recolhimento.

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Ali próximo, uma outra pérola de arte, esta do século XIX. Projetado por Gaudí, o palácio episcopal é uma síntese de passado e futuro, um misto de sagrado e profano, uma fantasia construída em pedra.

O Museo Romano está instalado sobre uma construção romana conhecida como Ergástula, no qual estão expostos objetos de achados arqueológicos da cidade que mostram o modo de vida da época do apogeu de Asturica Augusta.

Já à saída de Astorga, percebe-se que ficaram para trás as imensas planícies. A paisagem muda gradativamente e entravam em cena montanhas cobertas de matas cada vez mais abundantes.

Murias de Rechivaldo – LEÓN – 253,8 Km de Santiago

Se, ao deixar Astorga, seguir-se à esquerda, atravessando o rio Jerga, vai-se dar em Murias de Rechivaldo, com sua arquitetura típica da Maragateria, da qual a igreja de San Esteban, do século XVIII, é um perfeito exemplo. São construções geralmente retangulares, de pedra, sem reboco, tendo como acabamento apenas molduras em torno das aberturas.

A Maragateria é uma região histórico-cultural espanhola e Astorga é sua cidade mais conhecida, em que os maragatos fazem-se valer pela sua história e pelos seus costumes seculares, essencialmente rurais.

Castrillo de Polvozares – LEÓN – 252,3 Km de Santiago

Se a opção for seguir à direita, acompanhando o rio Jerga, para atravessá-lo mais adiante, chega-se a Castrillo de Polvozares, considerada patrimônio histórico da humanidade. A vila inteira, com suas ruas calçadas com pedras irregulares e suas casas praticamente intocadas, apresenta-se como há séculos, congelada no tempo, imersa num passado secular. Os sinais do conforto moderno – água encanada, eletricidade, gás – são discretos. Sua igreja ainda conserva o átrio onde eram feitas as reuniões civis da população local. À exceção da rua principal, larga e desimpedida, as demais têm formas assimétricas e labirínticas e servem como acesso às casas e não à passagem.

De volta ao Caminho, logo à frente, Santa Catalina de Somoza e El Ganso são localidades sem atrativos ou história e tem pouco a oferecer ao peregrino, senão seus bares, para descanso e lanche. Estas, assim como muitas outras, antes quase abandonadas, ressurgiram graças ao fluxo crescente de peregrinos que diariamente alimentam o Caminho, em toda a sua extensão, deixando centenas de milhares de euros por ano em pagamento de suas modestas necessidades de abrigo, alimentação, cuidados com a saúde, lazer e, raramente, algum pequeno luxo.

Rabanal del Camino – LEÓN – 237,9 Km de Santiago

Rabanal é um exemplo de povoado ressuscitado pelo Caminho. À época medieval, havia ali muitos albergues e igrejas que ofereciam descanso aos peregrinos antes que enfrentassem o acesso ao monte Irago e os perigos dos quais os Cavaleiros Templários de Ponferrada os protegiam. Após séculos de decadência, Rabanal também ressurgiu com a nova onda de peregrinação a Santiago de Compostela.

Suas casas e casarões em pedra são do mesmo estilo maragato, característico da região. Assim é sua igreja de Santa María, de características românicas; embora pequena, pertenceu à Orden del Templo. Destacam-se também as ermidas de San José, do século XVIII e a de Bendito Cristo. Em 2001, fundou-se ali a abadia beneditina de San Salvador del Monte Irago, onde, ao final da tarde, os monges cantam as Vésperas, em estilo gregoriano.

Foncebadón – LEÓN – 232,2 Km de Santiago

Foncebadón foi despovoado no final dos anos 1960, quando seus habitantes migraram em busca de novas oportunidades e poucos deles restaram. Muitas de suas casas ruíram ou foram saqueadas e o lugar passou a ser visto como mal-assombrado.

Mas o povoado já teve dias melhores. No ano de 946, por solicitação do bispo Salomón, o rei de León Ramiro II convocou o Concílio del Monte Irago, sediado no Monastério de Foncebadón, ao qual todos os bispos da Espanha livre compareceram. (Naquele tempo o sul do país estava tomado pelos mouros). Poucos anos depois, Foncebadón foi delimitada pelo rei de León Alfonso IV, o Monge, que conferiu ao lugar foro privilegiado e concedeu ao monge Gaucelmo permissão de construir ali um albergue para os peregrinos. Em 1180, o rei de León Fernando II entregou aos monges de Foncebadón a hospedaria de San Juan de Irago.

Tendo sido, desde sempre, parte do traçado original do Caminho, foi novamente a peregrinação que deu nova vida ao povoado. Em data mais recente, Foncebadón voltou a crescer, seja pelo retorno de antigos moradores, seja por investimento de novos proprietários que ali fazem suas casas de campo e veraneio.

La Cruz de Hierro – LEÓN – 230,3 Km de Santiago

Este é o ponto mais alto do caminho Francês: 1.482 metros. La Cruz de Hierro é um monumento santiaguista ao mesmo tempo singelo e icônico. Um dos muitos mitos do Caminho diz que a atual cruz substituiu a primitiva, instalada pelo próprio monge Gaucelmo, talvez sobre um altar romano dedicado a Mercúrio, deus dos caminhos. É, depois da própria catedral de Santiago, a referência mais importante para os peregrinos, que têm o costume depositarem uma pequena pedra – às vezes trazida de seus países – na base da cruz, num significativo ritual de desapego, de pedido por graça, de agradecimento, ou de qualquer outra razão pela qual vieram ao Caminho. (Ao lado, há uma aprazível área de descanso).

Monjarín – LEÓN – 228,1 Km de Santiago

Em Monjarín, da qual restam poucas ruinas, existia uma mina explorada pelos romanos. Como já havia feito em Foncedabón, o monge Gaucelmo construiu ali um albergue de peregrinos, em torno do qual formou-se uma vila agrícola de subsistência, criação de gado e comércio para atender aos viajantes e peregrinos. Despovoou-se em meados do século XX. Monjarín, tornou-se um ponto de referência no Caminho, quando Tomás Martínes de Paz, instalou-se ali, em 1993, construindo e mantendo um rústico e exótico albergue, feito com pedras encontradas no local e madeiras reaproveitadas. Nem banheiro tinha o que ele chamava de ‘Una luz en el Camino’. Contudo, enquanto viveu, Tomás – que se autodenominava ‘El Último Caballero Templário’ -, em sua simplicidade, sempre tinha algo a oferecer aos peregrinos de passagem ou a seus hóspedes, fosse um toque de sino, dando a direção em meio à neblina, uma palavra de conforto, um biscoito ou um café quente e forte. Muitos o admiravam, outros o ignoravam e havia os que o ridicularizavam. Contudo, tanto ele – Tomás de Monjarín – quanto Felisa, ‘la de los higos (figos), agua fresca y amor’, entre Viana e Logroño e Pablito, ‘el de las varas’ (cajados), em Azqueta, tem seu nome inscrito na memória de quem os conheceu.

El Acebo – LEÓN – 221,2 Km de Santiago

El Acebo – o nome provém de um arbusto – é o primeiro dos povoados da comarca de El Bierzo. É um lugar encantador, com casas construídas em pedra e telhados de ardósia e balcões de madeira. Na Idade Média, seus moradores eram isentos de tributo em troca de manter o Caminho limpo, seguro e sinalizado. Ainda hoje vive de prestar serviços aos peregrinos. No inverno fica quase despovoado.

Riego de Ambrós – LEÓN – 217,5 Km de Santiago

Quando seu senhor feudal, procedente de Ambroce, alí se estabeleceu, no século XII, o povoado passou a chamar-se Riego de Ambróz. Seu primeiro albergue foi destruído por um incêndio, no século XVIII. Além da ermida de San Fabián e San Sebastian, há no povoado uma igreja, do século XVI, dedicada à Santa María Magdalena, personagem bíblico controverso, ora apresentada como prostituta arrependida, ora como a mulher que lavou os pés de Jesus com óleos aromáticos e os secou com os próprios cabelos, ora como discípula dele e que o beijava na boca – de acordo com o evangelho de Felipe –, ora a que estava presente na crucificação.

Molinaseca – LEÓN – 213,2 Km de Santiago

À entrada da cidade está o Santuário de las Angustinas, ou de Nuestra Señora de las Angustias, cujas portas foram revestidas de ferro porque os caminhantes costumavam arrancar lascas de madeira como recordação. O Santuário já existia no século XI, ainda que tenha sido reconstruído em 1512, após um incêndio. Em seu interior pode-se ver uma imagem da Virgen de las Angustias, uma ‘Pietá’ em madeira sobre um majestoso trono neoclássico. Seu aspecto atual é de 1705.

Chega-se a Molinaseca ao atravessar a Puente de los Peregrinos, de construção em estilo romano sobre o rio Meruelo. Na Idade Média respondia diretamente à autoridade do rei de León Alfonso VI, o Bravo. Seu primeiro senhor feudal foi o conde Ramiro Froilaz, sobrinho de Rodrigo Díaz de Vivar, El Cid Campeador. Suas primeiras ermidas são do século XI: Santa Marina e San Roque. Seu centro histórico termina ao chegar-se a um antigo cruzeiro de pedra, símbolo da tradição jacobeia.

Ponferrada – LEÓN – 205,2 Km de Santiago

Embora existam indícios de povoamentos tanto no Período Neolítico como na Idade do Ferro, foi a partir da ocupação romana que se estabeleceu no local uma importante fortificação, em defesa do território e para proteger as minas de ouro que exploravam. É de 1082 o primeiro registro histórico relativo a Ponferrada: o bispo Osmundo, de Astorga, ordenou a construção de uma ponte sobre o rio Sil, para que os peregrinos de Santiago passassem em segurança.

Poucos anos após, em 1086, foi construída a igreja de San Pedro, em torno da qual formou-se La Puebla de San Pedro, nome logo substituído por Ponte Ferrato, hoje Ponferrada, denominação dada à passagem, pois a ponte de madeira original era reforçada com grampos e tirantes de ferro, mineral também abundante na região.

Em troca de seu engajamento na luta contra os muçulmanos, o rei de León Fernando II doou à Orden de los Caballeros del Templo, em 1178, um amplo território onde construíram o Castillo del Templo. Sua função era dar proteção aos peregrinos, comerciantes e autoridades civis, militares e eclesiásticas em trânsito pela região ou rumo a Santiago de Compostela.

O Castillo del Templo é um criptograma em pedra, tal o número de símbolos, sinais e vinculações astronômicas, que o fazem ser procurados por admiradores dos templários, para rituais de iniciação. Durante sua construção, o cavaleiro que coordenava o corte das árvores, que seriam usadas no vigamento do castelo, foi surpreendido por uma estranha luz que emanava do interior de uma azinheira. Ao investigar o fenômeno, encontrou uma pequena imagem de Nossa Senhora. Sem tocá-la, deu notícia aos seus superiores, que decidiram manter segredo sobre o achado, até que construíssem um santuário para guardá-lo. Aos templários foi revelado que a Virgem havia sido esculpida por São Lucas e trazida de Jerusalém por São Turíbio de Liébana. A imagem ficou sendo conhecida como La Virgen de la Encina (azinheira) e, por seus inúmeros milagres, tornou-se a padroeira da comarca de El Bierzo.

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No ano de 1180, o mesmo Fernando II concede a Ponferrada foro de vila. Durante os séculos XIII e XIV, já amuralhada, começa a crescer e desenvolver-se, atraindo agricultores, comerciantes e artesãos. Apenas cristãos podiam morar no interior das muralhas da vila, que tinha quatro entradas: El cristo, Paraisín, Las Nieves e Las Eras; a comunidade judaica foi assentada do lado de fora.

Com a dissolução da Orden de los Caballeros Templários, em 1312, a vila passou a pertencer à família Osorio, o conde de Lemos, até ser reclamada pelos reis Católicos Isabel I e Fernando II, no século XVI.

Contudo, a tradição local ainda mantém a Noche Templária, celebrada por ocasião da primeira lua cheia de julho, na qual é recriado um acontecimento medieval cheio de fantasia. Trata-se da representação de como Frey Guido de Guarda, mestre da Ordem, volta à cidade de Ponferrada para selar um pacto de eterna amizade e entregar-lhe em custódia a sagrada Arca da Aliança e o Santo Graal, trazidos da Terra Santa. Os Cavaleiros Templários são recebidos por milhares de pessoas vestidas à moda medieval, formando uma só comitiva em direção ao castelo.

Ponferrada é cercada de igrejas de grande valor histórico e artístico. A atual basílica de La Encina, de estilo renascentista, cujas obras iniciaram em 1572, foi construída sobe a igreja antiga. Sua torre foi concluída em 1614.

Juntamente com Villafranca del Bierzo, Ponferrada é a última grande concentração urbana antes de Santiago de Compostela.

Cacabelos – LEÓN – 189,6 Km de Santiago

Deixando Ponferrada, o peregrino passa por pequenos e inexpressivos povoados – Columbrianos, Fuentes Nuevas e Camponaraya –, antes de chegar a Cacabelos.

Vários artefatos neolíticos e da Idade do Bronze, abundantes aldeias fortificadas e antigas explorações auríferas são os testemunhos materiais de uma população que tinha já certa importância na época pré-romana.

Historiadores romanos relatam guerras contra os asturianos, antigos ocupantes da região, nos anos de 25 a 19 a.C. O Castro Berguidum ou Castro de la Ventosa, aponta para a localização da primitiva cidade celta de Berguidum, à qual davam duas importantes as estradas vindas de outras direções. Os romanos fundaram a cidade de Berguidum Flavium, onde hoje é Cacabelos, fazendo dela o centro administrativo das minas de ouro que exploravam em El Bierzo.

Com a queda do Império Romano, em 476, os suevos assentaram-se à noroeste. Um século depois, os visigodos anexaram a região, a tornaram parte da diocese de Astorga e imprimem moeda própria, demonstrando sua autonomia. No início do século VIII, tornou-se um ponto de resistência às investidas muçulmanas; porém, em consequência das seguidas escaramuças, entrou em decadência.

O nome Cacabelos é mencionado pela primeira vez no século X, como doação da vila pelo rei de Galícia e León Bermudo II ao monastério de Carracedo. O povoado cresceu de forma ininterrupta na Idade Média, como testemunham suas igrejas – Santa María de la Plaza, Santa María de la Edrada y Santa María Circa Pontem – e hospitais-albergues – San Lázaro, Santiago, Santa Catalina, Alfonso Cabirto, Inés Domínguez. Um novo incentivo ao seu crescimento foi a concessão pelo rei de León y Castilla Sancho IV, em 1291, de uma feira anual de quinze dias de duração, celebrada na festa de La Cruz de Mayo. No mesmo século XIII, é construído o monastério de San Guillermo, de monjas cistercienses. Em 1809, durante a Guerra da Independência, ingleses e franceses enfrentaram-se na pequena localidade, tendo morrido o general francês Colbert.

Ao final do século XIX, uma praga destruiu os vinhedos de Cacabelos e fez a cidadezinha esvaziar-se. Porém, anos após, com enxertia de cepas importadas, a indústria vinícola recuperou-se e tornou-se sua principal atividade econômica.

À saída de Cacabelos situa-se o santuário de La Virgen de las Angustias, de fachada barroca, onde se conserva uma imagem de Jesus Menino jogando cartas com Santo Antônio de Pádua.

Villafranca del Bierzo – LEÓN – 182,6 Km de Santiago

A batalha mais antiga na região, da qual se tem conhecimento, ocorreu no ano de 719 entre tropas muçulmanas que regressavam da Galícia e os cristãos do rei asturiano Bermudo I, o Diácono. Os cristãos foram dizimados e Alfonso II, sobrinho de Bermudo, assumiu o trono.

O começo das peregrinações a Santiago de Compostela, ainda no século IX, e as dificuldades para atravessar a acidentada região fazem surgir núcleos de assistência aos peregrinos e Villafranca seria a vanguarda do estreito vale do rio Valcerce e o abrigo dos peregrinos ao final da jornada.

A origem mais confiável da cidade se associa ao monastério de Santa María de Cluniaco, onde os monges beneditinos de Cluny se assentam em 1079, sob o reinado de Alfonso VI, de León, para atender aos peregrinos e a comunidade francesa convidada pelo rei para ali estabelecer-se. Foram eles – comerciantes, artesãos e agricultores – que trouxeram o cultivo da videira e a produção do vinho. No século XII, metade da população era estrangeira, revitalizando e repovoando a região. Assim, durante vários séculos havia em Villafranca – vila dos franceses – dois corregedores, um para os francos e outro para os espanhóis.

O mesmo rei Alfonso VI exime os peregrinos do pagamento de acesso ao castelo de Santa María de Autares, próximo de Villafranca, argumentando ser tal medida “uma oferenda ao Apóstolo, sob cujo poder está toda a Espanha”. Tal era a importância da peregrinação na formação do país e a reverência do rei a Santiago.

Em 1186, o bispo de Astorga obteve uma bula papal para erigir uma igreja em Villafranca em homenagem ao Apóstolo São Tiago, onde peregrinos, enfermos ou impossibilitados de chegar à meta final da peregrinação, pudessem receber a indulgência ou os favores que receberiam na catedral de Santiago de Compostela. Assim são equiparados os valores espirituais das Puertas del Perdón da catedral compostelana e da igreja de Santiago de Villafranca. Esta, como as pequenas igrejas das pequenas vilas, tem o pórtico voltado ao oeste para que os fiéis, que olham para o altar, rezem voltados para o leste, em direção à cidade sagrada de Jerusalém.

Ao final do século XII, o rei de León y Castilla Alfonso VII, o Imperador, outorgou à localidade condição de feudo, colocando sua irmã Sancha Raimúndez como senhora feudal. Sucedeu-a doña Urraca, esposa de Fernando II, que repovoa a vila. A partir de então o feudo muda de senhorio ao sabor da vontade dos reis, entre ele o arcebispo de Santiago de Compostela Don Pedro de Luna.

Em 1486, os Reis Católicos Isabel I, rainha de Castela, e Fernando II, rei de Aragão – que unificaram os reinos ibéricos, formando a Espanha – convertem o feudo em Marquezado de Villafranca del Bierzo, em favor de Luiz Pimentel y Pacheco e descendentes, que construíram o sólido castelo local, para controlar a estratégica passagem de aceso a O Cebreiro e à Galícia.

Nos séculos XIV e XV, a vila desenvolveu-se, atraindo artesãos e comerciantes. São desta época o castelo, a Colegiata e Convento de la Concepción, a igreja de São Francisco, o convento de Dominicas de la Laura e o Hostal del Comercio. Nos séculos XVII e XVIII, Villafranca del Bierzo chegou a ser um destacado centro comercial, artístico e cultural, acrescido de forte agricultura e criação de gado.

Villafranca tornou-se quartel-general do exército da Galícia, em 1808, e foi saqueada por três vezes pelas tropas inglesas, aliadas dos espanhóis na guerra da Independência. Também os franceses a ocuparam, destruindo e saqueando. Em 1810, foi libertada definitivamente e converteu-se em centro de operações para a reconquista de Astorga.

Um curioso e rústico albergue – o Ave Fênix – foi construído sobre as ruínas de uma sinagoga por Jesus Jato, com o auxílio pecuniário ou laboral de peregrinos admiradores seus, dos quais muitos trabalham como hospitaleiros voluntários. À noite, Jesus costuma realizar o ritual de ‘La Quemada del Vino’, uma bebida à base de vinho aquecido e ervas, o que lhe valeu o apelido de ‘El brujo’, até por que ele se diz poeta, artista, visionário, construtor, orador e massagista. Se tem admiradores, também tem muitos detratores, que o tem por farsante. Coisas do Caminho.

Vega de Valcarce – LEÓN – 166,3 Km de Santiago

O trecho de Villafranca del Bierzo a O Cebreiro é considerado um dos mais difíceis do Caminho. A caminhada inicia pela estrada que acompanha o curso do rio Valcarce e faz o peregrino passar pelos povoados de Pereje, Trabadelo, La Portela e Ambasmestas, antes de chegar a Vega de Valcarce.

Embora pertença à província de León, ali fala-se o galego e a vida de seus habitantes está intimamente relacionada à Galícia. O povoado está situado entre duas antigas fortificações: a de Vega e a de Sarracín. Desde o século XI, a fortificação de Vega serviu de abrigo aos coletores de imposto de passagem por aquela região. O castelo de Serracín, foi construído no século IX por Serracín, cavaleiro templário e conde de Astorga, sobre uma fortificação ainda mais antiga, destruída por Muza, governador do Califado de Omeya, no ano de 714. Recuando ainda mais no tempo, há vestígios arqueológicos nas fundações do castelo que remetem a um assentamento na Idade do Ferro. Após a Reconquista de Vega de Valcarce, o rei espanhol Carlos I ali pernoitou, a caminho de sua coroação na Alemanha, como Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, em 1519.

O Cebreiro – Província de LUGO – 154,7 Km de Santiago

Após Ruitelán e Las Herrerías, chega-se a La Faba descendo até um riacho de águas límpidas e ligeiras, que marca o fundo do vale. A partir daí, inicia-se uma íngreme subida por uma das mais belas trilhas do Caminho, emoldurada por verdejantes matas. Mais próximo do topo da montanha, a mata é substituída por vegetação rasteira e a trilha perde seu encanto. Mas é em Laguna de Castilla, última localidade de León, que se percebe estar chegando quase ao topo da montanha, a 1.300 metros de altitude. A esta altura da jornada, os peregrinos estão cansados e doloridos, mas cheios de alegria por estarem próximos de um ícone do Caminho – O Cebreiro – e ainda com disposição para admirar a magnífica paisagem das montanhas próximas e distantes.

Se o Caminho tem um lugar que se possa dizer que é mágico, este lugar é O Cebreiro. A paisagem misteriosa, a constante neblina que cobre a vila e as casas de pedra, cobertas de palha e dispostas de forma compacta e assimétrica, tem o encanto da própria montanha, como se dela fizesse parte.

Passagem obrigatória para Santiago de Compostela, O Cebreiro sempre foi lugar de refúgio para peregrinos. Em 1072, o rei de León Alfonso VI colocou o povoado nas mãos dos monges beneditinos franceses de Cluny – como fez com outros locais estratégicos da rota jacobeia -, incluindo sua igreja pré-românica de absides retangulares, do século IX. Os monges, vindos da abadia de Saint-Geráud, da cidade de Aurilac, fundam o mosteiro de Santa María del Cebrero. Durante a Idade Média, O Cebreiro foi a localidade mais importante da Comarca da Galícia, até sua decadência a partir do século XVI. Os monges foram expulsos em 1854, em decorrência da Desamortización de Mendizábal, que desapropriou terras e bens de nobres e de ordens religiosas, para dá-las ao povo para que nelas trabalhassem.

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O Cebreiro também tem seu milagre, ocorrido no ano 1300, conhecido como o Milagre da Eucaristia ou a Lenda do Santo Graal da Galícia. Juan Santín – que vivia no povoado de Barxamaior, distante meia légua de O Cebreiro – era tão devoto que não cessava de ir à missa, mesmo com chuva, vento ou frio. Num dia de furiosa tormenta, o pároco pensou que ninguém viria à igreja e viu apenas um único fiel, Juan, aguardando pela missa. Com desdém, o padre disse a si mesmo: “Este vem, apesar da tempestade e da fadiga para ver um pouco de pão e vinho”. Deus, para repreender-lhe a falta de fé e de caridade, realizou o milagre de converter a hóstia em carne e o vinho em sangue, no momento da consagração, para assombro e testemunho do próprio padre e do piedoso Juan Santín.

A rainha Isabel, a Católica, ao regressar de sua peregrinação em 1488, tentou levar o cálice para um lugar mais seguro, porém os cavalos da carruagem real negaram-se a continuar a viagem. Em resposta ao que pareceu ser um sinal divino, a rainha doou o relicário no qual se conserva o cálice do milagre, uma bela obra do século XII. No entanto, em anos recentes, o cálice deixou de ser exposto, devido aos constantes roubos de arte sacra nas pequenas e desprotegidas igrejas do interior espanhol.

Triacastela – LUGO – 134,1 KM de Santiago

Vários pequenos povoados se interpõem a O Cebreiro e Triacastela. Pouco adiante de Liñares, chega-se ao Alto de San Roque, a 1270 metros de altitude, marcado por um imponente monumento ao peregrino. De mesmo feitio da igreja de O Cebreiro, a igreja da localidade de Hospital é da mesma época do hospital-albergue fundado pela condessa Egilo, no século IX.

Após passar por vários minúsculos povoados eminentemente rurais – Pardonelo, Alto do Poio, Fonfría, Viduedo, Filloval e As Pasantes -, chega-se a Triacastela, pelas mesmas trilhas que os peregrinos medievais percorriam.

A região era habitada já há 35 mil anos, como atestam pesquisas arqueológicas na caverna de Eirós, situada nos arredores da cidade. Em seu interior encontraram-se restos de Homo Neanderthalensis e Homo Sapiens, permitindo que se estude a transição entre ambos. A caverna guarda um outro tesouro: a arte rupestre do paleolítico que adorna suas paredes.

Triacastela deriva seu nome de três castelos ali construídos, dos quais nada mais resta, mas de que temos notícia em documentos históricos. A cidade foi fundada no século X e repovoada e melhorada pelo rei de León Alfonso IX, o Baboso, no século XIII. Sua igreja, de estilo românico, é dedicada a Santiago. De suas minas de cal, os peregrinos da Idade Média levavam uma porção para a construção da catedral de Santiago de Compostela.

Ao sair de Triacastela, o peregrino se vê frente à duas opções: Samos ou Sarria.

Samos – LUGO – 127,3 Km de Santiago

Dobrando à esquerda, logo ao atravessar o rio Oribio, seguindo as setas amarelas, chega-se a Samos, passando por trilhas de grande beleza. A pequena cidade é vista de cima, chamando a atenção o conjunto que compõe o monastério San Julián de Samos, cuja fundação é atribuída a San Martino de Dume, cuja primeira menção histórica se fez no ano de 665, sendo um dos mais antigos da Espanha. Foi abandonado durante a invasão muçulmana e reconquistado em 760 pelo rei das Astúrias Fruela I. Quando, anos mais tarde, este foi assassinado, sua viúva e seu filho, o futuro Afonso II, o Casto, refugiaram-se no monastério, ganhando com isto a proteção real. No início do século X, o bispo de Lugo, Don Erro, expulsou os monges e assumiu seu controle. A pedido do rei de León Ordoño II, foi reocupado pelos beneditinos, que dois séculos após, somaram-se à reforma de Cluny. Durante a Idade Média, o monastério de Samos desfrutou de grande importância e posses. Também os monges de Samos foram atingidos pela Desamortización de Mendizábal e foram expulsos, retornando em 1880, porém sem direito às terras que até então possuíram.

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A construção original teve expressivos acréscimos ao longo dos séculos, mesclando os estilos renascentista e barroco, como ainda hoje podem ser apreciados, bem como alguns resquícios da arquitetura original, de influência gótica. Seu interior tem a simplicidade exigida pela vida dedicada à contemplação e à cultura.

O monastério conta com dois claustros. O claustro maior, do século XVII, é mais austero e simples e as paredes do andar superior são decoradas com cenas da vida de San Benito. Um menor, foi construído em 1539, em estilo gótico, cujo centro é uma fonte barroca, a Fuente de las Nereidas, que já foi fonte de discórdia. Seu aspecto de serpente marinha e com enormes seios à mostra desagradou a um superior provincial que ordenou que fosse retirado do claustro. Os monges desmontaram a fonte com cuidado, sabendo tratar-se de uma obra de arte. Porém, ao tentarem transportar as partes para seu novo lugar, estas aumentaram de tal forma seu peso que se tornou impossível removê-las. Vencidos, os monges decidiram reconstruir a fonte no exato lugar em que estava, ou seja, no centro do claustro menor. Surpreendentemente, as peças voltaram a seu peso normal e deixaram-se encaixar e cimentar.

Sua igreja em estilo barroco foi construída em 1734; tem planta em cruz latina e três naves, que lhe dão um interior luminoso e solene. Sua abóboda é imponente, de traços simples e vigorosos, é uma verdadeira obra de arte, assim como o belo retábulo do altar-mor. É impossível descrever os detalhes de sua harmoniosa fachada barroca, cuja escadaria de acesso, faz lembrar a da catedral de Santiago de Compostela.

Sua importante biblioteca desapareceu num incêndio, em 1951, que atingiu grande parte do prédio.

Sarria – LUGO – 115,6 Km de Santiago

Se à saída de Triacastela, o peregrino optar pelo caminho da direita, chegará a Sarria, após passar por minúsculas aldeias rurais dedicadas à criação de gado: Balsa, San Xil, Alto de Riocabo, Furela e Calvor.

No ano de 785 foi fundado o monastério de Santo Estevo de Calvor e, não muito depois, a localidade se consolida como Condado de Sarria. Passagem obrigatória para os peregrinos, atraiu instituições assistenciais como Los Madalenos e Templários. Ao final do século XII, por ordem do rei de León Alfonso IX, se funda Vilanova de Sarria, com foro de vila real, onde ele próprio morreria em 1230.

Cinquenta anos após – 1280 – Sarria contava com duas igrejas: San Salvador e Santa Marina; um monastério: La Madalena e duas ermidas. Em 1360, o rei de Castilla Pedro I, o Cruel, converte a cidade em feudo e a concede a Don Fernando de Castro, com caráter hereditário.

A Revolta Irmandina, iniciada em 1467 por campesinos galegos, destruiu fortalezas e castelos na região e por três anos aterrorizou os senhores feudais, até que foi debelada e os revoltosos punidos. Em 1503, outro Don Fernando de Castro é nomeado Marquês de Sarria pelos Reis Católicos Fernando e Isabel.

Sarria entrou em decadência no mesmo ritmo em que decaía a peregrinação a Santiago de Compostela e voltou a sofrer com a invasão das tropas francesas, no século XIX, como ocorreu em muitas outras cidades espanholas, com saques e destruição de patrimônio e sequestro de gado e grãos.

A Desamortización de Mendizábal extinguiu a vida comunitária do monastério de La Madalena, subtraindo-lhe as rendas e propriedades, que foram adquiridas pela burguesia emergente. Com a construção de rodovias e ferrovias, em meados do século XIX, houve um novo impulso ao desenvolvimento de Sarria, como polo comercial, em detrimento do agronegócio.

Barbadelo – LUGO – 111,3 Km de Santiago

Barbadelo já foi conhecida por Monastério. Sua igreja, dedicada a Santiago, foi construída na segunda metade do século XII, como parte de um monastério que deu o antigo nome à localidade. Seu projeto original – românico – foi alterado através dos séculos, sendo que sua abside foi substituída por uma torre de base quadrada à qual está anexa a sacristia. Os arcos que emolduram as portas das fachadas norte e oeste e seus respectivos capitéis mostram uma sofisticada simbologia: retratam figuras entalhadas de animais e pessoas cuja interpretação é desconhecida. Sobre a porta oeste, um entalhe mostra uma figura humana com os braços abertos, podendo ser em oração ou em acolhida. Do conjunto só resta a igreja.

Logo adiante, está Brea, povoado minúsculo, cuja atração é uma pequena e simples ermida onde os peregrinos deixam mensagens. Tem o mesmo estilo despojado das muitas outras ermidas e capelas votivas da Idade Média, construídas ao longo do Caminho.

Ferreiros – LUGO – 102,4 Km de Santiago

Como indica seu nome, a localidade era um assentamento de ferreiros que prestavam serviços aos caminhantes: ferraduras, arreios, aros metálicos para rodas de carroças e carruagens, confecção ou conserto de armas, etc. Sua igreja é modesta, mas com um interessante pórtico românico.

O povoado de As Rosas está na marca dos 100 quilômetros finais do Caminho, trazendo alento aos peregrinos, tornando seus passos mais ágeis e o espírito mais exultante.

Pouco maior que os povoados anteriores, Vilachá tem uma igreja construída no século XVIII, dedicada a San Mamede de Vilachá, cujo acesso ao campanário se faz por uma escadaria externa.

Num povoado logo ao lado – Loio –, em 1170, doze cavaleiros juraram proteger os peregrinos dos ataques muçulmanos, dando início à Orden de los Caballeros de Santiago.

Portomarín – LUGO – 93,2 Km de Santiago

Portomarín já se anuncia três quilômetros antes, quando é possível vê-la do alto da montanha, ainda em Vilachá.

A pequena cidade nasceu e cresceu às margens do rio Miño, ao lado de uma ponte construída durante a ocupação romana. Desde tempos imemoriais, crê-se que o Minõ é um rio encantado por feiticeiras e homens anfíbios e que os navegantes deveriam levar uma pedra em suas bocas para evitar que falassem e atraíssem as feiticeiras. A isso os romanos acrescentaram a crença de que a névoa sobre o rio encobria o abismo sem fim, no qual terminavam suas águas, o temido ‘finis terrae’.

Em 1212, a Orden de San Juan de Jerusalén outorgou a Portomarín foro de autogestão.

Em 1962, foi construída a represa de Belesar e cidade foi recriada no alto da montanha. Apenas poucos de seus antigos prédios foram transladados da cidade antiga, os mais importantes do ponto de vista civil e religioso.

Sua sóbria e sólida igreja-fortaleza, dedicada a San Nicolás, foi construída no século XII às margens do Miño e reedificada, pedra por pedra, no centro da nova cidade. Seu estilo situa-se entre o românico e o gótico e a rosácea de sua fachada lhe dá ares de imponência, porém seu interior é despojado e solene.

Quando baixa o nível da água da represa, ainda podem ser vistas as antigas edificações, o molhe e a ponte primitiva, resultando numa visão sombria e deprimente.

Castromaior – LUGO – 84 Km de Santiago

Chega-se a Gonzar após andar oito quilômetros; é um povoado esparso e inexpressivo. Igualmente pequeno é Castromaior, que deve seu nome a uma fortificação situada antes e à direita do povoado. As bases da primeira construção datam da Idade do Ferro – 1200 a.C. O local foi utilizado por diversos grupos humanos, provavelmente até o século I da era cristã. Soterrada e esquecida durante séculos, sua conservação permite que se estude os modelos construtivos castrenses: o sistema defensivo conta com fossos, muralhas e uma entrada fortificada; seu interior contém várias construções bem definidas, cada qual destinada a um uso.

Seguem-se os povoados de Hospital de la Cruz (em referência a um antigo hospital-albergue de peregrinos), Ventas de Narón (logo adiante encontra-se o cruzeiro de Lameiros, erguido em 1670, tendo de um lado Cristo crucificado e de outro a Virgem com o Menino), Ligonde (onde há um cemitério de peregrinos, que era anexo ao albergue mantido pela Orden de Santiago), Airexe e Avenostre. Mesmo que sejam pequenos, estes povoados têm seu encanto: igrejas e casarões muito antigos, pontes de pedra e belas paisagens.

Palas de Rei – LUGO – 68,1 Km de Santiago

Pela pequena cidade passava a Lucus Augusti, uma das vias romanas que lhe deu vida e a fez prosperar. Segundo a tradição, seu nome deriva de ‘Pallatium Regis’, em referência ao palácio do rei visigodo Witiza, que reinou entre os anos 702 e 710. Seu patrimônio arquitetônico reflete sua importância na Idade Média.

Uma de suas principais referências é a igreja de Vilar de Donas, de estilo românico-galego, construída no século XII; as pinturas murais em seu interior formam um dos conjuntos mais destacados e melhor conservados da Galícia. A igreja está vinculada às Ordens de Los Caballeros de Santiago e de Los Caballeros Templários, sendo que nela foram enterrados vários representantes dessas Ordens.

O Castillo de Pambre – fortificação do século XIV, que visava a dar proteção aos peregrinos -, um dos poucos exemplos de arquitetura medieval galega. Com a Reforma Protestante e o consequente declínio das peregrinações a Santiago de Compostela, o castelo perde sua principal função e passa a ser apenas moradia do feudatário.

Leboreiro – Província de A CORUÑA – 59 Km de Santiago

Casanova é apenas um pequeno conjunto de casas. A três quilômetros dali está Leboreiro, ou Santa María do Leboreiro, povoado que ano a ano vê sua população diminuir.

Uma lenda local, conta que, para surpresa dos moradores de Leboreiro, surgiu uma fonte, que durante o dia emitia aromas perfumados e, à noite, se iluminava com luzes de origem desconhecida. Tomado por um milagre, o fenômeno levou aos homens do povoado a cavarem em torno da fonte, onde encontraram uma linda imagem da Virgem Maria, que levaram à igreja local. Nova surpresa, no dia seguinte voltaram a encontrar a imagem no exato local de origem. Por algum tempo, os moradores teimaram em leva-la à igreja sempre que a Virgem “fugia”, até entenderem que deviam construir uma capela no local em que foi encontrada. Assim foi feito e a imagem da Santa María de Leboreiro acomodou-se em sua nova morada. Comenta-se à boca pequena que a Virgem deixa a capela, de quando em quando, à noite, para banhar-se na fonte luminosa.

A igreja de La Virgen de las Nieves é de estilo gótico, com traços românicos; sua porta de entrada traz uma imagem esculpida de La Virgen y el Niño no colo e cercada de anjos. Seu interior contém pinturas murais do século XVI representado San Sebastian, La Anunciación del Angel, La Flagelación de Jesus.

Por toda região ainda se usam os curiosos ‘hórreos’, depósitos artesanais de grãos, em especial de milho.

Furelos – A CORUÑA – 55 Km de Santiago

Furelos mantém parte de sua arquitetura medieval: casas de pedra. Sua igreja, dedicada a San Juan, de estilo românico, tem altar e retábulo em estilo neoclássico e rococó, do final do século XVIII. Na lateral direita está o retábulo do Santo Cristo, de estilo neogótico, representando Jesus crucificado, porém com o braço direito estendido para baixo, como que a dar a mão ao fiel que o admira. É uma imagem impactante e intrigante: nos fala mais de compaixão que de sofrimento.

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Melide – A CORUÑA – 53,1 Km de Santiago

Em Melide se encontram o Caminho Francês, vindo do Leste, e o Caminho Primitivo, vindo de Oviedo, ao norte.

Em 1375 construiu-se ali um monastério, uma igreja e um hospital-albergue de peregrinos de nome Sancti Spiritu, hoje transformado em museu etnográfico, o Museo da Terra de Melide.

A cidade também foi palco da Revolta dos Irmandinos, ocorrida entre 1467 e 1469, em que camponeses galegos, malnutridos e sujeitos a epidemias, enfrentaram-se com os poderosos senhores feudais. Muitas casas, castelos e fortificações da região foram destruídas.

A igreja é decorada com afrescos do século XV, que representam Santiago Matamoros, o legendário santo guerreiro que auxiliou os cristãos no combate aos invasores muçulmanos.

À saída da cidade, junto ao cemitério, está a igreja de Santa María de Melide, em estilo românico, cujo interior é decorado com afrescos.

Já próximo de Santiago de Compostela, o peregrino deixa-se tomar pela ansiedade. Não restam mais grandes cidades, majestosas catedrais ou importantes monastérios. Só pequenos povoados e muitos rios que correm para o sul, para afluir ao vale do rio Ulla.

Boente é o primeiro desses povoados, após Melide. Segue o povoado de Castañeda, onde os peregrinos deixavam as pedras de cal que traziam de Triacastela para serem processadas e enviadas para a obra da catedral de Santiago. Adiante, localiza-se Ribadiso da Baixo.

Arzúa – A CORUÑA – 39,5 Km de Santiago

Arzúa é uma pequena cidade, com ares modernos, conhecida como La Tierra de los Quesos. Ainda conserva alguns prédios antigos, como a capela de La Magdalena, do século XIV, que fazia parte de um convento de monges agostinianos; restaurada, foi transformada em museu.

Sucedem-se as localidades de Salceda, Santa Irene e Rúa, uma menor que a outra.

Pedrouzo (ou Arca) – A CORUÑA – 20,1 Km de Santiago

Também conhecida por Arca, Pedrouzo é uma pequena cidade e não está propriamente no Caminho, senão que ao lado. Contudo, conta com os serviços essenciais ao peregrino e o poupa de uma caminhada mais longa até Monte do Gozo ou até mesmo Santiago de Compostela.

Sua igreja de Santa Eulália de Arca é datada do século XIII, em estilo neoclássico, e ampliada no século seguinte. O belíssimo retábulo do altar-mor, dedicado a Santa Eulália, foi criado no século XVI, já em estilo renascentista; devido aos riscos de deterioração, foi levado ao Museu Diocesano de Arte Sacra de Álava. O altar-mor atual é bem mais modesto, emoldurado por uma enorme vieira.

Enfim, Santiago de Compostela!

Após quatro semanas de caminhada, com jornadas diárias, bolhas, talvez tendinite, cansaço, noites em dormitórios coletivos, restam apenas mais vinte quilômetros para a catedral do Apóstolo, meta da peregrinação. San Paio, Lavacolla (onde os peregrinos banhavam-se e lavavam suas roupas), Villamaior, San Marcos são pequenos povoados colados ao Caminho. E, então, do Monte do Gozo já se avista Santiago de Compostela.

A região foi habitada desde a pré-história. Também os romanos se fizeram presentes, entre o século I e o V. Desde então até o século VII, fez parte do Reino Suevo. Já os reis asturianos, temendo uma secessão, confirmam a religião e as leis godas e nomeiam um de seus herdeiros de sangue para governar a Galícia.

O descobrimento do túmulo de Santiago, proporcionou ao rei de Astúrias Alfonso II – necessitado de coesão interna e apoio externo para seu reino – motivo para anunciar o local como novo lugar de peregrinação para a cristandade, em um momento em que Roma havia decaído e Jerusalém estava em poder dos muçulmanos. Ergue, então, uma igreja e lhe concede privilégios. A comunidade que se forma no entorno também goza de prerrogativas reais, garantindo sua fidelidade. Assim nasceu a cidade de Santiago de Compostela.

O santuário foi adquirindo relevância política e nele foram coroados os monarcas dos reinos da Galícia e de León. No ano de 969, a cidade foi fortificada e era conhecida por Locus Sancti Iacobi. Em 997, o califa Almanzor atacou e destruiu a cidade, de onde levou como butim os sinos da igreja do Apóstolo e as portas da cidade, respeitando apenas o túmulo do Apóstolo.

Com a saída dos muçulmanos, a cidade foi retomada e reconstruída, agregando-se fossos e reforço nas muralhas e passou a ser Sede Apostólica, por reivindicação do bispo Cresconio.

Por essa época, foi redigido o Codex Calistinus, atribuído ao papa Calixto II, que se tornou uma fonte histórica fundamental da peregrinação a Santiago de Compostela.

Em 1075, o bispo Diego Peláez deu começo à construção da catedral românica. Mas, foi o bispo Gelmírez que impulsionou, no ano de 1100, o término da construção da catedral e a reorganização urbana de Santiago. Encarregou o mestre Mateo de substituir o velho pórtico, levantado somente 40 anos antes. Mateo lavrou em pedra o mais lírico poema, para acolher as relíquias do Apóstolo e os peregrinos, ao final do Caminho. Dos três arcos do Pórtico da Glória, o central é o mais majestoso: mostra Cristo e os evangelistas cercados pelos 24 anciãos do Apocalipse, cada um com um instrumento musical. O próprio mestre Mateo foi esculpido em pedra, ajoelhado na base posterior da coluna. No século XVIII, a catedral é ampliada, adquirindo sua atual aparência barroca, incluindo as belas e altivas torres, criadas para deslumbrar fiéis e visitantes.

Assim como outras cidades espanholas, também Santiago de Compostela esteve envolvida em frequentes conflitos ao longo de séculos, além de ter sido atingida pela peste negra. Mas, em contraponto, obras importantes foram levadas à frente no século XV, quando haviam ali entre quatro e cinco mil habitantes: o Hostal de los Reyes Católicos e El Estudio Veijo, germe da futura universidade, fundada em 1495.

No princípio do século XVII, Cesare Baronnio, confessor do papa Clemente VII, pôs em dúvida a peregrinação a Santiago, produzindo grave dano à cidade. O Cabildo Compostelano consegue reverter a situação e Santiago é proclamado Patrono da Espanha.

Após a ocupação francesa, Santiago de Compostela tornou-se um baluarte conservador carlista, apoiando a pretensão da restauração da dinastia dos Bourbons no trono espanhol, de acordo com os parâmetros do Antigo Regime. Com a vitória liberal, os vencedores castigam a cidade favorecendo a Coruña, capital provincial, em detrimento de Santiago de Compostela, que, no entanto, é capital da Comunidade Autônoma da Galícia.

O cinturão de modernidade que envolve a cidade não diminui o impacto da visão de seu centro histórico, considerado pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade, desde 1985. (O próprio Caminho é Patrimônio Cultural Imaterial, desde 1993).

Somando-se aos milhões de peregrinos dos onze séculos de peregrinação, o peregrino moderno atravessa a cidade em passos rápidos, ansioso por encontrar a catedral.

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Diferente do rendilhado gótico da catedral de Burgos e sem os preciosos e multicoloridos vitrais da catedral leonesa, a de Santiago de Compostela é um monumento à arte barroca. Ela não se eleva, clara e etérea, em direção aos céus. Ela se assenta, firme e escura, sobre a terra. Ela não quer levar os homens a Deus. Quer trazer Deus aos homens. Não é um monumento a Deus-Pai. É um monumento à Mãe-Terra. Nas outras, as torres, seguradas por mãos celestes, sustentam o templo. Nesta, o templo sustenta-se por si só, enraizando suas torres e colunas no útero da Terra. É imponente. É bela. É uma joia em pedra.

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Seu interior apresenta uma subterrânea obscuridade, oposta à semiluz celeste das catedrais góticas. E em oposição às rosáceas e zimbórios destas – que convidam a olhar para o alto -, a compostelana, despida de outros atrativos, convida a focar o olhar no dossel dourado que se sobrepõe ao altar do apóstolo e cuja descrição exige o uso de superlativos. Sentado em seu trono, imobilizado pelo toque de Midas, está Santiago, todo em ouro e pedras preciosas. Seu cajado peregrino, há séculos sem uso, é apenas um adorno.

Plaza del Obradoiro. Seu nome faz alusão ao local de trabalho dos operários encarregados de esculpir em pedra que funcionava na praça durante a construção da catedral. A ela chegam todos os dias centenas de peregrinos.

Hostal de los Reyes Católicos. De estilo renascentista, a hospedaria iniciou a ser construída por ocasião da visita dos Reis Católicos Fernando e Isabel, em 1486, para atender aos peregrinos. As obras duraram dez anos; parte dos custos foram cobertos com o espólio de guerra na vitória sobre os muçulmanos em Granada; outra parte veio de doações feitas por pessoas em busca de indulgência papal. Em sua fachada podem ser vistas de baixo para cima: as imagens de Adan y Eva, Santa Catalina e Santa Lúcia, San Juan Apóstolo e María Magdalena; no friso: os doze apóstolos e os medalhões dos reis Fernando e Isabel; à direita da janela central: Cristo, Santiago Mayor e San Pedro; à direita da janela central: La Virgen con el Niño, San Juan Evangelista e San Pablo e, nos pináculos: seis anjos com instrumentos musicais.

Palacio de Rajoy. É um edifício do século XVIII, estruturado sobre vários outros pré-existentes, a mando do arcebispo Bartolomé de Rajoy, em estilo neoclássico, para servir como Seminário de Confessores, residência dos meninos do Coro da Catedral, Casa Consistorial e como cárcere. Seu frontão central traz uma imponente escultura de Santiago Matamoros e relevos que reproduzem a Batalla de Clavijo, ocorrida no ano de 844, na qual criou-se o mito da intervenção milagrosa de Santiago em favor dos cristãos.

Colegio de San Jerónimo. Fundado pelo arcebispo Alonso III de Fonseca, no século XVI, para atender estudantes pobres. Atualmente é ocupado pela Reitoria da Universidade. Seu portal, em estilo românico, pertenceu ao antigo Hospital de La Azabachería. Nele se podem ver as representações de Santiago, San Juan e San Francisco, à esquerda, e San Pedro, San Pablo e San Mauro, à direita.

Monasterio de San Martín Pinario. Convento beneditino do século XI, de estilo barroco. O monastério cresceu de tal maneira que ao final do século XV converteu-se no mais rico e poderoso da Galícia. Foi reedificado quase por completo a partir do século XVI e tornou-se supervisor dos demais monastérios galegos. Atualmente nele funcionam o Seminário Maior Compostelano e as sedes das Faculdades de Teologia e de Trabalho Social, além de museu e hospedaria. Sua fachada tem a estrutura de um retábulo e mostra as figuras de La Virgen con el Niño e de vários santos abades beneditinos. Ao centro, no alto, está San Martin de Tours a cavalo, cortando sua capa para dividi-la com um mendigo.

Do século XIII, o Monasterio de San Paio de Antealtares abriga Monjas Pelayas, que vivem em clausura. Sua igreja contém magníficos retábulos barrocos e um órgão do século XVIII e é local de concertos de música barroca.

Todo o centro histórico merece uma visita demorada. E, além de vários parques, a cidade é rica em museus: o Museo del Pueblo Gallego, intalado no Convento de Santo Domingo de Bonacal; o Centro Gallego de Arte Contemporáneo; o Galícia Digital, no monastério de San Martín Pinário; o Museu das Peregrinações; o Museu Cardinalício; o Museu da Fundación Eugenio Granell; o Museu de Arte Sacra; o Museu da Terra Santa e o Museu de História Natural.

EPÍLOGO

Conta-se….

Santiago estava sentado junto a uma das praias de Muxia, desanimado com os poucos resultados na conversão dos galegos. Pensava seriamente desistir e voltar à Palestina, onde haveria de ter melhor sorte. Seu desânimo transformou-se em intensa alegria quando viu aproximar-se da praia uma barca e reconheceu a Mãe do Salvador, nela embarcada.

Dirigindo-se ao Apóstolo, a Virgem animou-o a prosseguir na evangelização, acrescentando que tanto ela quanto Cristo estariam sempre a seu lado para confortá-lo. Dito isso, a imagem de Maria Santíssima dissolveu-se no ar.

Reanimado, Santiago continuou sua pregação, mas sem grandes resultados. Anos depois, iniciou seu retorno à Palestina, atravessando a Península Ibérica exatamente por onde seria a futura rota jacobeia. Passando por Zaragoza, novamente a Virgem o visitou, e deu-lhe um pilar de pedra que pediu que fosse usado como base para uma imagem dela. Feito isso, Santiago voltou a pregar e reuniu em torno de si sete discípulos a quem encarregou de continuar sua obra. Voltou, então a Jerusalém, onde seria preso e executado a mando de Herodes.

Dois de seus discípulos – Teodoro e Atanásio -, temendo que o corpo do Apóstolo fosse enterrado em local secreto para evitar seu culto, apossaram-se dele e o embarcaram em Jaffa, deixando que a Providência lhe desse destino. Acompanhando o corpo, os dois discípulos foram levados através do mar Mediterrâneo até desembocar no oceano Atlântico e dali as correntes marítimas os empurraram para o Norte, até as terras galegas. Foram dar na praia da cidade céltico-romana de Iria Flavia, atual Padrón.

Teodoro e Atanásio conseguiram das autoridades locais que o corpo fosse transladado à terra. Uma vez colocado sobre uma carreta, os bois começaram a andar sem que ninguém lhes indicasse o caminho. Andando dia e noite, só pararam quando chegaram à fortaleza de Castro Lupario, onde caíram de exaustão. Naquele exato local o corpo foi sepultado. Seus discípulos continuaram a pregar, mas sem afastar-se muito da região, para preservar o túmulo e cultuar o santo.

Séculos se passaram e o túmulo, o santo e os discípulos foram esquecidos. Caiu o Império Romano. Os mouros invadiram e conquistaram a Península Ibérica. E, no século IX, o rei das Astúrias Alfonso II, o Casto, libertou a Galícia do domínio muçulmano.

Corria o ano de 813. O cristianismo havia, enfim, vencido as crenças pagãs e o bispo Teodomiro era o líder espiritual da diocese de Iria Flavia. A ele se apresentou um santo ermitão de nome Pelayo que relatou um assombroso fenômeno de queda de estrelas em local próximo da gruta onde vivia recluso, no bosque de Libredón.

Convencido de que se tratava de uma mensagem dos Céus, Teodomiro e seus auxiliares fizeram-se guiar por Pelayo até o local do prodígio. Lá chegando, encontraram ruinas da antiga fortaleza e, escavando, deram com um altar sob o qual havia uma tumba com uma inscrição: “Aqui jaz Tiago, filho de Zebedeu e Salomé”. O bispo entendeu de imediato que se tratava do discípulo de Jesus Tiago Maior, irmão de João Evangelista.

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Sobre os restos mortais do santo foi construída uma capela, que passou a ser visitada pelos milagres atribuídos a Santiago, até tornar-se foco de peregrinação. A capela transformou-se em igreja, a igreja foi ampliada várias vezes ao longo dos séculos, até tornar-se a bela catedral barroca que conhecemos.

Os primeiros peregrinos, do século IX, foram os precursores que abriram o Caminho, ao qual somos chamados a nos juntar às águas peregrinas, num constante fluir em direção a Santiago de Compostela.

¡Buen Camino!


Bibliografia

“Espanha” – Lonely Planet/España – Editora Globo, São Paulo, 2013

“El Camino de Santiago a Pie” – Santiallana Ediciones Generales, Madrid, 2004

“Águas Peregrinas” – Inácio Stofffel – Editora Nova Letra, Blumenau, 2006

“Lendas do Caminho de Santiago – a rota através de ritos e mitos” – Juan G. Atienza – Madras Editora AS – São Paulo, 2002

“O Ornamento do Mundo” – María Rosa Menocal – Editora Record, Rio de Janeiro, 2004

Wikipédia – Projeto de enciclopédia multilíngue de licença livre. Fundação Wikimedia, São Francisco, USA. Pesquisa em textos de história, locais e turismo.

Sites oficiais (Portal del Ayuntamiento) das localidades do Caminho

Folhetos turísticos das cidades de Burgos, León e Santiago de Compostela, edições de 2015.

Fotos: 1. Sites da cidade ou da igreja/catedral retratada. 2. Catarina Rüdiger: Cristo de Furelos e monumento ao peregrino em Santiago de Compostela. 3. Inácio Stoffel: marco do Caminho (capa), Alto de Erro, Ermida de Eunate, fachada da igreja de Santiago em Carrión de los Condes, vitrais da catedral de León e fachada da igreja do monastério de Samos.