A Catedral

Lígia Maria Knabben Becker

O sol do outono trespassou a janela e iluminou o rosto de uma mulher. Seus dedos longos seguravam o álbum de fotografias envelhecidas, agora aberto em revelações de momentos vividos naquela primavera distante em terras ibéricas: o tempo dos seus passos firmes e decididos a caminharem por montes, campos, vilas, templos, pontes, castelos, onde pudessem encontrar vestígios de história, arte, tradição, Natureza e quem sabe, até da Divindade. Não estava em seus planos passar-se a limpo e revelar-se a si própria.

Era tempo de experimentar sentimentos novos e despertar os adormecidos.

O tempo do Caminho de Santiago de Compostela!

Um mundo de cores, imagens, cheiros, sons parecia tomar vida pela casa espanando memórias e seus significados.

A paisagem ibérica falava dos bosques de castanheiras e de carvalhos, do canto do cuco, dos campos de trigo, das papoulas e dos pimentões. Dos albergues, das pontes, castelos, igrejas e cidadezinhas medievais, dos Cruzeiros, alminhas, das imponentes Catedrais de Leon e de Burgos.  Dos figos, amoras, uvas, ameixas e peras colhidos à beira do caminho. Da chuva, do sol, do vento, da poeira e da lama. Das setas amarelas, das vieiras, dos cajados. Do vinho e do pão. Da sopa de alho e das lentilhas. Do menu peregrino. Das botas, do saco de dormir, beliches, mochilas. Dos choros, dos descontroles emocionais, dos questionamentos de toda ordem, das aflições espirituais, das saudades dos entes queridos, das bolhas nos pés e cansaços gigantes. Dos encontros e desacertos. Das orações, das massagens curadoras, das refeições compartilhadas. Dos roncos e cheiros em várias nacionalidades. Da glória da Catedral de Santiago. Do abraço amigo ao celebrar a chegada em um só idioma. Do abraço ao Santo. Do botafumero e do canto da freira soprano na Missa do Peregrino. A explosão e o choro da alma. De Finisterre. Da partida de volta para casa.

A história, envelhecida, retornava agora de maneira nutridora e consciente em seu ser e aos poucos desenhava na sua mente um Santuário, de minúcias góticas construídas sob a visão medieval nascida na borda de uma era quando se tentava alcançar com as alturas de suas catedrais o estar mais perto de Deus, transformando espaços escuros em luz, obtidos com janelas, vitrais e esplendorosas rosáceas.

A luz entra e toma seu lugar simbólico na vida do ser humano, pensava. A luz!

Não lhe acontecera algo semelhante? Toda a imagem construída sobre ela mesma estava ligada aos seus primeiros relacionamentos, aparência física, papel, carreira, padrões sociais e culturais, e por aí afora. Na verdade, ela era a soma de todos eles.

Era a soma de todas as suas escolhas. Ainda assim, permaneciam perguntas lá no fundo, escuro: quem realmente era? Quem tinha sido no processo do caminhar um longo caminho como o de Santiago de Compostela ou no caminho, também longo, da sua vida? De que forma fora construído seu templo interno?

A rosácea permanecia apontando o caminho majestoso das cores e formas de um mundo interior riquíssimo e ao mesmo tempo lotado de imperfeições.

As dores, aflições, medos e desafios foram tijolos e pedras na sua formação de base como um ser espiritual que vive uma experiência humana.

Também como o artista medievo deixara entrar réstias de luz na sua consciência, no seu despertar tantas vezes sofrido.

Enumerava devagar os variados trabalhos em busca de luz para sua consciência: há tempos, alguém lhe mostrara o caminho antiquíssimo dos ensinamentos orientais com a meditação, respiração, artes marciais. Até socorreu-se com a assistência psicanalítica e psicológica. Foram tantos caminhos usados para abrir as gavetas trancadas na sua mente…inclusive o de Santiago.

Rememorava ainda, que mais tarde, ao esplendor românico e gótico das construções e também da Catedral de Santiago, sobrepõe-se o barroco com muitos adornos, altares, esculturas, colunas detalhadas, policromias, criações em ouro.

Foram as extravagâncias e as muitas paixões da sua vida o seu lado barroco, refletia. O exagero do rebuscamento externo em detrimento da alma lavada e simples, em processo inconsciente do sentido da vida.

Novamente faiscavam na sua memória as rosáceas, agora a da Catedral de Burgos, depois a de Leon, brilhando na sua mente: a rosácea seria a representação do seu ser maior? Do seu Espírito?

O círculo mágico, representando o sol e sua trajetória no céu para povos da antiguidade fez com que ela se permitisse viajar em direção ao seu próprio sol central experimentando uma sensação de plenitude e união com o Divino. O que seria aquilo?  Um novo estado de ser? Do ser encolhido e com pouca luz de consciência à centelha divina que descobrira ser! Surpreendeu-se com o entendimento de que não precisaria que o outro preenchesse o seu vazio e celebrava a completude de si mesma, a outra metade perdida de quem realmente era.

Além dos pés, o seu caminho havia sido feito com o coração que às vezes batia dentro do seu cérebro. Toda aquela jornada havia mostrado a importância do processo do largar o desnecessário ao longo do trajeto, com seu peso demasiado, desnudando aquela peregrina e mostrando-lhe o caminho desconhecido. Era preciso coragem. E ela teve.

Percorreu vales, montes muitas vezes cheios de demônios (interiores) e anjos, o terror do desconhecido, da solidão, até descobrir uma conexão com o fluxo da vida em fontes internas. Será que seus pés tinham conseguido recolher a sabedoria da Mãe-Terra em cada passo dado?

Sim, aos poucos sua história foi sendo moldada a sua catedral interior brotava, esculpida na riqueza do simples e do sentir.

Assim como a Catedral de Santiago, adornada com segredos do passado, abraçava uma multidão dentro de si, mãe amorosa acolhendo milhares e milhares de peregrinos alvoroçados em seu seio nutridor e farto, mãe anciã pela permanência na forma e na dignidade da sua poeira, do sol, do vento, da chuva dos séculos e cujo destino escrito fora por mãos habilidosas, erguia-se a outra Catedral, interior, sábia, serena, silenciosa e conectada com seu propósito divino de retornar ao seu próprio centro. O sonho secular no silêncio.

O caminho Sagrado da alma peregrina havia sido feito, chegara à Catedral, ultrapassando o Pórtico da Glória com os passos da compaixão, da alegria, da solidariedade, do desapego, do exercício do amor e principalmente com uma parcela de autoconhecimento.

A mulher saboreava a memória singular da jornada da sua alma e do momento quando encontrara a chave que abriria a porta da Catedral dentro da gaveta do seu sentir, a chave que abriria a porta do seu santuário interno, e mais – aquela chave abria somente pelo lado de dentro, o da sua alma, una com o Todo e cheia de Luz!