Aprendiz da vida

por Jairo Ferreira Machado

 

Não sei de quantos caminhos é feita uma vida, sei, no entanto, que o Caminho é chama, um convite ao desafio, um acalanto para a alma, que você não sabe de onde vem, se foi mesmo alguém que o convenceu a caminhar ou foi o clamor mais profundo do seu corpo, você não sabe como tudo aconteceu, se o Caminho nasceu em sua mente, se acendeu profícuo no seu peito, se agigantou em seu coração, e se alimentou do seu querer, dos seus pés, de suas botas, do seu sistema vascular, você sente apenas que o caminhar escorre pelos seus poros e enrubesce o seu rosto, e no seguimento da vida você vai devorando morros, colinas, baixadões, descidas, “se ninguém me pergunta, eu sei por que caminho, se alguém me perguntar, já não sei explicar”, apenas vou, pois sou peregrino, levo às costas uma mochila carregadas de coisas de primeiras necessidades, na cabeça um sonho, um chapéu, um boné, sustento no cajado meus tropeços, levanto aqui, acolá, no alforje a garrafa d’água, longe uma sombra, tanto pode ser uma nuvem passageira, uma árvore frondosa à beira do caminho ou uma miragem, paro ali, arrio a mochila, bebo, se houver comida, como, olho para o horizonte, os raios de sol tremulando nos meus olhos, como o lampejo de luzes multicoloridas, por instantes fecho os olhos, agora me vejo por dentro, sou mais bonito que pensava, ouço a linguagem dos meus neurotransmissores, todos senhores da minha vida, cada um a seu tempo, uns vão outros vêm, penso, este verdadeiramente sou eu, ah, então é isso!, agora sei explicar por que caminho: um luzeiro se acende no meu corpo, como um caleidoscópio em forma de gente, sou gente, sou muito mais que carne e osso e preocupações com o ter, isto é o que sinto e que não sabia explicar, posso ver os matizes dos pássaros pousados na árvore que me sombreia, ouço o canto deles, são dezenas, observo a aranha fazendo sua armadilha, os bichos, os insetos indo e voltando, fazendo o seu próprio caminho, sou um peregrino, sou o céu, o azul do céu, as montanhas lá distantes, nem me passa pela cabeça os arranha-céus das cidades, agora é outro o meu caminho, eu sou outra pessoa, vou com minhas coisas poucas, e muito do meu ser, tudo resgatado com satisfação, embora haja dores aqui acolá, sempre há um peso a deixar pelo caminho, mas o que importa algum sofrimento?, importa sim, o caminhar e se descobrir, há um mundo desconhecido na essência de cada ser, que somente alguns poucos descobrem a tempo.

O Caminho me ensinou os passos, as encruzilhadas da vida, os percalços, e me ensinou a viver o que eu não sabia antes…