O bom filho à casa retorna

                                                                                                      Osvaldo Edgard Hoffmann

Durante o Caminho, às vezes eu tinha a impressão de que certos locais me eram familiares, que realmente os conhecia, mas não sabia como nem de onde. Porém essa sensação se acentuou principalmente quando passei pela região de Léon, mais especificamente por Terradillos de los Templarios.

Nesse dia, caminhava na companhia de muitos peregrinos. Coincidentemente entre nós, naquele momento, muitas eram as nacionalidades e com todos, como de costume, procurei me comunicar como pude. Tanto as horas como os quilômetros naquele dia iam passando rapidamente. Andava por uma trilha linda com paisagens, como sempre, de tirar o fôlego.

A certa altura do Caminho, com sol mais a pino, parei para descansar e por ali permaneci até me restabelecer. Os demais continuaram.

Minutos depois, continuei minha jornada. Andava por um trecho com lindas árvores. Nesse local, deparei-me com um grande tronco caído ao lado da trilha, coberto de limo. Parei e passei a observá-lo. Agachei-me para ter uma melhor visão do interior daquele enorme tronco já deteriorado pelo tempo.

Nos momentos em que ali permaneci observando-o, tive a impressão de que a terra tremia. Não sabia ao certo se tal vibração vinha da terra ou se eram de minhas pernas que tremiam pelo cansaço da caminhada. Resolvi então sentar em uma pedra próxima até que aquela sensação passasse.

Ali sentado passei a escutar algumas vozes, que pensei ser de peregrinos que se aproximavam, porém ninguém aparecia e o som das vozes só aumentava.

Fiquei à espera dos peregrinos, que não davam sinal. Foi quando de repente, sem que eu percebesse, eles começaram a passar em minha frente. Eram muitos e muitos. Não imaginava tantos. Percebi que eram diferentes: eram homens barbudos de aparência e roupas estranhas, acho que de outros tempos, tinham cabelos compridos; observei também que usavam espadas e facões na cintura. Confesso que aquilo me assustou.

Ali parado, assustado e sem entender, continuei observando-os um a um enquanto à minha frente desfilavam. Não percebiam minha presença, era como se eu não existisse para eles. Andavam apressados e falavam alto em outro idioma, porém, não sei como, eu os entendia. Pareciam estar resolvendo ou discutindo algo.

Dentre eles, um chamou-me a atenção. Quando fixei o olhar nele, de imediato ele me olhou sério e fitou-me diretamente nos olhos. Nesse momento, lembro-me bem, tudo se passou em câmara lenta e, para minha surpresa, eu me reconhecia nele. Era eu, de feições muito diferentes das minhas atuais, porém tinha a certeza de que era eu naquele homem. Conseguia sentir o que naquele momento ele sentia, num sincronismo só de pensamentos e sentimentos.

Dentro daquele homem, que também era eu, havia uma busca pelo Caminho. Era um desbravador, um conquistador, que se sentia responsável por sua segurança e o fazia com muita fé. Algo indescritível!

Hoje, aquele homem – um eu de tempos atrás – faz parte daquele Caminho, como tantos outros que por ali já estiveram nas mais inusitadas situações. Suas impressões e sentimentos se encontravam ali impregnadas, dando vida e continuidade ao mágico Caminho.

A cena agora se repetia. E, uma vez mais, eu ali me encontrava em busca do Caminho, com outra forma, em outra época e, principalmente, com outros porquês. Aquele Caminho ainda continuava a me impressionar e a me chamar, reacendendo e confirmando mais uma vez a sua magia.