O Que se ganha no Caminho?

Vitor I. de Oliveira Thibes

Eis aí uma pergunta que merece uma reflexão criteriosa se não quisermos enveredar por respostas superficiais e sem conteúdo. Vamos lá!

Primeiro vamos exercitar um pouco a imaginação. Imagine-se só, ou em um grupo, caminhando em média trinta quilômetros por dia, sentindo cansaço, enchendo os pés de bolhas, experimentando alguns momentos de compartilha e muitos outros de solidão. Por outro lado imagine as belas paisagens que terá a oportunidade de contemplar, as deliciosas fontes nas quais saciará a sede, e os momentos de prazer onde dará boas risadas na companhia de outros caminhantes.

Agora que você já imaginou, poderia responder a pergunta “O que se ganha no Caminho?”.

O que se ganha no Caminho é um patrimônio só seu, agregado à sua história e à sua personalidade. É um patrimônio nitidamente individual, sobre o qual se pode teorizar um pouco, mas sem a pretensão de obter uma resposta definitiva.

O que se ganha no Caminho é um crescimento pessoal, um amadurecimento, uma oportunidade de ver o mundo de uma forma diferente daquela vista no dia a dia, quando os afazeres, a família, os amigos e negócios acabam por ocupar as mentes e corações.

Como que se dá este crescimento? Em primeiro lugar, depara-se com a imperiosa necessidade de tomar urgentes decisões, de fazer escolhas, de arriscar. A cada momento é preciso decidir solitariamente qual o próximo passo, pois cada caminhante tem o seu próprio ritmo e é quase que impossível haver um caminhar cadenciado de forma que o grupo ande sempre junto. Tem-se que decidir, escolher com quem quer compartilhar a caminhada, ou se quer andar só. Arrisca-se a pegar trilhas erradas, a ter que pedir ajuda a pessoas que não conhece e, principalmente, arriscar a mostrar suas fraquezas, fragilidades, a tirar a fantasia de “Super-Homem” ou “Mulher-Maravilha”.

Em segundo lugar, tem-se que aprender a lidar com as frustrações. Não se frustra no Caminho? Mas é claro que se frustra. E como! A cada momento as expectativas são arrasadas como se estivessem sendo atingidas por mísseis de alto poder de fogo. Espera-se encontrar muito prazer, mas a realidade é que junto com ele vem a dor. Dor no corpo, nos pés, ocasionadas pelas bolhas e quedas, sem contar a dor da solidão, da rejeição. Mas tem-se que lidar com estas frustrações, visto que as alternativas existentes são caminhar ou… caminhar; pois ficar chorando as frustrações só resultará em atrasos na caminhada e no acúmulo de maiores dores do que as já sentidas.

Em terceiro lugar, há o aprendizado quanto ao respeito aos limites. Aos individuais e dos outros, aos limites físicos e psicológicos. Faz-se necessário o rigoroso respeito aos limites do corpo, pois se não houver este respeito, certamente ocorrerá a interrupção da Caminhada por exaustão ou fraturas. Há que se respeitar os limites psicológicos, não permitindo a invasão de seu espaço pessoal para agradar quem quer que seja, é necessário que se deixe bem claro quem fará parte, e até onde, da Caminhada de cada um. Isto é fácil? É claro que não, pois muitas vezes deixa-se invadir para agradar o outro, para fazer o papel de “bonzinho”, e o que se acaba ganhando é stress e mau humor. Mas, há o outro lado da moeda, que é a necessidade de respeitar o limite dos outros, sob pena de se transformar numa pessoa chata, que acaba por ser excluída do grupo. Pessoas que gostem de conviver com “chatos” por longos períodos não estão disponíveis por aí.

Em quarto lugar, deve-se exercitar uma comunicação clara e objetiva. Ao caminhar depara-se com pessoas vindas dos mais diversos locais, trazendo consigo as mais diversas histórias. Pessoas oriundas de culturas diferentes e com diferentes modos de se comunicar. Assim, se a comunicação não for clara e objetiva, o terreno para maus entendidos e desavenças está pronto para ser semeado. E o que é uma comunicação clara? “Quero isto”, “Não quero isto”, “Isto eu posso fazer”, “Isto eu não estou disposto a fazer”. Quando se exercita este tipo de comunicação, sente-se entendido e também entende o outro. Isto é agradável? Nem sempre, pois desde criança acostuma-se a manipular o outro para que faça aquilo que se quer, sem necessidade de se responsabilizar por isto. Mas na Caminhada tem-se a grande oportunidade de exercitar uma boa comunicação, até para se evitar situações constrangedoras.

Em quinto lugar exercita-se o aprendizado do desapego. Aprende a se livrar daquilo que é supérfluo, mesmo que se goste muito. Isto se dá, principalmente, pela necessidade de se livrar do peso excessivo da mochila. E como é difícil livrar-se de algo que há tanto tempo é carregado, e com tanto carinho. Mas é preciso que se livre, sob o risco de sucumbir pelo elevado peso da carga, e não conseguir alcançar o objetivo, que é uma caminhada leve, com a chegada ao ponto final.

Sexto ganho muito importante é a necessidade de lidar com as diferenças, tanto as suas como às dos demais. Explico: no Caminho há a necessidade de conviver com as mais diferentes pessoas e situações. E tem-se que conviver com todos, pois cada um tem o seu objetivo e sua meta, além do seu jeito próprio de ser no mundo e de nele expressar-se. E urge que se conviva harmoniosamente, desenvolvendo um profundo respeito pelo outro e pelo seu modo de ser. Se não souber lidar com as diferenças é certo que terá problemas, pois a qualquer momento encontrará alguém com quem precisa conviver, nem que seja por um curto espaço de tempo. E com suas diferenças? Estas então são as mais importantes, pois estarão junto consigo nas vinte e quatro horas do dia.

Em sétimo lugar deve-se falar do maior de todos os aprendizados: lidar com as perdas. A todo o momento perde-se algo na Caminhada. Um objeto que desaparece, um sol que é encoberto por uma nuvem, uma unha que cai, uma oportunidade de tirar uma foto que é desperdiçada. E a maior delas? Perder a companhia daqueles que compartilharam as alegrias e tristezas do caminho. Na vida, como no Caminho, as pessoas entram e saem a todo o momento. E isto doi um bocado, pois se quer levar consigo os tesouros que encontra, mas como? Os tesouros devem ser guardados no coração e é lá que devem ficar. Quando se reencontrar com os companheiros de caminhada será ótimo, mas quando distantes estiverem deve-se lembrar deles com carinho e gratidão, pois a vida permitiu que juntos se caminhasse por um pequeno trecho e também permite que juntos estejam a cada dia através da lembrança.

Em oitavo lugar abre-se o espaço para a espontaneidade. Libertos, mesmo que temporariamente, dos papéis sociais (pais, professores, dirigentes, esposo(a), empregados, patrões, etc), pode-se permitir ser visto por inteiro, mostrando as fraquezas, as limitações, os talentos, as habilidades. Vê-se que é possível dar risadas de si mesmo e que o mundo não vai acabar por isto, que se pode cometer erros e que nem por isto a caminhada vai acabar, pode-se permitir a dar gostosas gargalhadas ou chorar de emoção por ter superado um grande obstáculo e que isto não faz cair pedaços. Pode-se experimentar contatar com aquela criança que habita dentro de si, brincalhona e sensível, e passar bons momentos em companhia das crianças internas dos outros caminhantes.

Enfim, o que realmente se ganha é a humildade. A humildade adquirida ao deparar-se com o Grande Mistério que é a natureza, com suas nuances e diferenças, as quais se repetem no ser humano. Consegue-se perceber, finalmente, a presença da força e da fragilidade dentro de cada coração, e com esta vivência ocorre uma transformação interna no caminhante, acarretando uma mudança em sua visão de mundo. E quando há uma mudança na visão de mundo, nos transformamos, e o mundo se transforma conosco.