O que uma pessoa leva do Caminho de Santiago?

João Batista Sernaglia

Por três vezes estive nos campos e cidades sob a Via Láctea. Por três vezes engrossei a procissão secular, subindo e descendo montanhas, amassando barro, abraçando minhas fraquezas e angústias duvidosas por entre prados e mais nada…

Aqueci minha alma com o sol que escurecia minha pele, lavei meu choro com a chuva, pus-me de joelhos para enxergar o invisível, verti sangue para saciar minha sede piedosa de mim mesmo.

Conversei com meus pensamentos, lutei com meus impulsos e dancei a volúpia do movimento de meus sentimentos. Fui santo, quando rezei; fui humano, quando me despi de todos meus recatos e me tornei animal, doce e feroz, em busca de minha sobrevivência.

A despeito da crença do crescimento durante o caminhar, pergunto aos meus passos com o que eles contribuíram para minha melhoria, enquanto ser. Ouvi meu cansaço, meu mal estar, meu mau humor, meu desconforto, meus encontros. Em uníssono, tive como contraponto que a alegria, o carinho, o gesto amoroso, a gentileza e a generosidade explodem em milhares de estilhaços dentro do peito e me fazem corajoso para o incerto momentâneo. Por quanto tempo? Por toda a vida, pensei. Até que, manhosamente, volto ao conforto do velho conhecido eu. Mas, e todo o sofrimento, a nova arquitetura emocional? Fragilizou-se no primeiro outono. Pois o músculo só endurece com a constância do exercício, configurando-se em novos espaços, que, se não continuarem ocupados, despencam para a morbidez do sempre igual.

Fomos concebidos, a princípio, para a felicidade. Mas, isso exige um merecimento: devemos consegui-la. Na gerência de nossa energia fundamental, fluindo em direção do equilíbrio zen de nossos sentimentos. Aí, sim, encontramos o nosso Graal pessoal e intransferível, mas plenamente influenciável.

Muitos são os caminhos de Santiago dentro de meus sonhos, muitas são as fantasias espiritualistas em minhas veias, assim sou, cheio de desejos e materializações, imperfeito na perfeição divina de meu mais primitivo sopro. Só sei que quando me sinto perdido nas trilhas que escolho, busco sempre as amarelinhas, que me orientam para chegar ao porto seguro do abraço do Apóstolo. De um jeito ou de outro, assim sou: feliz!!!