Um Caminho muito antigo

Inácio Stoffel

No ano de 813, o eremita Pelayo descobriu uma sepultura na mata de Libradón. Comunicado do fato, o bispo Teodomiro afirmou que – por inspiração divina – os restos mortais encontrados pertenciam a São Tiago Maior, apóstolo de Jesus.

Porém, uma análise mais crítica sobre a origem do Caminho pode nos levar a pensar em fraude, pois, além do empenho do bispo Teodomiro, nada prova que os restos encontrados por Pelayo eram de São Tiago Maior. Numa época em que muitas relíquias, milagres e mitos foram forjados, seja para enganar, lucrar, cativar ou incentivar para uma causa, cabe a dúvida: mito ou verdade?

Se traçarmos uma linha de Roncesvalles a Santiago de Compostela, teremos a linha de defesa cristã contra a invasão islâmica. Não muitos anos após a Reconquista ter sido consolidada, o Caminho entrou em declínio. Coincidência?

Além disso, com a política de repovoamento, a partir do século X, a peregrinação ao extremo oeste da Espanha, com o afluxo não só de peregrinos vindos de muitos países, mas também de comerciantes, artesãos, religiosos e soldados, criou populações – uma flutuante e outra fixa – suficientemente grandes para garantir os territórios conquistados aos mouros.

Uma viagem ao passado nos ajudará a compreender a importância do Caminho para a Espanha e para a Europa.

Existem evidências arqueológicas da presença humana na Península Ibérica de 200 mil anos atrás. Buscando abrigo das intempéries e segurança em cavernas próximas de campos de caça e pesca, esses homens primitivos deixaram rastros de artefatos feitos em pedra, madeira e ossos. Com a adoção da agricultura, foram em busca de terras férteis, onde se estabeleceram em precárias moradias por eles construídas e desenvolveram novas tecnologias: potes cerâmicos e utensílios e armas de bronze, substituídos posteriormente pelo ferro.

Devido a seu vasto e pouco explorado território, diferentes povos – com suas culturas, crenças e armas – foram invadindo a Península numa contínua marcha para o oeste, subjugando ou convivendo com os povos que lá já se encontravam. Aos poucos, foram-se criando pequenos povoados; alguns cresceram para tornarem-se vilas ou cidades, ensejando a criação de pequenos reinos, dos quais existem registros escritos em documentos oficiais de reis, de nobres e de ordens religiosas, ou por historiadores que viveram os fatos ou que estiveram muito próximos a eles.

Gregos e fenícios chegaram pelo mar Mediterrâneo e estabeleceram-se no Sul. A cidade fenícia de Gadir (hoje Cádiz) foi tomada pelos cartagineses, que se expandiram e fundaram Cartagena, no Centro-Sul da Espanha, em 227 a.C. No ano de 218 a.C., os romanos iniciaram a conquista do território que chamariam de Hispânia, dali expulsando os cartagineses. Aos poucos, os romanos foram ampliando seus territórios, disputando-os com as tribos iberas. Construíram estradas e pontes, para ligar as cidades e dar escoamento às riquezas que exploravam. Por outro lado, trouxeram aos povos locais costumes, leis e tecnologias de construção, agrícolas e militares sofisticadas para a época. No século I, com a expansão do cristianismo, também a Espanha recebeu evangelizadores e grande parte da população foi convertida. O Império Romano, aos poucos, entrou em decadência.  Em 476 d.C. Roma foi tomada pelos hérulos. Este é o ano que se convencionou como sendo o fim do Império.

Em 711, tropas islâmicas do norte da África, sob o comando do general Tárique, cruzaram o estreito de Gibraltar e venceram o rei visigodo Rodrigo, na Batalha de Guadalete. Nos séculos seguintes, os invasores foram alargando suas conquistas, assenhorando-se do território ao qual denominaram al-Andaluz, que governaram por quase oitocentos anos. A partir deste enclave, expandiram-se em direção ao Norte, encontrando fraca resistência. (Ao longo dos séculos, os califados de Sevilha, Córdoba e Granada usufruíram de extraordinário progresso econômico e cultural, com grandes avanços nas artes médicas, ciências, matemática, astronomia e filosofia, fruto do encontro das culturas muçulmanas, judaica e cristã, que ali conviviam em relativa harmonia). Porém, numa parte das Astúrias, no Norte, o rei visigodo Pelayo descia as montanhas e assaltava os acampamentos dos muçulmanos e as aldeias antes povoadas por cristãos. Pelayo e seus asturianos venceram os invasores na Batalha de Cavadonga, em 722, assegurando a soberania cristã na região.

Em 778, Carlos Magno, rei dos francos de 768 a 814, atravessando os Pirineus, irrompeu com suas tropas na Hispânia, mais defendendo seus próprios interesses em proteger a Aquitânia – província da França – que para dar apoio aos cristãos. Em suas incursões, não por acaso, seguiu rumo ao Oeste, pela rota que mais tarde se tornaria o Caminho de Santiago.

No ano de 813, o eremita Pelayo encontra os restos mortais de São Tiago Maior, conforme o testemunho do bispo Teodomiro. No ano seguinte, o rei de Astúrias Alfonso II ordena a construção de uma igreja no local, para guardar e cultuar a relíquia. Assim, deu-se o início à peregrinação. (Tendo sido expandida por várias vezes, em estilo pré-românico e românico, a catedral dedicada a Santiago foi consagrada em 1211, após o término do Pórtico da Glória, magnífica obra de arte de Mestre Mateo. Porém sua fachada, em imponente estilo barroco, só foi construída no século XVIII).

O rei Ramiro I de Astúrias, em 844, derrota o general mouro Abderramán II na Batalla de Clavijo. Na noite anterior, o rei havia sonhado com São Tiago, que lhe garantira que iria estar presente na batalha, ao lado das forças cristãs. Animados, os cristãos venceram e convenceram-se do milagre. Muitos relataram ter visto o santo montado num cavalo branco, lutando contra os mouros. Nascia e criava corpo o mito de Santiago apóstolo, peregrino e guerreiro.

Alimentada por pretensos milagres, a crença na relíquia foi um impulso importante no ânimo dos cristãos, o que levou à consagração do santo como padroeiro de León y Castilla. A peregrinação a Santiago de Compostela traçou uma linha de defesa de leste a oeste – Roncesvalles a Santiago -, a partir da qual os cristãos avançaram em direção sul.

Um volume crescente de peregrinos espanhóis e estrangeiros punha-se a caminhar em direção ao oeste espanhol, e a consequente necessidade de dar-lhes apoio – albergues, tavernas, hospitais, igrejas, ferrarias, estábulos, – criou ao longo do Caminho uma grande quantidade de vilas e cidades, atraindo artesãos de todas as qualificações existentes. Assim, cada território conquistado era repovoado com cristãos, muitas vezes vindos de outros países, em especial da França.

Em locais estratégicos, foram construídas fortificações para ocupar e manter os territórios reconquistados. Além disso, foram criadas Ordens religioso-militares cuja missão era a reconquista da Península Ibérica e a proteção aos peregrinos. A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, conhecida como Cavaleiros Templários, fundada em 1118, se fez presente na Espanha, e várias fortificações lhes foram destinadas ao longo do Caminho, como a de Ponferrada. A Ordem Militar de Santiago foi instituída por Alfonso VIII de Castilla e aprovada pelo Papa Alexandre III, em 1175, tornando-se uma ordem supranacional; sua insígnia era a espada crucífera, a cruz de Santiago.

Também a Igreja se expandiu com a construção de mosteiros, igrejas e catedrais. O mosteiro francês de Cluny teve grande influência na romanização da igreja espanhola, fundando mosteiros, dando melhor formação ao clero e trazendo à Espanha o estilo gótico de construção de catedrais, como a de Burgos e de León.

O processo de reconquista foi lento porque os reis cristãos mais guerreavam entre si que contra os invasores muçulmanos. E estranhas alianças se formaram. Cristãos e muçulmanos aliados guerreavam contra cristãos ou contra muçulmanos. Estes, por sua vez, também lutavam entre si, cada qual defendendo seus interesses.

Após séculos de luta contra os mouros, em 1492 a Reconquista finalmente terminou sob o reinado de Fernando de Aragón e de Isabel de Castilla, chamados de Reis Católicos. Naquele mesmo ano, Cristóvão Colombo, patrocinado por eles, chegava à América. E, não menos importante, Fernando e Isabel unificaram a Espanha tal como a conhecemos hoje, submetendo ao seu poder também os reis cristãos.

Não satisfeitos com a expulsão dos árabes – com o consequente declínio dos antigos califados de Sevilha, Córdoba e Granada -, os Reis Católicos decretaram a expulsão dos judeus da Espanha, em 1503, revertendo a política de repovoamento adotada por quase cinco séculos e com isso arruinando muitas vilas e cidades, para as quais artesãos, comerciantes e banqueiros judeus em muito contribuíam para seu desenvolvimento e riqueza.

Por essa época, em 1517, Martinho Lutero, monge agostiniano alemão, lança suas “95 Teses de Reforma da Igreja”, motivo que o levou à excomunhão. Enquanto em outras partes da Europa a Reforma de Lutero abria novos horizontes à interpretação da doutrina cristã e, em Veneza e Florença, iniciava o movimento que viria ser chamado de Renascimento, a Espanha tomava o caminho inverso. Apesar das riquezas vindas das colônias da América e da Ásia, da reconquista do território e da unificação do país, a Espanha viveu décadas de obscurantismo devido ao poder absoluto dos Reis Católicos e da voracidade com que o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, criado por Fernando e Isabel, em 1478. (A Inquisição Espanhola – a mais cruel de toda a cristandade – aplicou seus estreitos limites doutrinários até 1834).

Tanto o sucesso da Reconquista – que tornou a linha de defesa Roncesvalles/Santiago superada – quanto os movimentos de Reforma Protestante – de cunho não apenas religioso, mas também político e social – e do Renascimento – que cultuava um maior valor ao uso da razão individual e à análise das evidências empíricas – foram decisivos para a drástica diminuição da peregrinação a Santiago de Compostela.

No entanto, ainda nos dias atuais – apesar da polêmica e da dúvida resultante, e até mesmo da descrença – , não há como não se emocionar com a visão da Catedral de Santiago de Compostela, ponto de chegada dos peregrinos após quatro semanas de caminhada, durante as quais estavam imersos em si mesmos. Cada uma das pedras da vetusta catedral há séculos é impregnada de incontáveis preces e votos de fé peregrina de gerações de celebrantes e fiéis. No altar, Santiago parece reconhecer em si próprio o mítico e místico personagem cultuado ali como se fosse um semideus. O ambiente medieval do templo tem algo de teatral, obscuro e misterioso, ao som metálico e vigoroso do imponente órgão. A bênção do celebrante aos peregrinos, em seus respectivos idiomas, representa a invocação da proteção de uma divindade universal e arquetípica, enraizada profundamente nos corações de crentes e descrentes.

“A Europa se fez peregrinando a Compostela”, afirmou Johann Wolfgang von Goethe, filósofo, literato e estadista alemão. Também é dele a afirmação: “Todas as coisas no mundo são metáforas”. Assim é o Caminho de Santiago: uma metáfora de nosso próprio caminho interior, razão pela qual o Caminho é tantos caminhos quantos são os peregrinos porque é pessoal e único para cada um. E são os peregrinos que tornam sagrado o Caminho, por sua fé, solidariedade e determinação, pois quanto mais avançam pelo seu leito, mais se tornam contemplativos e reflexivos, mergulhando em estados mais profundos de consciência. Então, para o peregrino em busca de si mesmo, passa a ser secundário se as relíquias atribuídas a São Tiago Maior são verdadeiras ou forjadas.