Caminho de Santiago de Compostela

O Caminho de Santiago de Compostela é um cenário de riqueza histórica, arquitetônica e cultural, pois a Espanha é pródiga em monumentos, castelos, prédios públicos, igrejas e catedrais seculares de beleza indescritível. Em 1962 a Unesco atribuiu ao Caminho o título de “Conjunto Histórico-artístico” e, em 1992, o título de “Patrimônio Histórico da Humanidade” à cidade de Santiago de Compostela.

A peregrinação pelo Caminho de Santiago de Compostela é um tempo de reflexão, uma imersão numa vida simples: tudo o que se precisa cabe numa mochila, dormir em albergues com o mínimo de conforto e confraternizar com outros peregrinos, compartilhando atos de solidariedade e fraternidade. Mas, é mais do que isto. Tornando-se mais atento a seus pensamentos, sentimentos e vivências, o peregrino desenvolve um grau de consciência mais apurado, mais intenso e mais presente em suas ações. Esse mergulho em si mesmo resulta numa profunda experiência espiritual, que torna o Caminho realmente sagrado.

Um pouco de história

No ano de 813, o eremita Pelayo foi guiado por uma milagrosa chuva de estrelas que indicava a localização de um túmulo no monte de Libradón, noroeste da Espanha. Comunicado do fato, o bispo Teodomiro mandou efetuar escavações no local, tendo sido encontrada uma urna de mármore contendo restos mortais. Inspirado por revelação divina, o bispo anunciou que os restos ali encontrados pertenciam a São Tiago Maior, apóstolo de Jesus.

Em torno desta revelação, criou-se a história que atribui a São Tiago haver pregado sua fé nos reinos ao norte da Espanha, ainda no alvorecer do cristianismo. Após seis anos de pregação, teria retornado à Palestina, onde foi decapitado a mando de Herodes, no ano de 44. Seus discípulos, para cumprir a tradição de sepultar os apóstolos em locais por onde pregaram, teriam levado seu corpo até a Galícia. O rei de Astúrias Alfonso II ordenou a construção de uma igreja no local, em 814, para guardar e cultuar a relíquia tão milagrosamente descoberta. Assim deu-se o início à peregrinação.

O rei Ramiro I de Astúrias, em 844, derrotou o general mouro Abderramán II na Batalla de Clavijo. Na noite anterior, o rei havia sonhado com Santiago, que lhe garantira que iria estar presente na batalha, ao lado das forças cristãs. Animados, os cristãos venceram e convenceram-se do milagre. Muitos relataram ter visto o santo montado num cavalo branco, lutando contra os mouros. Nascia e criava corpo o mito de Santiago apóstolo, peregrino e guerreiro.

Um volume crescente de peregrinos espanhóis e estrangeiros punha-se a caminhar em direção ao oeste espanhol, e a consequente necessidade de dar-lhes apoio – albergues, tavernas, hospitais, igrejas, ferrarias, estábulos, – criou ao longo do Caminho uma grande quantidade de vilas e cidades, repovoadas por cristãos, muitas vezes vindos de outros países, em especial da França. Religiosos franceses tiveram grande influência na romanização da igreja espanhola, fundando mosteiros, dando melhor formação ao clero e trazendo à Espanha o estilo gótico de construção de catedrais.

Neste mesmo período, foram criadas ordens religioso-militares cuja missão era a reconquista da Península Ibérica e proteger os peregrinos, como a Ordem dos como Cavaleiros Templários e a Ordem Militar de Santiago, cuja insígnia era a cruz de Santiago.

A pequena igreja de São Tiago foi sendo ampliada e modificada, até que, após o término da Porta da Glória – magnífica obra de arte de Mestre Mateo -, foi consagrada em 1211, como catedral, conservando ainda seu estilo pré-românico e românico. Sua atual fachada, em imponente estilo barroco, só foi construída no século XVIII. As pedras da catedral são impregnadas de incontáveis preces e votos de fé peregrina de gerações de celebrantes e fiéis.

Caminho ou Caminhos?

Por toda a Europa há diferentes caminhos – uns menores, outros maiores – todos conduzindo ao mesmo destino: a catedral onde está urna de prata com os restos mortais do Apóstolo São Tiago.

A rota mais tradicional é o chamado Caminho Francês, de leste a oeste, que inicia em Saint-Jean-Pied-de-Port, França, distante 780 quilômetros de Santiago de Compostela. Muitos peregrinos iniciam o Caminho Francês em Pamplona (704 Km), Burgos (484 Km), León (306 Km), Ponferrada (205 Km) ou em qualquer outra cidade ou vila ao longo do Caminho. É bom lembrar que é necessário caminhar por um trajeto mínimo de 100 quilômetros, para conseguir-se o certificado de peregrinação, a Compostela.

O chamado Caminho Inglês, inicia na cidade de A Coruña, distante 80 quilômetros de Santiago de Compostela. Esta rota foi iniciada por peregrinos que vinham de navio de países mais ao norte, como a Inglaterra, e aportavam em A Coruña. Para que possam receber seu certificado de peregrnação, o Cabildo Metropolitano da Catedral de Santiago de Compostela, em 2016, concedeu “a possibilidade de  obter a Compostela àqueles que, havendo feito parte do Caminho em seus países de origem, façam a pé a distância que separa o porto de A Coruña da Catedral Compostelana”. (Esta é a origem do Caminho Brasileiro de Santiago de Compostela, criado em Florianópolis em 2017 e reconhecido pelo o Cabildo Metropolitano da Catedral de Santiago de Compostela, como complementação para totalizar os 100 quilômetros exigidos).

Outra rota é a Via de la Plata, que inicia em Sevilha, do sul ao norte, num total de 1000 quilômetros, basicamente seguindo o caminho traçado pelos romanos para escoar a prata das minas ao norte (principalmente de Astorga) pelo porto de Cádiz, ao sul.

O Caminho do Norte é uma rota medieval pela costa, de leste a oeste; se iniciando em Irun, tem um total de 800 quilômetros.

O Caminho Português pode iniciar em Lisboa ou no Porto, do sul ao norte.

Há, também, o Caminho Português da Costa, o Caminho Primitivo e o Caminho de Inverno. E, para os peregrinos com mais fôlego, há o Caminho Roma/Santiago, num total de 2700 quilômetros.

CREDENCIAL DO PEREGRINO

A Credencial ou acreditação do peregrino é o documento dado aos peregrinos na Idade Média como salvo-conduto. Hoje existe um modelo oficial de credencial distribuído e aceito pelo Escritório de Peregrinação da Diocese de Santiago. Pode ser obtido solicitando-o pessoalmente na Sala de Acolhimento do Peregrino ou em outras instituições autorizadas pela Catedral de Santiago para distribuição, como paróquias, Associações de Amigos do Caminho de Santiago, pousadas de peregrinos, confrarias, etc. Na Espanha e fora da Espanha, algumas associações ligadas à peregrinação foram autorizadas a distribuir suas próprias credenciais com referência ao objetivo da peregrinação na Catedral de Santiago. Em qualquer caso, as credenciais oficiais podem ser adquiridas tanto na Espanha como no exterior, e para receber informações sobre os locais de distribuição de credenciais em seu país, região ou cidade, consulte os links no final desta seção.

Há também uma credencial digital, desenvolvida na forma de aplicativo, que os peregrinos podem baixar e carregar no celular ou outro dispositivo eletrônico.