VII Caminho da Ilha – Nossa experiência

Autores: Clarice Xavier Berka e Maurício Berka

Compartilhamos aqui nossa experiência no Caminho da Ilha. Este texto está publicado em nosso blog www.diariodoscaminhos.com.br.

2011 – Junho, 11 a 18


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Cada um de nós tem sua lista de desejos. Planos a concretizar, sonhos a realizar, metas a cumprir, enfim. Ela existe mesmo que informal, ou seja, pode estar somente lá num cantinho de nossa mente, sem a necessidade de estar numa folha de papel ou numa complexa planilha de Excel com indicadores de probabilidade. Assim é a minha lista; informal. Mas nem por isso é menos importante. No tópico “caminhar muito” constam caminhos e trilhas que já são famosos, como o Caminho de Santiago de Compostela, o Circuito Vale Europeu no vale do Rio Itajaí, caminhada nos Lençóis Maranhenses, Caminho das Missões, da Paz, da Fé, Passos de Anchieta e muitos outros.

O Caminho da Ilha era um dos principais, tendo em vista que é realizado em minha terra natal, a Ilha de Santa Catarina e compreende dar uma volta completa à ilha, a pé, em etapas continuadas, durante oito dias.

A ACACSC (Associação Catarinense dos Amigos do Caminho de Santiago de Compostela) já havia promovido algumas edições, porém sempre aparecia um motivo que me impedia de realizá-lo. Neste ano, porém, decidiram fazer uma edição de inverno e nela tive a possibilidade de me inscrever juntamente com a Clarice que já o havia percorrido na primeira edição (viemos a saber depois, seria a segunda), promovida em novembro de 2006 pela ACACSC e que se encontra relatado em postagem específica em nosso blog (diariodoscaminhos.com.br).

Outra consideração que eu imputava relevante era o fato de que a caminhada sempre vinha sendo efetivada com os membros de nossa Associação e caminhar entre amigos é sempre muito bom. Apesar de ter sido batizado com o nome de “Caminho da Ilha – Inverno”, esta primeira edição ocorreu na última semana do outono, uma vez que houve a necessidade de alterar a data em função de outros eventos.

Tendo em vista que estamos em contagem regressiva para realizar o Caminho de Santiago de Compostela, preparamos nossa mochila com bastante antecedência, colocando nela aquilo que pretendemos levar para a Espanha. A minha lista ficou assim:
Mochila – 1
Meias – 3
Cueca -3
Botas – 1
Papete – 1
Calça bermuda – 2
Camisetas – 3 (duas manga longa e uma manga curta)
Jaqueta impermeável Goretex – 1
Fleece – 1
Calça segunda pele – 1
Camiseta segunda pele – 1
Sobrecalça chuva – 1
Boné – 2
Saco dormir – 1
Necessaire – 1
Toalha banho especial – 1
Câmera fotográfica – 1
Óculos sol – 1
Protetor solar – 1
Repelente – 1
Álcool gel – 1
Canivete – 1
Mini lanterna – 1
Cajado – 1
Corda nylon – 1
Toalhas umedecidas, pacote – 1
Squeeze térmico – 1
Porta Squeeze – 1
Apito – 1
gorro – 1
luvas – 1

Com isso, minha mochila pesava 9,3 kg. A mochila da Clarice tinha basicamente as mesmas coisas, diferenciando naqueles itens específicos de mulher (calcinha, soutien, etc.), mais os remédios, primeiros socorros e pregadores para roupas e pesou 8,4 kg. Esse peso extrapola o máximo de 10% do peso corporal que se recomenda, porém, entendemos que necessitávamos de todos os itens incluídos.

Considerando que na caminhada de São Martinho eu havia tido problemas com a mochila, desta vez fui mais previdente e na antevéspera, já com a mochila cheia, fui para frente de espelhos e comecei a fazer regulagens na mochila, de forma a que ficasse perfeitamente ajustada ao meu corpo, utilizando cada um dos itens de regulagem que são vários. Enfim encontrei o ponto perfeito.

A Associação marcou um encontro numa pizzaria para a véspera da caminhada, onde se faria uma apresentação dos participantes da aventura e passaria algumas informações sobre a caminhada.
Para nossa surpresa, já na chegada ao encontro, ganhamos uma sacola de brindes que nos deixou muito contentes. Na sacola, personalizada com uma estampa relativa ao Caminho da Ilha, continha os seguintes itens; 1 fleece da Curtlo, 1 gorro da Curtlo, 1 camiseta manga curta da Curtlo, todos obtidos através de apoio da própria Curtlo e da loja Capitão Malagueta, mais 1 pochete run, 1 chapéu tipo Australiano, 1 credencial e 1 guia das etapas.

O fleece da Curtlo é elaborado num tecido fino, macio e leve e com proteção UV 50+, atendendo as características que exigimos neste tipo de produto, tendo em vista que não perde a função principal de aquecer e oferece pouco peso e pouco volume, facilitando a acomodação na mochila. Para se ter uma ideia real do que estou dizendo, este fleece pesa 300 gramas a menos do que aquele que estava, até então, em minha mochila para levar na caminhada e que, evidentemente, foi substituído. Este será o fleece que levaremos para o Caminho de Santiago.
Voltando ao encontro na pizzaria, ficamos ali na alegria de criança que ganhou seu presente de Natal, admirando as novidades e conversando, já travando os primeiros contatos com alguns dos participantes.

Nesta edição do Caminho da Ilha havia poucos membros antigos da ACACSC e o Presidente José Alves convidou a todos que se apresentassem ao grupo e, naquele momento, começou uma integração entre todos e se perpetuaria até o final do caminho, com indicação de ser para sempre. Ao final saboreamos a pizza e fomos para casa com aquela ansiedade boa, comum nas vésperas de caminhadas longas.

Não tenho fundamentação científica para afirmar isto, mas em minha opinião, nosso organismo deve liberar alguma substância especial depois que se anda longas distâncias e que nos dá alguma sensação que não conseguimos identificar com precisão naquele momento, mas que nos deixa dependentes dela, uma vez que as pessoas que aderem às longas caminhadas ficam viciadas nisso e anseiam pela próxima vez em que terão a oportunidade de caminhar.

Tão logo chegamos em casa, fomos refazer a mochila, trocando o fleece, o gorro e a camiseta e incluindo o chapéu, o roteiro e a credencial.

1º dia – 11/06/2011 – Sábado [Centro – Praia da Daniela]

Chegamos à Praça XV de Novembro pouco antes das sete horas, horário marcado para a saída, numa manhã fria de um dia de céu claro que prometia muito sol. Logo chegaram todos e fizemos os alongamentos e, numa roda com as mãos dadas, houve uma oração, momento em que cada um busca inspiração no fundo de suas almas e as trabalha com suas razões.

Saímos pela Rua Felipe Schmidt, causando estranheza nos poucos transeuntes que por ali passavam. Descemos pela Rua Deodoro, passamos pelo vão central do Mercado Público e seguimos pela Rua Francisco Tolentino, rumo ao mirante da Ponte Hercílio Luz para ser mais um marco de nossa saída para o caminho da Ilha.

Seguimos nossa caminhada pela Av. Beiramar Norte, onde o sol já havia tomado a decisão de que nos acompanharia naquela aventura e cientes disso, começamos a nos desfazer dos agasalhos. Iniciavam ali os primeiros contatos entre alguns membros do grupo que começava a se conhecer de fato.O Souza, que passeava de bicicleta ali na Av. Beiramar se uniu ao grupo e nos acompanhou por boa parte do trecho deste dia, inclusive cedendo sua bicicleta para que o Manuel, caminhante do Paraná, Português de nascimento, fosse até o Floripa Shopping comprar uma mochila, tendo em vista que não estava confortável com o saco que trouxera para o transporte de seus pertences.

Ao final da “reta das três pontes” a Carlota juntou-se ao grupo que ficou completo para a aventura.
Passamos pelo bairro João Paulo e pela SC-401, de onde acessamos o bairro Cacupé. Ali, naquele acesso a Clarice ainda sentia-se desconfortável com a mochila e o Cláudio (Capitão Malagueta) fez alguns ajustes e ela pode seguir sem problemas até o final da caminhada.

Chegamos na praia de Cacupé por volta das 11h30m e fizemos uma pausa para descanso e lanche.

A praia de Cacupé é um divisor de cenário no Caminho da ilha. Do centro da cidade até ali caminhamos num percurso eminentemente urbano, por ruas e até acostamento de rodovia estadual. A partir dali, teríamos paisagens mais aprazíveis, com praias e mais áreas verdes. Tudo ocorre no seu tempo, como se estivéssemos num processo de desintoxicação gradativo onde íamos deixando o dia-a-dia aos poucos, para irmos nos adaptando ao panorama que passaria a ser predominante. Estamos tão condicionados à correria urbana, que mesmo tendo ao nosso dispor essa nova paisagem, ainda seguimos mais rápido do que o ideal, deixando de parar para ouvir a música da marola das ondas ou para apreciar o vôo das gaivotas.

Depois do descanso partimos rumo ao bairro Santo Antônio de Lisboa que estava lotado de gente aproveitando a agradável tarde de sábado nos restaurantes do local. Veio em seguida a Praia de Sambaqui e, finalmente a Praia do Toló, também conhecida como Praia do Índio onde um barqueiro nos aguardava com o barco Avaí, para fazer a travessia do canal do Rio Ratones, até a Praia da Daniela.

Caminhando mais um pouco, chegamos na Pousada dos Artistas onde pernoitaríamos.
Alguns chegaram ali com certo esforço e algum sofrimento. As bolhas são inerentes a essa atividade e acomete àqueles que estão estreando botas novas ou com alguma situação inadequada em relação aos pés. Porém, não é impedimento de prosseguir na caminhada, desde que tratadas adequadamente (drenar). Quanto a estafa, estamos acostumados a ver pessoas que chegam ao final do primeiro dia jurando que não darão um único passo no dia seguinte e, ao amanhecer, estão lá, preparadas para mais um dia.

Após um reconfortante banho seguimos para o restaurante onde seria servido o jantar. Lá obtivemos com o José Alves o carimbo em nossa credencial.

A noite se apresentava fria e o fleece e o gorro foram nossa salvação.

O jantar estava ótimo e todos comeram com gosto. Fomos dormir cedo para levantarmos descansados no dia seguinte.


2º dia – 12/06/2011 – Domingo [Praia da Daniela – Praia Ingleses]

Passava pouco das 7h30m quando nos agrupamos em frente a pousada, já com o café da manhã tomado, para fazermos os alongamentos e a oração inicial da caminhada, contando com a presença das duas Iaras que caminhariam conosco.

Seguimos em direção à praia onde caminhamos com o sol nascendo a nossa frente, proporcionando bela paisagem de sombra e luz com barcos na praia contrastando com os reflexos no mar de águas calmas. Nesses momentos uma paz nos invade e podemos sentir o quanto somos gratificados por viver nessa ilha maravilhosa.

Caminhamos alguns trechos de pequenas trilhas, sempre voltando a areia da praia, até a Praia do Forte, onde tomamos a íngreme estrada rumo a Jurerê. Ali, fizemos uma breve visita a Fortaleza de São José da Ponta Grossa e seguimos em frente.

No acesso à Praia de Jurerê o Nelinho e sua filha Andrea nos aguardavam. Nelinho, ainda saudoso de sua Arlete caminharia aquele dia conosco, permitindo-nos abrandar um pouco sua recente dor.

Atravessamos toda a Praia de Jurerê pela areia, cruzando com poucas pessoas que por ali caminhavam, curtindo o sol e a gelada brisa. Encontramos a Helen que fazia seu exercício de caminhada.

Tão logo chegamos a Canasvieiras, vimos um grupo de pescadores recolhendo o barco de mais uma tentativa não exitosa ao cerco das tão esperadas tainhas.

Apesar de estarmos no mês de junho, as escunas estavam saindo cheias de turistas. Havia filas deles aguardando a vez de embarcar.

Ali, no início da praia nos aguardavam o Rudi e a Ana Zen que também completariam o percurso daquele dia conosco.

Em Cachoeira do Bom Jesus a Andrea, filha do Nelinho aguardava a passagem dos caminhantes na praia, com duas sacolas com frutas geladinhas (bananas, tangerinas e maças).

Neste momento já estávamos também acompanhados de um cachorro que começara a seguir com o grupo na praia de Jurerê e só nos deixou em Ponta das Canas, onde paramos para almoçar. Cachorros não podem ver uma pessoa com mochila nas costas que começam a segui-las.

Em Ponta das Canas foi a vez do genro do Nelinho, marido de Andrea, empolgar-se com a caminhada, passando a seguir conosco.
Passamos pela praia da Lagoinha e subimos por uma estrada “quase vertical” para acessar a trilha que leva até a Praia Brava. No topo da estrada, os moradores da última casa nos advertiram para tomarmos cuidado com as cobras na trilha, uma vez que ultimamente tinham sido encontradas várias, inclusive haviam matado uma naquela manhã. Com muita atenção descemos pela trilha e fomos para a praia, onde ao final fizemos uma pausa para descanso e recarga das energias visando enfrentar a trilha do Morro da Feiticeira, último trecho antes da Praia dos Ingleses.

Essa trilha, com pouco mais de dois quilômetros e altitude de 110 metros, foi bem difícil de vencer, considerando que ela está com muitas imperfeições e levávamos a mochila às costas, aliado ao fato de que a percorremos no final do dia, carregando também o cansaço por já ter caminhado o dia todo.
A Ana e o Rudi ficaram no apartamento deles e seguimos para o Hotel Porto do Sol, onde desfrutamos das melhores instalações do Caminho.

No hotel, depois do banho a Clarice furou uma bolha que surgiu em meu pé e furou também duas bolhas nos pés dela.

O jantar foi primoroso com ótimo jantar e uma bela mesa de sobremesas.


3º dia – 13/06/2011 – Segunda-feira [Praia Ingleses – Barra da Lagoa]

No café da manhã, servido no ático do hotel, o Beto Colombo reproduziu em seu iPod, ligado a um pequeno e potente amplificador, a mensagem que gravou para seu site na Internet, onde ele mantém uma área intitulada “Como o Mundo Me Parece”, e publica artigos expressando sua visão sobre diversos assuntos. Naquela manhã ele reproduziu o texto “Caminhadas” que citava sua participação no Caminho da Ilha. Leia ou ouça o artigo clicando aqui.

Estava se aproximando das oito horas quando nos alongávamos para adequar o corpo às atividades que estavam por vir. Nosso envolvimento com a caminhada era tão intenso que já não nos dávamos conta de que era segunda-feira. Para nós era mais um dia de caminhada e harmonização com a natureza.

Antes de iniciarmos a caminhada, passamos no supermercado local para comprar lanche e água, visto que no percurso não haveria local onde comprá-los. Assim, além da água contida no squeeze, carregava mais duas garrafas de 500 ml nas bolsas laterais da mochila, onde também levava pendurado o par de meias que lavado na véspera não secara o suficiente para calçar ou guardar na parte interna. Íamos feito varais ambulantes, levando meias, camisetas e, alguns, até cueca, pendurados para tomar sol e secar.

Abastecidos, seguimos em grupo para a praia que estava calma, sendo vigiada pelos pescadores que aguardavam ansiosos a chegada das malhas de tainhas. Assim a praia ficava disponível para ser aproveitada pelas gaivotas e algumas poucas pessoas fazendo a caminhada matinal. Caminhamos até o costão onde fizemos uma pequena pausa. Ali a Clarice foi abordada por uma senhora que se mostrou interessada na atividade e queria informações sobre como funcionava e como participar. Ocorre com certa constância sermos abordados no decorrer de caminhadas por pessoas curiosas ou interessadas. Nestes casos, quando não temos como parar para dar as informações, indicamos consultarem a página da Associação na Internet.

Dali, tomamos a trilha do Morro dos Ingleses e seguimos para a Praia do Santinho, que percorremos pela areia. Aquela manhã ensolarada estava convidativa a caminhadas e o grupo seguia cada vez mais entrosado.

Paramos no pátio do Costão do Santinho para consumir o lanche que havíamos levado, admirando aquela paisagem fantástica que já motivou gente do mundo todo vir conhecer Florianópolis.

Partimos novamente pelo costão para acessar a Praia do Moçambique. A Clarice e eu já passamos por ali muitas vezes, no entanto, desta vez ele nos pareceu especialmente longo. Provavelmente era resultado da fadiga pelo esforço de caminhar carregando a mochila. Sei lá!

Vencidos os 2,7 km do costão, chegamos na areia fofa da Praia do Moçambique que passaria a exigir novo tipo de esforço. Até a pouco, subíamos e descíamos pelas pedras do costão e agora os pés afundavam na areia, deixando, em pegadas, o rastro de nossa passagem, que logo seria apagado pelas ondas que iam e vinham em sua eterna dança.
Caminhamos pela areia somente novecentos metros e tomamos a estrada que margeia a praia.

Eram 13h20m quando paramos na sombra de algumas árvores para descansar um pouco. Momento de tirar a mochila das costas e sentar. Alguns tiram as botas para os pés “respirarem”, outros deitam ou comem alguma coisinha para enganar o estômago.

Descanso feito, pés na estrada. Lá vai o grupo novamente em busca de seu objetivo. Caminhamos ainda quatro quilômetros pela estrada e seguimos para o bosque de pinheiros da Reserva Florestal, pisando num chão amaciado pela grossa camada de folhas e onde o sol se lançava por entre as árvores, avivando com sua luminosidade os contrastes da singular paisagem.

Retornamos mais uma vez para a areia da praia onde seguimos até a rua da pousada. Nossa reserva de água já havia terminado há muito tempo e estávamos sedentos. Ao chegarmos à esquina da pousada, a Clarice, eu, a Mara e Cláudio entramos numa quitanda e compramos uma garrafa grande de água mineral (o Cláudio comprou com gás) e sentamos na frente do estabelecimento onde matamos a sede como se vê naqueles filmes de deserto. Ávidos, sorvíamos o precioso líquido.
Ficamos hospedados na Pousada Recanto da Barra, cujo padrão e asseio contrastavam com nossa última hospedagem.

O jantar seria servido no Restaurante Dois Irmãos. A noite estava muito fria e tivemos que novamente nos abrigarmos com o fleece e gorro. Chegamos um pouco mais cedo e nos sentamos num grupo de oito em uma mesa, tomando cerveja e aperitivando. A Mara pediu ova de tainha frita e a dividiu conosco. Estava como se diz: “um manjar dos deuses”. As piadas rolavam soltas e às gargalhadas aguardamos os demais peregrinos para o jantar.

Chegada a hora do jantar passamos para outro ambiente e ficamos todos sentados numa mesa única, onde fomos surpreendidos com uma excelente sequência de frutos do mar.

Terminado o jantar aos poucos fomos saindo de volta para a pousada buscar o merecido descanso. Já estávamos nos preparando para dormir quando chegou o último grupo, cantando músicas de seresta.


4º dia – 14/06/2011 – Terça-feira [ Barra da Lagoa – Praia do Campeche]

Ao acordarmos cumprimos a rotina de asseio, café da manhã e preparação da mochila. Descemos para alongamento, oração e partida. Nesse dia o Beto Colombo nos trouxe outro tema para ouvirmos e servir de inspiração aos pensamentos do dia. Tendo em vista problemas no sinal da internet que o impossibilitaram de reproduzir em seu iPod a mensagem ele explanou verbalmente o conteúdo de “Quem é sua família”, outro texto de seu “Como o Mundo me Parece”.

Por ser um dia de trajeto sem oportunidade para comprar lanche, passamos numa padaria da Barra da Lagoa e seguimos para a ponte pênsil que seria o marco de nossa partida dali.

Repetindo o que já ocorrera em todos os dias anteriores o sol estava lá para nos acompanhar. Não fosse o frio, nem pareceria estarmos fazendo um caminho no mês de junho. Mesmo assim, o frio só se fazia presente no amanhecer e anoitecer e, diferentemente do sol, não nos acompanhava nas caminhada, percorrendo as areias das praias, desbravando as trilhas ou vencendo as pedras. Desta forma se revezavam para nos fazer companhia.

A primeira trilha do dia, que liga a Barra da Lagoa com a Praia da Galheta, começa com uma subida íngreme e com alto nível de dificuldade para nós que carregávamos uma mochila pesada às costas. Nestes momentos o cajado mostra-se uma ferramenta de muita utilidade, ora servindo como fonte de tração numa subida e, em seguida, como apoio numa descida. As botas com solado especial para terrenos irregulares também ajudam a vencer estes desafios e evitam muitos escorregões.

Naquele dia outro cachorro começou a acompanhar o grupo.

Vencida a subida íngreme, tivemos o bônus da visão em 360 graus de uma magnífica paisagem. Houve pausa para fotos e, neste momento, o Mhanoel Mendes propôs ao grupo fazer um minuto de silêncio para se ouvir a natureza, ao que todos aderiram.

Findo o obsequioso silêncio, alguns externaram seus sentimentos daqueles breves segundos e partimos seguindo pela trilha.

Descemos pela Praia da Galheta que estava deserta e tomamos a pequena trilha que a liga com a Praia Mole. Ali, numa pedra, paramos mais um pouco para admirar a paisagem e ouvir o mar. O Beto Colombo aproveitou a pausa para saciar a sede do cão que nos acompanhava.
Tão logo chegamos na Praia Mole, tomamos uma trilha atrás do Bar do Deca e saímos na SC-406, aonde tomamos o rumo sul, parando num estacionamento de veículos vazio e nos abrigamos na sobra das árvores para descansar e fazer um lanche.

Estava próximo do meio-dia quando partimos para mais uma etapa. Continuamos pelo acostamento da SC-406 até a entrada da trilha do Morro do Gravatá. Ali fomos abordados por uma equipe de repórteres do Jornal Notícias do Dia que se mostrou curiosa em relação ao nosso grupo. Passadas as informações seguimos.

Aquela trilha se mostrou como um segundo desafio naquele dia, exigindo muito esforço para vencer a subida. Novamente a paisagem que se deslumbra lá de cima nos faz esquecer todo o sacrifício. A Carlota, por ter sido acometida com várias bolhas nos pés, precisou caminhar nesse dia com uma papete e por ser impossível vencer aquela trilha assim calçada, optou por seguir até a Praia da Joaquina caminhando pela estrada.

Ao final da trilha, por causa das ocupações irregulares que alteram as trilhas, acabamos saindo nos fundos de uma propriedade onde gado pastava e se mostraram pouco simpáticos ao nosso grupo porque havia um bezerrinho novo por ali. Seguimos com cuidado, margeando o terreno ao lado de um muro e acabamos chegando a um portão que se encontrava fechado. Presos ali, começamos a buscar opções e já nos preparávamos para escalar o muro para pular, quando um grupo achou uma saída por um portão lateral. Nova ameaça por parte de um bezerro, mas saímos sem problemas.
Caminhamos mais um pouco e chegamos na Praia da Joaquina. Entramos no Restaurante Maurílios e nos alimentamos.

Partimos novamente para mais uma etapa. Tendo em vista que a areia dificultava o caminhar, optamos por uma trilha que margeia a praia e é utilizada pelos pescadores. Caminhamos mais de cinco quilômetros naquele piso difícil

Quando chegamos no Campeche, alguns decidiram permanecer na praia para ver o pôr do sol e outros, dos quais nós, decidimos seguir para o hotel, tomar um banho e descansar. Ficamos Hospedados no Hotel São Sebastião que é constituído de um grande terreno com vários pequenos blocos com 4 apartamentos cada, mais o prédio da administração e do restaurante, tudo no meio de muito verde.
Por volta das 19h30m, nos reunimos no prédio do restaurante e enquanto esperávamos, sentados nos sofás do varandão, conversávamos aos grupos.

Jantamos e depois nos recolhemos para o descanso.


5º dia – 15/06/2011 – Quarta-feira [Praia do Campeche – Praia da Armação]

Na manhã seguinte tomamos o café no mesmo ambiente do jantar e, então, percebemos que havia saguis soltos no pátio do hotel e eles ficavam brincando ali perto de nós, sempre curiosos, atentos a tudo.

Após a sessão de alongamentos e da oração, partimos pelas ruas do bairro até a Praia do Morro das Pedras.

O sol impunha-se ao outono e dava luz às paisagens naquela manhã. O mar em seu movimento infinito lavava com suas ondas as pedras que costeiam a estrada.

Subimos ao pátio da Casa de Retiros de onde se tem uma visão ampla da paisagem com as praias curvilíneas e desertas, uma em cada lado, o mar, ao centro, os verdes morros e o céu azul enriquecendo o fundo daquele quadro natural.

Descendo, agora já acompanhados do Souza que lá nos aguardava, rumamos para o Parque da Lagoa do Peri, onde tomamos uma trilha e fomos até o mirante – estrutura de madeira com quatro pavimentos edificada no meio do parque para permitir uma visão geral.

Efetuada a visita, o Mhanoel Mendes nos convidou a ficarmos de olhos fechados por um minuto, em silêncio, na posição que mais nos agradasse, para ouvirmos a natureza e, desta forma, conseguirmos comunicar com nosso íntimo. Terminado o tempo proposto o Mhanoel solicitou que quem quisesse que expusesse sua experiência e alguns dos presentes, emocionados, relataram suas sensações, contagiando a todos.
Cumprir o Caminho da Ilha não é só fazer um exercício físico. Há um significado especial para cada pessoa que o trilha. Pode haver muitos sentimentos envolvidos e cada um sabe dos seus. Mesmo que esta razão não esteja lá na motivação inicial, objetivos novos vão se construindo com o caminho e com a convivência do grupo.
Seguimos mais uma vez, desta, para a Praia da Armação, instalando-nos na Pousada Santa Ana.

A caminhada deste dia foi bem curta e fácil quando comparada a dos demais dias. Não houve morros a subir e se deu em sua maior parte por ruas urbanizadas.

Saímos para almoçar num restaurante em frente a Igreja e, depois do almoço, passamos no supermercado para auxiliar o José Alves, a Maria e o Jota a fazer as compras dos ingredientes do carreteiro e do café da manhã que seriam servidos no dia seguinte. O Souza encarregou-se de comprar alguns ingredientes que não havia ali. Depois fomos ao hotel para descansar.

No início da noite ligamos a televisão e ouvimos que estava havendo um eclipse da lua. Arrumamo-nos rapidamente e saímos para ir ao restaurante para jantar, aproveitando para ver e fotografar o eclipse. Infelizmente ele já estava no fim quando pudemos ver a lua.


6º dia – 16/06/2011 – Quinta-feira [Praia da Armação – Praia da Solidão]

Na manhã do sexto dia efetuamos os alongamentos às 7h30m, depois de já termos tomado o café da manhã e preparado um lanche para levar na mochila e enfrentar mais um dia de muita trilha. Nesse momento recebi uma ligação da Ana Zen informando que ela e o Rudi estavam “presos” no trânsito mas que viriam para caminhar conosco. A Vanisi também ligara para o José Alves informando que viria com duas amigas para fazer o trajeto daquele dia conosco.

Passamos todos no supermercado que fica no mesmo prédio da Pousada para nos abastecermos de água e complemento do lanche e seguimos rumo a praia do Matadeiro.

A Praia do Matadeiro recebeu esse nome porque na época em que se fazia caça às baleias na ilha, era ali que se matava as baleias. Os barcos “armavam” o cerco às baleias na praia da Armação (daí, também a origem do nome daquela praia) e as conduziam para a Praia do Matadeiro ali ao lado, onde, favorecidos pela formação geográfica as encurralavam e se tornavam presas fáceis para o sacrifício.

Juntamente com o José Alves, nos mantivemos no final do grupo, andando lentamente, dando tempo para que os caminhantes visitantes chegassem, o que não demorou a ocorrer.
Naquele dia a maré estava especialmente baixa e a praia apresentava-se extensa. Caminhávamos conversando e tirando fotos quando o sol já começava a se mostrar.

Entramos na trilha que dá acesso a Praia da Lagoinha do Leste às 8h30m. Ventava bastante.

Os quase quatro quilômetros dessa trilha são de uma beleza ímpar. Caminha-se parte em trilhas fechadas, parte em áreas abertas, sempre costeando o mar e tendo uma boa visão dos rochedos e dos arquipélagos “Moleques do Sul” e “Três Irmãs”.
Nesse dia dois cães passaram a nos acompanhar.

Próximo às 10 horas fizemos uma pausa numa relva para descansar e fazer um lanche.

Quando chegamos ao topo da elevação que dá acesso a praia, ventava demais e tínhamos que caminhar com cuidado para o vento não nos derrubar. Assim que saímos do topo, já não sentíamos mais a ação do vento, porém tínhamos que cuidar com a descida que era escorregadia em alguns lugares. O cajado cumpria sua missão ao nos servir de apoio.

Perfilados descíamos na estreita trilha.
Ao chegarmos na praia encontramos na areia um registro efetuado pelo Cláudio de que até ali havíamos caminhado 128 km nos últimos seis dias.

Paramos um pouco para nos agruparmos e depois seguimos para a sombra da bica onde fizemos um merecido descanso. Nesses momentos aproveitamos para tirarmos a mochila das costas, sentarmos e alguns chegam a tirar as botas para dar alívio e respiro aos pés. Cada um descansa da forma que mais lhe agrada.

Com a energia refeita, partimos novamente rumo a praia, onde seguimos ao costão oposto ao da chegada para tomarmos a trilha de acesso a Praia do Pântano do Sul. Essa trilha seria uma subida vertiginosa que numa distância linear de 840 metros, nos levaria do nível do mar até uma altitude de 200 metros.

Naquele momento, nós, ali, num pequeno grupo, compartilhávamos aquela maravilhosa praia com meia duzia de pescadores e três surfistas. O mar batia forte na areia e me fez lembrar de uma poesia de Casimiro de Abreu, intitulada Deus, que constava em nosso livro de Língua Portuguesa nos tempos do Ginásio e da qual sempre gostei. Recitei alguns versos que foram complementados pela Clarice. A poesia diz assim:

“Eu me lembro! eu me lembro! Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia
E, erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca escuma para o céu sereno

E eu disse a minha mãe nesse momento:
‘Que dura orquestra! que furor insano!
Que pode haver maior do que o oceano
Ou que seja mais forte do que o vento?!’

Minha mãe a sorrir olhou pr’os céus
E respondeu: -‘Um ser que nós não vemos
É maior do que o mar que nós tememos
Mais forte que o tufão! Meu filho, é Deus!'”
Sentíamos, efetivamente, toda aquela força da natureza.

A subida foi difícil, mas a vencemos. No topo do morro fomos ao mirante que está a requerer atenção quanto a sua manutenção e de onde avistamos, de um lado a Praia da Lagoinha que percorrêramos a pouco e de outro lado a Praia do Pântano do Sul e Praia da Solidão que seria nosso destino a seguir. Que deslumbramento!

Descemos a difícil trilha até a SC-406 e, pelo acostamento, seguimos para a praia. Ali, no Restaurante Mandala, éramos aguardados com tainha frita e grelhada, num faustoso almoço.

Após o almoço partimos para a última etapa do dia, caminhando pela praia até o final do Loteamento Açores, onde tomamos a estrada por estar a maré muito alta, seguindo até a Pousada Caminho das Pedras para pernoitarmos.

Após a chegada o Jota, que ficara encarregado de preparar o carreteiro para a janta já começou a trabalhar, picando a carne e os temperos, auxiliado por algumas pessoas de nosso grupo.

Ao final da tarde, bem a frente da pousada o sol se pôs por detrás do costão da Praia do Pântano do Sul, indo iluminar outras partes do planeta, onde pessoas o estariam aguardando com o mesmo sentimento com que nos despedíamos dele.

No início da noite foi servido o saboroso carreteiro, acompanhado de vinho.

Após o jantar, sempre de forma colaborativa alguns foram recolher os pratos e cuidar da limpeza.

Enquanto isso, o Beto Colombo pegou um balde e num grupo, começou uma cantoria que se generalizou com o Mhanoel e o Casagrande improvisando instrumentos a base de talheres e pratos e os demais a cantar em uníssono. A Clarice estendendo em frente ao corpo a toalha de louça que usava até então, feito uma porta-bandeira puxou um grupo que desfilou pela sala dançando.

No meio da cantoria o Jota puxava músicas das festas religiosas típicas da ilha e enquanto o grupo cantava, ele simulava a soltura e explosão dos foguetes de vara: – ssssssssshiiiiiii, BUM, BUM BUM! ssssssssshiiiiiii, BUM, BUM BUM! ssssssssshiiiiiii, BUM, BUM BUM! De repente ele faz: – ssssssssshiiiiiii. E todos ficam aguardando os estouros. Dado um tempo ele fala: – Ih! Falhou … vou soltar outro.

A festa continuou até as 9h50m, quando a Maria anunciou que tínhamos só mais dez minutos para, então, nos recolhermos aos quartos para dormir, visando enfrentar a longa caminhada do dia seguinte. Desobedecemos o limite exposto, mas não muito.

A integração do grupo era plena. Uma comunhão. Parecia que nos conhecíamos de longos anos.

Ao final lavamos os últimos copos e fomos dormir.


7º dia – 17/06/2011 – Sexta-feira [Praia da Solidão – Ribeirão da Ilha]

No penúltimo dia cumprimos a mesma rotina de asseio, café da manhã e arrumação da mochila, com o acréscimo de que neste dia a Maria coordenou um grupo de peregrinos que preparou o café da manhã com os suprimentos que haviam sido comprados na Armação. No café da manhã, cada um fez sanduíches extras para levar nas mochilas porque a manhã seria de trilhas sem a possibilidade de abastecimentos.

No pátio da pousada os dois cachorros que nos acompanharam na véspera, aguardavam desde a noite anterior.

Enquanto nos alongávamos, chegou a Odete, que tinha visto o grupo caminhando no Campeche e resolveu fazer uma experiência de caminhar conosco.

Quando saímos o sol iluminava as flores da entrada da pousada, animando a todos.

Tomamos a Trilha da Praia do Saquinho e seguimos em fila indiana sobre a estreita pavimentação de concreto que em alguns pontos se apresentava escorregadia com o limo que se acumula pela umidade.

Depois de cerca de 1,5 km, termina a trilha de concreto e incia-se um trecho com uma trilha bem marcada, ora com mata fechada e ora com vegetação baixa. Há muitas pedras em alguns trechos, impondo-se como obstáculos extras na aventura.
A paisagem é “coisa de cinema”, como nas demais trilhas a beira mar nesta ilha magnífica. As vezes eu me pegava pensando sobre o quanto aquele grupo era privilegiado por estar ali, naquele paraíso, sorvendo por todos os poros e sentidos a magnitude da natureza.

Nossos olhos embeveciam-se com a beleza de tão rica paisagem, a pele sentia o sopro dos ventos e o calor do sol, nossas mãos tocavam a vegetação, os troncos das árvores e as pedras. Nossos ouvidos escutavam atentos ao constante barulho das ondas chocando-se com as rochas ou o sopro do vento, ou ainda, o cantar de pássaros. Podíamos sentir o aroma da natureza.

Nestes momentos a gente se põe a pensar sobre o fato de termos tão perto de nós toda essa exuberância e, de alguma forma, as colocamos tão distantes pelas demais prioridades que elegemos para nossas vidas que as aproveitamos bem menos do que deveríamos.

O grupo em que a Clarice e eu estávamos chegou na Ponta do Pasto, mais conhecida como “pastinho”, às 10h15m. Lá já se encontrava o grupo que seguira na frente. Nosso atraso se deu porque decidimos fazer uma parada um pouco antes, num sombreiro no meio de muitas árvores para ficar conversando um pouco. Filosofando.

O pastinho é na realidade uma grande pedra plana na ponta de um costão, onde alguma relva nasceu na areia que ali se depositou pela ação dos ventos.

Paramos junto com o grupo e fizemos um lanche ali.

Após o descanso seguimos novamente por uma trilha dentro da mata onde tivemos de ter muita atenção porque em alguns momentos o caminho oferecia bifurcações mas somente um era o correto.
Caminhamos bastante sob mata densa até que chegamos a uma abertura com vista para o mar, onde o Beto Colombo se encontrava sentado numa pedra e ao seu lado o Mhanoel. Sentamos também por ali e os acompanhamos no silêncio contemplativo. É difícil dizer aqui sobre o que se sentia em alguns momentos como aquele, em que parávamos para sentir o universo. Acho que é isso. Sentir o universo. Dizer contemplar, é pouco. Ali sentados estávamos recebendo energias que não controlávamos. Era a presença de Deus. Com certeza.

Em dado momento vimos um golfinho brincando na água. De repente vimos mais. Eles brincavam. Era difícil fotografar, pois não sabíamos onde emergiriam.

O grupo principal já estava bem a frente e tivemos que seguir, interrompendo nosso momento de paz. Mais um pouco de caminhada e chegamos na Praia dos Naufragados onde um pequeno grupo de pescadores aguardava pela chegada de tainhas. Ali a população era formada por nosso grupo e os pescadores e mais ninguém. Estávamos no extremo sul da ilha.

Partimos pela trilha rumo a Caieira da Barra do Sul. Esta foi nossa última trilha do Caminho da Ilha. Estávamos voltando ao urbano.

Passava pouco das 13 horas e já caminhávamos sobre pavimentação. O sol aquecia e começávamos a ter contato com as casas açorianas abundantes na região.

Eu e o Cláudio vínhamos conversando mais a frente e a Clarice e a Mara vinham um pouco mais atrás. Encontramos a turma do “primeiro pelotão” num bar “cuidando do radiador”. Dois picolés de côco foram necessários para satisfazer minha vontade de algo gelado.
Desde que chegáramos na Caieira, saídos da trilha, a Mara vinha falando de uma famosa empada que era vendida ali no Ribeirão. Desta forma não comemos nada no bar se seguimos em direção a pousada, ansiosos por experimentar as tão recomendadas empadas.

Os dois cachorros ainda estavam acompanhando o grupo e neste momento escolheram por caminhar junto a nós.

O trecho compreendido entre a Caieira da Barra do Sul e a pousada é longo e se torna cansativo depois de se ter vencido as trilhas desde a Praia da Solidão. Caminhávamos, caminhávamos e nada de chegar as empadinhas ou a pousada.

Faltavam 20 minutos para as 16 horas quando chegamos na casa das empadas. A Clarice providenciou água para o cachorro que estava junto conosco. Momentos antes ele chegara a ir tomar água do mar de tanta sede. Pedimos as empadinhas e refrigerante. O Manuel (Português) sentou-se conosco e também fez seu pedido. Pudemos comprovar que realmente são deliciosas conforme falara a Mara. O Manuel fez questão de pagar nossas empadas.

Aos poucos chegaram outros caminhantes e foram se sentando e fazendo seus pedidos. O rapaz que ali trabalha ficou meio atônito com o movimento inesperado para uma tarde, no meio da semana, em dia fora de temporada.

Seguimos caminhando mais um pouco até a Pousada do Museu onde pernoitaríamos.

Pouco depois de nossa chegada apreciamos um belo por do sol bem a nossa frente.

Mais tarde nos reunimos no restaurante da pousada onde mais uma vez jantamos animadamente. Era nossa última janta. Agora tudo era contagem regressiva e já havia um princípio de sentimento de perda. Ali ainda foi efetuada uma votação secreta para escolha do “amigo do grupo” que seria revelado no almoço do dia seguinte.


8º dia – 18/06/2011 – Sábado [Ribeirão da Ilha – Centro]

Acordamos cedo e nos preparamos para a partida fazendo os alongamentos e a oração ali no pátio da pousada.

Quando saímos no portão percebemos que os dois cachorros ficaram nos aguardando.

O Ribeirão da Ilha é belo e aconchegante. Quando se passa por ali de carro, deixa-se de ver muitos detalhes. Caminhamos novamente no último grupo, com vagar até chegarmos á Freguesia. Depois aceleramos o passo e fomos alcançar os demais no trevo de acesso a Tapera. Ali, no bar a Clarice comprou uma almôndega que dividiu entre os dois cachorros, só que um deles, mais esperto, acabou por comer as duas partes.

Caminhamos mais um pouco até ao portão de acesso a Base Aérea onde paramos para aguardar os que ficaram para traz, uma vez que a travessia pela terreno da Base, além de ter que ser previamente autorizado, teria de ser feito em grupo. Ali não se pode fotografar.
Saímos pelo portão principal, próximo ao Aeroporto Hercílio Luz e seguimos em direção ao centro.

Próximo a casa do Cenoer e da Lucimar, o Décio, a Mirele, o Cláudio e a Mara despediram-se de nós porque teriam que seguir de carro visto tinham compromisso.

Mais a frente nos encontramos com a Zelinha que tinha vindo caminhar os últimos quilômetros conosco.

Seguimos pelo aterro e quando chegamos na última passarela atravessamos a via e seguimos para o centro pelo túnel. A Clarice havia feito este trajeto no 1º Caminho da Ilha e achávamos que todos seguiriam por ali.

Acabamos chegando ao centro antes dos demais. O Rudi e a Ana Zen e alguns parentes de outros caminhantes aguardavam o grupo.
Depois de algum tempo chegaram os demais que vieram pela Prainha.

Fizemos uma grande roda ao redor da figueira e com uma oração encerramos a caminhada, seguindo para a Rua Padre Roma onde almoçaríamos.

No restaurante o José Alves anunciou o resultado da escolha do “amigo do grupo”, cujo vencedor foi o Mhanoel Mendes. Efetuou também a entrega do Certificado a cada um dos participantes.

Foi dada a palavra para aqueles que quisessem dar seu depoimento e várias pessoas deram seu testemunho emocionado, contagiando a todos.
A confraternização continuou durante o almoço e depois fomos embora felizes mas com uma sensação estranha como se tivesse faltando alguma coisa. Afinal havíamos passado os últimos oito dias juntos, dividindo experiências e sensações.


Conclusão:

Fazer o Caminho da Ilha é uma experiência única. As lembranças deste Caminho ficarão em nossas lembranças para sempre. É uma aventura imperdível.

As lembranças sobre as pessoas que caminharam é outro ponto positivo desta edição do Caminho da Ilha. No dia 10 de junho éramos praticamente todos desconhecidos e, ao final, no dia 18 de junho, já tínhamos uma relação excelente. Houve um clima permanente de amizade e alegria. Cada um deixou sua marca. Todos foram colaborativos.